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Nas Garras da Graça

Nas Garras da Graça
Max Lucado
CPAD
Digitalizado por BlackNight
www.portaldetonando.com.br/forumnovo/
Sumário:
RECONHECIMENTOS
INTRODUÇÃO
1. A PARÁBOLA DO RIO
I PARTE - QUE DESORDEM!
2. A GRACIOSA IRA DE DEUS
3. VIDA ÍMPIA
4. JULGAMENTO ÍMPIO
5. RELIGIÃO ÍMPIA
II PARTE - QUE DEUS!
6. CHAMANDO OS CADÁVERES
7. ONDE O AMOR E A JUSTIÇA SE ENCONTRAM
8. CRÉDITO ONDE CRÉDITO NÃO É DÍVIDA
9. A LIGA PRINCIPAL DA GRAÇA
10. O PRIVILÉGIO DOS INDIGENTES
III PARTE - QUE DIFERENÇA!
11. A GRAÇA FUNCIONA
12. VOLTANDO-SE A SI MESMO
13. A GRAÇA É SUFICIENTE
14. A GUERRA CIVIL DA ALMA
15. O PESO DO ÓDIO
16. A VIDA A BORDO DO BARCO DA COMUNHÃO
17. O QUE REALMENTE QUEREMOS SABER
CONCLUSÃO: “NÃO SE ESQUEÇA DE CUIDAR DE MIM”
Reconhecimentos
Deixe-me dizer uma palavra de agradecimento a:
Karen Hill: Minha assistente e amiga, que dádiva é você!
Steve e Cheryl Green, e a equipe editorial UpWords: Obrigado por serem tão
fiéis.
Charles Prince: Nosso erudito residente. Apreciamos seus inputs.
Charles Swindoll: Suas palavras publicadas nas interseções mantiveram-me no
mais alto caminho.
Anciãos, ministério e membros da Oak Hills Church of Christ: Não há outra
igreja onde eu prefira servir.
Steve Halliday: Obrigado por mais um excelente guia de estudo.
Nacy Norris: Minha especial saudação a você, pelas muitas páginas que tem
suportado e aperfeiçoado em todos esses anos. Obrigado!
Sue Ann Jones: Possa sua tinta vermelha fluir. Obrigado por sua cuidadosa
revisão.
Meus companheiros da Word Publishing: Vocês conseguiram de novo! Bom
trabalho.
Dr. John Stott e seu criterioso livro Romans: God’s Good News for the World.
Sua sabedoria me foi inestimável enquanto escrevia este livro.
Jenna, Andrea, Sara: Sinto muito por todos os papais que não podem tê-las como
filhas.
E para Denalyn, minha esposa: Depois da graça de Deus, você é a melhor coisa
que me aconteceu.
E a você, leitor: Tenho orado por você. Antes que você pegasse este livro, pedi a
Deus que lhe preparasse o coração. Posso pedir-lhe que também ore por mim?
Poderia fazer a oração de Colossences 4.4 em meu favor? Obrigado. Sou honrado
por você ler estas páginas.
Possa Deus segurá-lo firmemente nas garras da sua graça.
Introdução
Minha única qualificação para escrever um livro sobre a graça é a roupa
que uso. Deixe-me explicar.
Durante anos, possui um elegante terno, com paletó, calça, e até um
chapéu. Considerava-me totalmente garboso nesse conjunto, e estava certo de que
os outros eram da mesma opinião.
As calças, talhei-as do tecido de minhas boas obras, fortemente urdido de
trabalhos realizados e projetos completados. Alguns estudos aqui, alguns sermões
ali. Muita gente elogiava minhas calças, e, confesso, eu tinha a tendência de puxálas
em público para que as pessoas pudessem notá-las.
O paletó era igualmente impressionante; tecido de minhas convicções. A
cada dia, eu me vestia em profundo sentimento de fervor religioso. Minhas
emoções eram absolutamente fortes. Tão fortes que, para dizer a verdade, muitas
vezes eu era solicitado a exibir meu manto de zelo em público, a fim de inspirar a
outrem. Claro, eu aquiescia feliz.
Enquanto isso, tinha também de expor meu chapéu — um quepe
emplumado de sabedoria, feito por minhas próprias mãos, tecido com fibras de
opinião pessoal. Eu o usava orgulhosamente.
Certamente, Deus está impressionado com minhas vestes, pensava eu com
freqüência. Ocasionalmente, impertigava-me em sua presença para que Ele
pudesse elogiar meus trajes feitos sob medida. Ele nunca falava. Seu silêncio deve
significar admiração, convenci a mim mesmo.
Mas então o meu guarda-roupa começou a deteriorar-se. O tecido de
minhas calças esgarçou-se. Minha melhor obra, ei-la a desintegrar-se. O que eu
fazia já não podia concluir, e o pouco que intentava já não me constituía motivo
de orgulho.
Não há problema, pensei. Vou trabalhar duro. Mas o trabalho duro era um
problema. Havia um buraco em meu paletó de convicções. Minha determinação
estava puída. Um vento frio golpeou-me o peito. Agarrei meu chapéu, e puxei-o
firmemente para baixo. A aba rasgou-se em minhas mãos.
Após um período de poucos meses, meu guarda-roupa de justiça própria
desfez-se completamente. De cavalheiro vestido sob medida, passei a mendigo
esfarrapado. Receando pudesse Deus agastar-se com os meus trapos, remendei-os
melhor que pude, e cobri meus erros. As roupas porém estavam muito gastas. E o
vento era gelado. Desisti. Voltei para Deus. (O que mais podia fazer?)
Numa quinta-feira invernal, entrei em sua presença, buscando não aplausos,
mas aconchego. Minha oração foi débil.
— Sinto-me nu.
— Você está nu. E tem estado assim por um longo tempo. O que Ele fez a
seguir, jamais esquecerei.
— Tenho algo para lhe dar — disse-me ele. E gentilmente removeu o
restante dos fiapos, e apanhou um manto — um manto real, uma veste de sua
própria bondade. Colocou-o em torno de meus ombros. Suas palavras soaram
cheias de ternura: — Meu filho, agora você está vestido com Cristo. (Ver Gl
3.27).
Embora houvesse cantado o hino milhares de vezes, só então o compreendi:
Vestido unicamente de sua justiça,
Irrepreensível perante o trono.
Tenho o pressentimento de que alguns de vocês sabem do que estou
falando. Você vem usando um traje feito por si mesmo. Você tem confeccionado
suas vestimentas, honrado suas obras religiosas, e... já notou um rasgo no tecido.
Antes que você comece a remendar-se a si próprio, gostaria de partilhar com você
alguns pensamentos sobre a maior descoberta de minha vida: a graça de Deus.
Minha estratégia é que gastemos algum tempo escalando as montanhas da
Epístola de Paulo aos Romanos. Escrita para auto-suficientes, essa epístola
contrasta a posição de pessoas que preferem envergar trajes feitos por si próprias,
com a daquelas que, alegremente, aceitam o manto da graça. Romanos é o maior
tratado já escrito sobre a graça. Você achará o ar fresco e a visão clara.
Martinho Lutero chamou Romanos de “A parte fundamental do Novo
Testamento e... verdadeiramente, o mais puro Evangelho”. Deus usou o livro de
Romanos para mudar as vidas (e o guarda-roupa) de Lutero, John Wesley, João
Calvino, William Tyndale, Agostinho, e milhões de outros.
Há inúmeras razões para pensar que Ele fará o mesmo a você.
Max Lucado
Memorial Day, 1996
1. A Parábola do Rio
Romanos 1.21-32
Havia outrora cinco irmãos, que moravam com o pai num castelo, no alto
de uma montanha. O mais velho era um filho obediente. Seus quatro irmãos,
todavia, eram rebeldes. O pai tinha-lhes grande cuidado por causa do rio; já lhes
havia implorado que ficassem distante da margem, para que não fossem varridos
pelo refluxo da maré. Mas eles não ligavam; a atração do rio era-lhes
demasiadamente forte.
A cada dia, os quatro irmãos rebeldes arriscavam-se cada vez mais perto do
rio, até que, uma vez, um deles atreveu-se a tocar a água.
— Segurem a minha mão — gritou ele. — Assim não cairei.
E seus irmãos o fizeram. Quando ele porém tocou a água, o repuxo
arrastou-o com os outros três para dentro da correnteza, rolando-os rio abaixo.
Foram despencando de rocha em rocha, girando no leito do rio. Arrastados
pelas vagas, eles se foram. Seus gritos de socorro perderam-se na fúria do rio.
Embora se debatessem tentando recuperar a estabilidade, foram impotentes contra
a força da correnteza. Depois de horas de esforço, renderam-se ao puxão do rio.
As águas finalmente lançaram-nos à margem, numa terra estranha, num distante
país. O lugar era estéril.
Um povo selvagem habitava aquela terra. Não era segura como o lar que
eles tinham.
Ventos frios gelavam a terra. Não era quente como o lar que possuíam.
Montanhas inóspitas assinalavam a terra. Não era convidativa como o lar
que conheciam.
Embora não soubessem onde estavam, de uma coisa tinham certeza: não
haviam sido feitos para aquele lugar. Por um longo tempo, os quatro jovens
irmãos ficaram deitados na margem, atordoados com a queda, e sem saber para
onde se voltarem. Após algum tempo, reuniram coragem e tornaram a entrar na
água, esperando andar rio acima. Mas a correnteza era demasiadamente forte.
Tentaram caminhar ao longo da margem, porém o terreno era íngreme demais.
Consideraram a possibilidade de subir as montanhas, contudo, o cimo era muito
alto. Além de tudo, não conheciam o caminho.
Finalmente, fizeram um fogo, e sentaram-se à volta.
— Não deveríamos ter desobedecido nosso pai — admitiram eles. —
Estamos a grande distância de casa.
Com o passar do tempo, os filhos aprenderam a sobreviver na terra
estranha. Encontraram nozes para alimento, e mataram animais para ter as peles.
Eles tinham determinado não esquecer a terra natal, nem abandonar as esperanças
de retornar. A cada dia, os quatro aplicavam-se à tarefa de achar alimento e
construir abrigo. A cada noite, acendiam o fogo e contavam histórias de seu pai e
do irmão mais velho, ansiando por vê-los novamente.
Então, numa noite, um dos irmãos ausentou-se da fogueira. Os outros o
encontraram, na manhã seguinte, no vale com os selvagens. Ele havia construído
uma choupana de barro e palha.
— Tenho me cansado de nossas conversas — confessou ele. — De que
adianta recordar? Além de que, esta terra não é tão ruim. Vou construir uma
grande casa e estabelecer-me aqui.
— Mas aqui não é nosso lar. — Objetaram os outros.
— Não. Mas será, se vocês não pensarem no verdadeiro
— Mas, e nosso pai?
— O que tem ele? Ele não está aqui. Não está por perto. Devo viver para
sempre na expectativa de sua chegada? Estou fazendo novos amigos; estou
aprendendo novos caminhos. Se ele vier, muito que bem, mas eu não vou parar
minha vida.
E assim, os outros três deixaram o construtor de cabanas, e se foram. Eles
continuaram a se encontrar em volta do fogo, falando do lar e sonhando com o
retorno.
Alguns dias depois, o segundo irmão faltou ao encontro da fogueira. Na
manhã seguinte, os outros dois o acharam no alto de uma ladeira, fitando a cabana
de seu irmão.
— Que desgosto — desabafou ele, quando os dois se aproximaram. —
Nosso irmão é um fracasso total. Um insulto ao nome de nossa família. Podem
imaginar um ato mais desprezível? Construindo uma cabana, e esquecendo nosso
pai?!
— O que ele está fazendo é errado — concordou o mais jovem. — Mas o
que fizemos é igualmente mau. Nós desobedecemos. Tocamos o rio. Ignoramos
as advertências de nosso pai.
— Bem, podemos ter cometido um ou dois enganos, mas comparados
àquele coitado da choupana, nós somos santos. Papai vai perdoar nosso pecado, e
castigar a ele.
— Venha — instaram os dois irmãos. — Volte ao fogo conosco.
— Não. Acho que devo manter o olho em nosso irmão. Alguém precisa
conservar uma recordação de seus erros para mostrar a papai.
Assim, os dois retornaram, deixando um irmão construindo e o outro
julgando.
Os dois filhos remanescentes ficaram perto do fogo, encorajando-se
mutuamente e falando do lar. Então, ao acordar numa manhã, o mais novo achouse
sozinho. Procurou pelo irmão, e encontrou-o perto do rio, amontoando pedras.
— As coisas não são assim — explicou o amontoador de pedras, enquanto
trabalhava. — Meu pai não vem a mim. Eu devo ir a ele. Eu o ofendi. Insultei-o.
Falhei com ele. Há apenas uma opção: construirei um caminho de pedras sobre o
rio, e irei até a presença de nosso pai. Pedra sobre pedra, eu as amontoarei até que
sejam suficientes para eu viajar rio acima, em direção ao castelo. Ao ver quão
duro eu tenho trabalhado, e quão diligente tenho sido, nosso pai não terá escolha:
aluirá a porta, e me deixará entrar em sua casa.
O último irmão não soube o que dizer. Voltou a sentar-se sozinho junto ao
fogo. Certa manhã, ouviu atrás de si uma voz familiar.
— Papai mandou-me buscar vocês, e levá-los para o lar. Levantando os
olhos, ele viu a face de seu irmão mais velho.
— Você veio buscar-nos! — Gritou ele. E ambos ficaram abraçados por
um longo tempo.
— E os outros? — Perguntou finalmente o mais velho.
— Um fez uma casa aqui. O outro o está olhando. E o terceiro está
construindo um caminho sobre o rio.
E assim, o primogênito pôs-se a procurar os irmãos. Foi primeiro à
choupana de palha, no vale.
— Fora, estranho! — enxotou o seu irmão, pela janela. — Você não é bemvindo
aqui!
— Eu vim para levá-lo ao lar.
— Mentira! Você veio pegar minha mansão!
— Isto não é uma mansão — ponderou o primogênito — É uma choupana.
— É uma mansão! A mais bela da planície. Eu a construí com minhas
próprias mãos. Agora, vá embora. Você não pode ficar com minha mansão.
— Você não se lembra da casa de seu pai?
— Não tenho pai.
— Você nasceu num castelo, numa terra distante, onde o ar é cálido, e os
frutos, abundantes. Você desobedeceu a seu pai, e acabou nesta terra estranha. Eu
vim a fim de levá-lo para casa.
O irmão perscrutou a face do primogênito através da janela, como se
estivesse vendo um rosto já visto num sonho. Mas a pausa foi curta, pois, de
repente, os selvagens atopetaram a janela também.
— Vá embora, intruso! — exigiram eles. — Esta casa não é sua.
— Vocês estão certos — respondeu o primogênito. — Mas vocês não são
nada dele.
Os olhos dos dois irmãos encontraram-se novamente. Mais uma vez o
construtor sentiu um aperto no coração, mas os selvagens haviam conquistado sua
confiança.
— Ele quer apenas a sua mansão — gritaram eles. — Mande-o embora! E
ele o mandou.
O primogênito foi procurar o segundo irmão. Não teve de ir muito longe.
Sobre a ladeira, próximo à cabana, ao alcance da vista dois selvagens, estava o
irmão acusador. Ao ver o primogênito aproximando-se, ele alegrou-se:
— Que bom que você está aqui para ver o pecado de nosso irmão! Você
está sabendo que ele voltou as costas ao castelo? Está sabendo que ele nunca mais
falou de casa? Eu sabia que você viria, e tenho anotado cuidadosamente as ações
dele. Castigue-o! Eu aplaudirei a sua ira. Ele a merece! Trate dos pecados de
nosso irmão.
O primogênito falou suavemente:
— Precisamos cuidar de seus pecados primeiro.
— Meus pecados?
— Sim, você desobedeceu o papai.
O irmão deu uma risada sarcástica, e esmurrou o ar.
— Meus pecados não são nada. Lá está o pecador — acusou ele, apontando
para a cabana. Deixe-me contar-lhe dos selvagens que ficam lá...
— Prefiro que me fale de si mesmo.
— Não se preocupe comigo. Deixe-me mostrar a você quem é que precisa
de ajuda — insistiu ele, correndo em direção à choupana. — Venha, nós
espiaremos pela janela. Ele nunca me vê. Vamos juntos. — E ele chegou à
cabana, antes de perceber que seu irmão mais velho não o seguira.
Depois disso, o primogênito encaminhou-se para o rio. Lá, achou o terceiro
irmão, afundado na água até os joelhos, amontoando pedras.
— Papai mandou-me levar você para casa. O outro nem levantou os olhos.
— Não posso conversar agora. Devo trabalhar.
— Papai sabe que você caiu. Contudo, ele o perdoará.
— Ele pode — interrompeu o irmão, esforçando-se por manter o equilíbrio
contra a correnteza. Mas antes tenho de chegar ao castelo. Devo construir um
atalho sobre o rio. Primeiro lhe mostrarei que sou digno. Então, pedirei sua
misericórdia.
— Ele já teve misericórdia de você. Eu o transportarei rio acima. Você
jamais será capaz de construir um atalho. O rio é tão comprido! A tarefa é grande
demais para você. Papai mandou-me carregá-lo para casa. Eu sou forte.
Pela primeira vez, o amontoador de pedras olhou para cima.
— Como você ousa falar com tanta irreverência? Meu pai não irá me
perdoar facilmente. Eu pequei. Cometi um grande pecado! Ele nos disse para
evitarmos o rio, e nós desobedecemos. Sou um grande pecador. Preciso trabalhar
muito.
— Não, meu irmão, você não precisa de muito trabalho. Você precisa de
muita graça. Você não possui força nem pedras suficientes para construir a
estrada. Foi por isso que nosso pai me enviou. Ele quer que eu o leve para casa.
— Está dizendo que não consigo? Está querendo dizer que não sou
suficientemente forte? Veja meu trabalho. Veja minhas rochas. Eu já posso dar
cinco passos!
— Porém ainda faltam cinco milhões à frente!
O irmão mais novo fitou o primogênito com raiva.
— Eu sei quem é você. Você é a voz do mal. Está tentando seduzir-me e
afastar-me de meu santo trabalho. Para trás de mim, serpente! — E ele jogou no
primogênito a pedra que ia pôr no rio.
— Herético! - gritou o construtor de estrada. - Deixe esta terra. Você não
pode me fazer parar! Construirei esta passagem, e apresentar-me-ei ante meu pai.
Então ele terá de perdoar-me. Eu conquistarei o seu favor. Serei merecedor da sua
compaixão.
O primogênito balançou a cabeça.
— Favor conquistado não é favor. Compaixão merecida não é compaixão.
Eu lhe imploro, deixe-me transportá-lo rio acima.
A resposta foi outra pedrada. Então o primogênito virou-se e saiu. O irmão
mais jovem estava esperando junto ao fogo, quando o primogênito retornou.
— Os outros não vêm?
— Não. Um preferiu indultar-se; o outro, julgar; e o terceiro, trabalhar.
Nenhum deles escolheu nosso pai.
— Então eles permanecerão aqui?
O primogênito balançou a cabeça devagar.
— Por enquanto.
— E nós voltaremos ao pai? — indagou o mais novo.
— Sim.
— Ele me perdoará?
— Teria ele me enviado, se não fosse assim?
E então, o mais jovem subiu nas costas do primogênito, e iniciaram a
jornada para o lar.
* * *
Todos os irmãos receberam o mesmo convite. Cada um teve a oportunidade
de ser carregado pelo irmão mais velho. O primeiro disse não, preferindo uma
choupana de palha à casa de seu pai. O segundo disse não, preferindo analisar os
erros de seu irmão, em vez dos seus próprios. O terceiro disse não, achando que
seria melhor causar uma boa impressão que fazer uma confissão honesta. E o
quarto disse sim, escolhendo a gratidão em lugar da culpa.
“Serei indulgente comigo mesmo” — resolveu um dos filhos. “Compararei
os outros a mim mesmo” — optou o outro.
“Eu mesmo serei o meu salvador” — determinou o terceiro. “Confiar-me-ei
a você” — decidiu o quarto.
Posso fazer-lhe uma indagação crucial? Lendo sobre esses irmãos, qual
deles descreve seu relacionamento com Deus? A exemplo do quarto filho, você
tem reconhecido sua incapacidade de fazer sozinho a jornada para o lar? Você
tem aceitado a mão estendida de seu Pai? Você está preso nas garras da sua
graça?
Ou você tem agido como um dos outros três filhos?
Um hedonista. Um judicialista. Um legalista. Iodos ocupados consigo
mesmos, rejeitando o pai. Paulo discorre sobre esses três nos primeiros três
capítulos de Romanos. Demos uma olhada em cada um.
O Hedonista Construtor de Cabanas
Romanos 1.21-32
Você pode identificar o construtor de cabanas? Ele troca sua paixão pelo
castelo por um amor da planície. Em vez de ansiar pelo lar, decide-se por uma
cabana. A meta de sua vida é o prazer. Essa é a definição de hedonismo, e tal é a
prática desse filho.
O hedonista dirige sua vida como se não houvesse pai em seu passado,
presente, ou futuro. Talvez haja existido um pai em algum lugar, nalgum passado
remoto, a muito tempo atrás... mas e quanto ao aqui e agora? O filho viverá sem
ele. Talvez haja, num futuro distante, um pai que venha e o reclame, mas e quanto
a hoje? O filho tocará a vida ao seu próprio modo. Em vez de apropriar-se do
futuro, ele satisfaz-se com o presente.
Paulo tinha tal pessoa em mente, quando disse “E mudaram a glória do
Deus incorruptível em semelhança de imagem de homem corruptível, e de aves, e
de quadrúpedes, e de répteis... e honraram e serviram mais a criatura do que o
Criador, que é bendito eternamente” (Rm 1.23, 25). Os hedonistas fazem pobres
permutas; trocam mansões por choupanas, e o irmão por um estranho. Trocam a
casa do pai por um gueto na ladeira, e mandam embora o irmão.
MAPEANDO A PARÁBOLA
O Hedonista Construtor
de Cabanas
Romanos 1.18-32
O Judicialista
Censor
Romanos 2.1-11
Estratégia Indulgente comigo
mesmo
Comparar a mim
mesmo
Meta Satisfazer minhas
paixões
Monitorar meu vizinho
Descrição Amante do prazer Dedo-duro
Personalidade Boa-vida Orgulhoso
Auto-análise Posso ser mau, mas e
daí?
Posso ser mau, mas
sou melhor que...
Teologia Descuidado de Deus Tentar distrair a Deus
Grande lema “A vida é curta. Divirtase.
Deus está de olho em
você, e eu também
Queixa Não posso folgar o
bastante.
Não poso ver o bastante
Animal favorito Gato Cão de guarda
Gasta tempo olhando O menu de opções A cerca do vizinho
Visão da graça Quem, eu? Sim, você!
Visão do pecado Ninguém é culpado Ele é culpado.
Ética de trabalho O que eu faço é da
minha conta.
O que você faz é da
minha conta.
Expressão favorita Viva a vida! Endireite-se!
Limites Se lhe parece
agradável, faça-o.
Se lhe parece
agradável, não o faça.
Condição Enfadado Amargo
Pronunciamento de
Paulo
Você não tem
desculpas para as
coisas que faz.
Você não tem
autoridade para julgar.
Verso chave “Deus os entregou às
concupiscências do seu
coração” (Rm 1.24)
Portanto és inescusável
quando julgas, sejas,
porque te condenas a ti
mesmo naquilo em que
julgas a outro; pois tu
que julgas, fazes o
mesmo
MAPEANDO A PARÁBOLA
O Legalista Amontoador de Pedras
Romanos 2.17-3.20
O Cristão Conduzido Pela Graça
Romanos 3.21-25
Salvar a mim mesmo Confiar-me a Cristo
Avaliar meus méritos Conhecer meu pai
Sobrecarregado Amante de Deus
Estressado Sereno
Posso ser mau, mas se eu trabalhar
duro...
Posso ser mau, mas sou perdoado.
Subornar Deus Busca de Deus
Eu devo. Eu devo, e vou trabalhar. Não sou perfeito, mas sou perdoado.
Não posso trabalhar o bastante. Não posso agradecer-lhe o bastante.
Castor Águia
A lista de exigências A abundância das bênçãos divinas
Eu, não! Sim, eu.
Eu sou sempre culpado. Eu era culpado.
O que Deus requer, eu faço. O que Deus faz é da minha conta.
Ao trabalho! Obrigado!
Se lhe parece agradável, interrompa-o. Se lhe parece agradável, examine-o.
Exausto Agradecido
Você não tem solução para o seu
problema.
Você não tem porque temer.
“Àquele que faz qualquer obra, não lhe
é imputado o galardão segundo graça,
mas segundo a dívida” Rm 4.4,5
“Mas o justo viverá da fé” Rm 1.17
O Judicialista Acusador
Romanos 2. 1-11
A proposta do segundo filho era simples: Por que tratar de meus próprios
erros, quando posso enfocar os erros alheios?
Ele é um judicialista. Eu posso ser mau, mas desde que consiga encontrar
alguém pior, estou salvo. Ele alimenta sua benevolência com as faltas de outrem.
Se auto indica como o queridinho do professor na escola primária. Tagarela sobre
o trabalho malfeito dos outros, esquecendo-se do zero em sua própria folha. Ele é
o cão de guarda da vizinhança, mandando as pessoas porem em ordem as suas
vidas, mas nunca notando o lixo em sua própria calçada.
“Venha, Deus, deixe-me mostrar-lhe as más ações de meu vizinho” —
convida o moralista. Deus, porém, não o segue até o vale. “Portanto, és
inescusável quando julgas, ó homem, quem quer que sejas, porque te condenas a
ti mesmo naquilo em que julgas a outro; pois tu que julgas, fazes o mesmo” (Rm
2.1). Esse é um golpe baixo, e Deus não cairá nele.
O Legalista Amontoador de Pedras
Romanos 2.17-3.20
E então, vamos ao irmão do rio. Ahhh, aqui está um filho que nós
respeitamos. Diligente. Industrioso. Zeloso. Enérgico. Aqui está um companheiro
que enxerga os próprios pecados, e propõe-se a resolvê-los sozinho. Sem dúvida,
ele merece nossos aplausos. Seguramente, é digno de imitação. E, mais certo
ainda, é merecedor da misericórdia paterna. Não irá o pai escancarar as portas do
castelo, quando vir o quão duro este filho tem trabalhado para chegar ao lar?
Sem ajuda do pai, o legalista está tentando resolver a pendência e vadear o
rio da falta. Certamente, o pai ficará feliz em vê-lo. Isto é, se o pai o vir.
Note bem, o problema não é a afeição do pai, mas a força do rio. O que
puxou o filho para longe da casa paterna não foi um regato suave, mas uma
tempestuosa corrente. Seria o filho suficientemente forte para construir um
caminho, rio acima, para a casa do pai?
Duvidoso. Nós, certamente, não conseguiríamos. “Não há um justo, nem
um sequer” (Rm 3.10). Oh, contudo, nós tentamos. Não amontoamos pedras num
rio, mas fazemos boas obras na terra. Nós pensamos: Se eu fizer isto, Deus me
aceitará. Se eu der aula na Escola dominical... e pegamos uma pedra. Se eu for à
igreja... e colocamos a pedra no rio. Se eu der este dinheiro... outra pedra. Se eu
aturar o livro do Max Lucado... dez grandes pedras. Se eu ler minha Bíblia, tiver a
opinião correta sobre a doutrina certa, se eu participar desse movimento... pedra
sobre pedra, sobre pedra.
O problema? Você pode dar cinco passos, restam porém cinco milhões à
frente. O rio é longo demais. O que nos separa de Deus não é um córrego raso e
manso, mas uma caudalosa corrente, uma cachoeira, um opressivo rio de pecados.
Nós ajuntamos, amontoamos e empilhamos, apenas para descobrir que mal
podemos pisar, muito menos progredir.
O impacto sobre os amontoadores de pedras é notadamente previsível:
desespero ou arrogância. Eles desistem, ou tornam-se orgulhosos. Pensam que
jamais o farão, ou acreditam-se os únicos capazes de fazê-lo. É estranho como
duas pessoas podem olhar para as mesmas pedras amontoadas, e uma pender a
cabeça, enquanto a outra estufa o peito.
Tal condição pode ser chamada de ateísmo religioso. Este é o lema por trás
do ousado pronunciamento de Paulo: “Somos todos pecadores, cada um de nós,
afundando no mesmo barco com todos eles” (Rm 3.19).
Ímpio ou Piedoso?
Que trio, não!
O primeiro, num banquinho rústico.
O segundo, na cadeira do juiz.
O terceiro, no banco da igreja.
Embora possam parecer diferentes, há muita semelhança entre eles. Todos
estão separados do pai. E nenhum está pedindo ajuda. O primeiro é indulgente
com a própria paixão; o segundo monitora seu vizinho; e o terceiro confia nos
próprios méritos. Auto-satisfação. Auto-justificação. Auto-salvação. A palavra
operante é auto. Auto-suficiente. “Não se importam com Deus, nem tampouco
com o que Ele pensa deles” (Rm 3.18 BV)
A palavra usada por Paulo é ateísmo (Rm 1.18). A palavra define a si
própria. Uma vida desprovida de Deus. É mais que desdenhar a Deus; é descuidar
de sua existência. O desdém ao menos admite sua presença; o ateísmo, não.
Enquanto o desdém leva o povo à irreverência, o descuido o faz agir como se
Deus fosse irrelevante, como se ele não contasse na jornada.
Como Deus responde aos ímpios? Por certo, não frivolamente. “Porque do
céu se manifesta a ira de Deus sobre toda impiedade e injustiça dos homens que
detêm a verdade em injustiça” (Rm 1.18). Paulo não aliviou. Deus está justamente
irado com as ações de seus filhos.
Posso desde já prepará-lo: os primeiros capítulos de Romanos não são
exatamente otimistas. Paulo dá-nos as más notícias, antes das boas.
Eventualmente, ele nos dirá que somos todos candidatos à graça, mas não antes de
provar que somos todos, desesperadamente, pecadores. Temos de ver a desordem
em que estamos, antes de apreciar o Deus que temos. Antes de recebermos a
graça de Deus, devemos entender a sua ira.
É já que Paulo começou por aí, é por aí que começaremos.
I Parte - QUE DESORDEM!
A perda do mistério conduz à perda da majestade. Quanto
mais sabemos, menos acreditamos. Sem maravilhas não há
admiração. Achamos que tudo é figurado. Estranho, não
acha?
O conhecimento do processo não deveria desmentir o
milagre.
Deveria, antes, suscitar a admiração.
Quem tem mais razão para adorar que o astrônomo que viu
as estrelas?
Que o cirurgião que segurou um coração? Que o oceanógrafo
que sondou as profundezas?
2. A Graciosa Ira de Deus
Romanos 1.18-20
A ira de Deus é revelada do céu contra toda impiedade e
injustiça dos homens que suprimem a verdade pela justiça,
pois o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles,
porque Deus lhes manifestou. Romanos 1.18,19
— E se você descobrisse que o seu namorado tem dormido com a sua mãe?
O auditório silenciou. A adolescente sentada no palco moveu a cabeça em ardente
expectativa.
A mãe era uma mulher de meia idade, num vestido preto justo, de braço
dado com um rapaz magro, usando uma camiseta sem mangas. Ela acenou para a
multidão. Ele sorriu.
Era o programa de entrevistas de Christy Adams.
— Vocês dois realmente têm dormido juntos? A mãe, ainda segurando a
mão do rapaz, olhou para ele. O jovem riu. Ela sorriu.
— Sim.
Ela explicou como se sentira solitária desde o divórcio. O namorado de sua
filha não saía de sua casa, dia e noite, e... bem, uma tarde, ele estatelou-se no sofá
ao seu lado, e os dois começaram a conversar, e uma coisa levou à outra, e eles
acabaram indo... Sua face ruborizou-se, e o rapaz encolheu os ombros, deixando o
auditório completar a história. A garota estava silenciosa e sem expressão.
— Você não se preocupa com o que isto pode ensinar à sua filha? —
Inquiriu Christy.
— Estou apenas lhe ensinando os caminhos do mundo.
— E quanto a você? — perguntou Christy ao rapaz. — Não está sendo
infiel à sua namorada?
O garoto o fitou sinceramente espantado.
— Eu ainda a amo — anunciou ele. — Amando sua mãe, estou apenas
ajudando-a. Somos uma família feliz. Não há nada de errado nisso!
O auditório explodiu com palmas e ovações. Quando o tumulto diminuiu,
Christy falou aos amantes:
— Nem todos concordariam com vocês. Tenho um convidado que vai
reagir ao seu estilo de vida.
Com isso, a multidão aquietou-se, ansiosa por ver quem Christy havia
recrutado para apimentar o diálogo.
— Ele é o teólogo mais famoso do mundo. Seus escritos têm sido seguidos
por uns e debatidos por outros. Fazendo sua primeira aparição no Christy Adams
Show, por favor recebam o controverso teólogo, o erudito escritor, apóstolo
Paulo!
Polidos aplausos saudaram o homem baixo e careca, usando óculos e um
casaco de tweed. Ele afrouxou um pouco a gravata, enquanto assentava sua frágil
carcaça na cadeira do palco. Christy pulou as boas-vindas.
— Você tem se preocupado com o que estas pessoas andam fazendo?
Paulo pousou as mãos no regaço, olhou para o trio, e então voltou-se para
Christy.
— O que importa não é como eu me sinto, mas como Deus se sente.
Christy fez uma pausa, e os ouvintes puderam ouvir os “ooohs!” ecoando
através do estúdio.
— Então diga-nos, por favor, Paulo, como Deus se sente a respeito desse
criativo triângulo?
— Irado.
— E por quê?
— O mal enfurece a Deus, porque destrói os seus filhos. O que estas
pessoas estão fazendo é mal.
As fortes palavras suscitaram algumas vaias, um aplauso aqui e acolá, e
uma erupção de mãos levantadas. Antes que Christy pudesse falar, Paulo
continuou:
— Como resultado, Deus os tem deixado e permitido que sigam seu
caminho pecaminoso. Seus pensamentos são escuridão, seus atos são maus, e
Deus está desgostoso.
Um magricela sentado à frente proclamou o seu protesto:
— O corpo é dela. Ela pode fazer o que quiser!
— Oh, mas é aí que você se engana. Seu corpo pertence a Deus e é para ser
usado por ele.
— O que estamos fazendo é inofensivo — objetou a mãe.
— Olhe para a sua filha — instou Paulo, gesticulando para a menina, cujos
olhos estavam cheios de lágrimas. — Não vê que você a tem prejudicado? Você
trocou amor saudável por luxúria. Trocou o amor de Deus pelo amor da carne.
Trocou a verdade pela mentira. E trocou o natural pelo antinatural...
Christy não pôde mais conter-se:
— Você sabe o quanto está sendo sentimentalóide? Toda essa conversa
sobre Deus, sobre certo e errado, e imoralidade? Você não se sente fora da
realidade?
— Fora da realidade? Não. Fora de lugar, sim. Mas fora da realidade,
dificilmente. Deus não fica impassível enquanto seus filhos toleram a perversão.
Ele permite-nos seguir nossos caminhos pecaminosos, e colher as conseqüências.
Todo coração partido, toda gravidez indesejável, todas as guerras e tragédias, se
seguidas pelo rasto, levarão ao ponto de partida: nossa rebelião a Deus.
As pessoas pularam de seus lugares; a mãe pôs um dedo na cara de Paulo, e
Christy voltou-se para a câmera, deliciado com o pandemônio.
— Vamos fazer uma pausa — anunciou ele por cima do alarido. Não
saiam. Temos mais algumas perguntas para nosso amigo, o apóstolo.
Deus Odeia o Mal
Como lhe pareceu o diálogo acima? Áspero? (Paulo estava muito tenso.)
Irreal? (A cena foi muito estranha.) Bizarro? (Ninguém aceitaria tais convicções.)
Não obstante a sua resposta, é importante notar que, embora o roteiro seja
fictício, as palavras de Paulo não o são.
Deus está contra “toda impiedade e injustiça dos homens” (Rm 1.18).
Aquele que insta-nos a odiar o que é mal (Rm 12.9) também o odeia.
Em três duros versos, Paulo exprime:
“Deus os entregou à impureza sexual...” (Rm 1.24 NVI).
“Deus os entregou a paixões vergonhosas...” (Rm 1.26 NVI).
“Deus os entregou a uma disposição mental reprovável... (Rm 1.28 NVI).
Deus está irado por causa do mal.
Para muitos, isto é uma revelação. Alguns imaginam Deus como um rígido
diretor de escola, tão ocupado em controlar os planetas, que nem se dá conta de
nós.
Ele não é assim.
Outros o imaginam como um pai coruja, cego às maldades de seus filhos.
Errado.
Ainda outros insistem que ele nos ama tanto, que é incapaz de ficar bravo
com nossas maldades.
Eles não compreendem que o amor sempre aborrece o mal.
Deus Tem Todo Direito de Estar Irado
Muitos não entendem a ira de Deus, porque confundem ira divina com
raiva humana. Ambas têm pouca coisa em comum. A ira dos homens é
tipicamente auto-acionada, e inclinada a explosões de temperamento e atos
violentos. Ficamos irados por havermos sido passados para trás, negligenciados,
ou enganados. Esta é a ira dos homens, não de Deus.
Deus não fica zangado por não havermos feito como Ele quis. Ele se ira
porque a desobediência sempre resulta em autodestruição. Que tipo de pai se
sentaria e assistiria seu filho ferindo-se a si próprio?
Que espécie de Deus faria o mesmo? Você acha que Ele dá risadinhas
quando vê um adultério, ou se ri em silêncio de um assassinato? Pensa que Ele
olha para o outro lado, quando produzimos programas de entrevistas baseados em
prazeres perversos? Imagina que Ele balança a cabeça e diz “Humanos são
humanos”?
Eu não acho. Anote isto e sublinhe em vermelho: Deus está legitima e
justamente irado. Deus é santo. Nossos pecados são uma afronta à sua santidade.
Seus olhos são “tão puros, que não podem ver o mal, nem contemplar aqueles que
andam errados” (Hc 1.13).
Deus está irado com o mal que arruina seus filhos. “Contanto que Deus é
Deus, Ele não pode ver com indiferença a sua criação ser destruída, e o seu
santuário pisado.”
Não Temos Desculpa
Meu pai tinha para com o álcool uma hostilidade semelhante à ira de Deus.
Jack Lucado odiava a bebida em qualquer uma de suas formas, porque ele
conhecia o seu poder destrutivo. Sua natureza branda revoltava-se ante a idéia de
embriaguez. Ele não deixou dúvidas em minha mente de que odiava a bebida, e
queria que seus filhos não tivessem nada a ver com ela.
Mas os filhos nem sempre ouvem os pais. Aos quinze anos, maquinei um
plano para embriagar-me, e o consegui. Tomei cerveja até não poder enxergar
direito, então fui para casa e vomitei até não poder parar em pé. Meu pai foi ao
banheiro, sentiu o cheiro da cerveja, atirou-me uma toalha, e afastou-se
desgostoso. Eu cambaleei para a cama, sabendo que estava com um grande
problema.
Ele acordou-me cedo, na manhã seguinte. (Não houve como eu desfrutar da
ressaca). Enquanto tomava banho, tentei achar uma explicação. “Meus amigos
fizeram-me beber”, ou “Foi um acidente”, ou Alguém deve ter posto uísque no
ponche”. Mas uma opção que eu jamais consideraria seria a ignorância. Não
podia nem pensar em dizer “O senhor nunca me disse que eu não devia beber”.
Não teria sido apenas uma mentira, mas uma calúnia contra meu pai. Ele
nunca me havia dito? Nunca me tinha advertido? Nunca tentara ensinar-me? Eu
sabia até demais para dizer que ignorava o assunto. Não havia desculpas para
mim. De acordo com Paulo, todo somos culpados. Num dos trechos mais
interessantes da Bíblia, ele diz:
“Pois o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles,
porque Deus lhes manifestou. Pois desde a criação do mundo
os atributos invisíveis de Deus, seu eterno poder e sua
natureza divina, têm sido vistos claramente, sendo
compreendidos por meio das coisas criadas, de forma que
tais homens são indesculpáveis” (Rm 1.19,20 NVI, itálico
meu).
Não temos desculpa, porque Deus se nos tem revelado através da criação.
Escreve o salmista: “Os céus manifestam a glória de Deus e o firmamento
anuncia a obra das suas mãos. Um dia faz declaração a outro dia, e uma noite
mostra sabedoria a outra noite. Sem linguagem, sem fala, ouvem-se as suas vozes
em toda a extensão da terra, e as suas palavras até ao fim do mundo” (Sl 19.1-4)
Cada estrela é um anúncio. Cada folha, uma lembrança. As geleiras são
megafones, as estações, capítulos da história; e as nuvens, estandartes. A natureza
é uma canção de muitas partes, mas de um só tema e um só verso: Deus é.
Centenas de anos atrás, Tertuliano declarou:
Não foi a pena de Moisés que introduziu o conhecimento do
Criador... A maior parte da humanidade, mesmo sem nunca
ter ouvido o nome de Moisés — para não falar de seus livros
— conheceu, não obstante, o Deus de Moisés. A natureza é a
professora; a alma, a pupila... Uma flor da cerca viva... uma
concha vinda do mar... uma pena de uma ave do pântano...
falariam a você de um Criador mesquinho?... Se eu lhe
oferecer uma rosa, você não desprezará seu Criador.
A Criação é a primeira missionária de Deus. Existem aqueles que nunca
seguraram uma Bíblia, ou ouviram um trecho das Escrituras, Existem aqueles que
morrem antes que um intérprete traduza a Palavra de Deus para a sua língua.
Milhões viveram nos tempos antigos, antes de Cristo, e outros milhões vivem em
terras distantes, longe dos cristãos. E há os simplórios, incapazes de compreender
o Evangelho. O que reserva o futuro dessas pessoas que nunca ouviram de Deus?
Novamente, a resposta de Paulo é clara. O coração humano pode conhecer
a Deus através da natureza. Se isso for tudo o que uma pessoa pode ver, isso será
suficiente. É preciso responder somente ao que lhe é dado. E se lhe é dado apenas
o testemunho da Criação, então isso lhe basta.
O problema não é que Deus não fale; nós é que não ouvimos. Deus diz que
sua ira é dirigida contra qualquer coisa, ou qualquer um, que suprima o
conhecimento da verdade. Deus ama seus filhos, e odeia aquilo que os destrói.
Isto não significa que Ele se encolerize, perca sua têmpera, ou seja
emocionalmente imprevisível. Significa, simplesmente, que Ele ama você, e odeia
aquilo em que você se torna quando o desobedece.
Chame isto de santa hostilidade. Um justo ódio do pecado. Um divino
desgosto pelo mal que destrói seus filhos.
A questão não é “Como ousa irar-se um Deus amoroso?”, mas antes.
“Como poderia um Deus amoroso sentir menos que isso?
3. Vida Ímpia
Romanos 1.21-32
E mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da
imagem de homem corruptível, e de aves, e de quadrúpedes,
e de répteis... honraram e serviram mais a criatura do que o
Criador. Romanos 1.23,25
Pode um grilo conceber comunhão? Tenho estado meditando na questão
desde o último domingo, quando ambos, o grilo e a indagarão surgiram no meu
caminho. A Ceia do Senhor estava sendo servida quando, ao curvar minha cabeça,
avistei o visitante embaixo do banco. Minha mente fértil imaginou-o entrando
sorrateiramente pela porta lateral, esgueirando-se por entre os pés dos diáconos, e
caminhando para a frente do santuário.
A visão de um grilo despertou muitas emoções dentro em mim, nenhuma
delas espiritual. Perdoem-me todos vocês, amantes de insetos, mas não fui atraído
por sua beleza nem surpreendido por sua força. Normalmente eu não me
interessaria pelo inseto, porém a presença de um bichinho no auditório pareceume
simbólica.
Temos algo em comum, você, eu, e o grilo: visão limitada. Espero que o paralelo
não o faça virar bicho {ai!), mas eu o acho apropriado. Nenhum de nós faz uma
imagem correta da vida além do espigão.
Veja você, tanto quanto interessa ao grilo, seu universo inteiro é um
auditório. Posso visualizá-lo levando o filho para fora da parede, numa noite, e
mandando-o levantar os olhos ao espigão. Ele coloca a pata em volta do filho e
suspira:
— Como é poderoso o firmamento sob o qual vivemos, filho!
Ele sabe que o que está vendo é apenas uma fração? E as aspirações de um
grilo... Seu mais alto sonho é achar um pedaço de pão. Ele adormece com visões
de migalhas de torta e pingos de geléia.
Senão, considere-o o herói do mundo dos grilos. O célebre inseto. Alguém
tão veloz que pode cruzar uma sala cheia de pés. Tão corajoso, que explorou o
interior do batistério. Tão ousado, que aventurou-se a entrar num imponente
gabinete, ou a saltar do peitoril de uma janela. Existe, nas crônicas do reino dos
grilos, uma historia sobre Venerável Grilo, que marchou pelas paredes bradando:
“O bicho-homem está vindo! O bicho-homem está vindo!”?
Os assombrados grilos sempre olham um para o outro e exclamam
“Oohh!”?
Talvez a principal questão seja: o que leva um grilo a adorar? Ele
reconhece que houve uma mão por trás do edifício? Ou ele escolheu adorar o
mesmo edifício? Ou talvez um lugar no edifício? Ele assume que, desde que ele
não viu o construtor, não há construtor algum?
O hedonista o faz. Desde que nunca viu a mão que fez o universo, ele
assume que não há vida além do aqui e agora. Acredita que não há verdade além
desta sala. Nenhum propósito além de seu próprio prazer. Nenhum fator divino.
Ele não tem interesse no eterno. Como um grilo que se recusa a reconhecer um
construtor, ele recusa-se a confessar seu Criador.
O hedonista opta por viver como se absolutamente não houvesse Criador.
Novamente, a palavra de Paulo para isto é ateísmo. Escreveu o apóstolo: “Eles
não se importaram em ter conhecimento de Deus” (Rm 1.28).
O que acontece quando a sociedade vê o mundo através dos olhos de um
grilo? O que ocorre quando uma cultura se instala numa choupana de sapé, em
vez de no castelo do pai? Existem conseqüências para a busca de prazeres ímpios?
Ele está mais interessado em satisfazer suas paixões que no conhecimento do Pai.
Sua vida é tão ávida de prazeres, que não sobra tempo nem espaço para Deus.
Ele está certo? É correto gastar nosso dias vivendo pelo rumo do nariz, sem
nos importarmos com Deus?
Paulo afirma “Absolutamente não!”
De acordo com o primeiro capítulo de Romanos, perdemos bem mais que
vitrais quando rejeitamos a Deus. Perdemos nosso critério, nosso propósito, e
nossa adoração. “Em seus discursos se desvaneceram, e o seu coração insensato
se obscureceu. Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos” (Rm 1.21,22).
1. Perdemos Nosso Critério
Quando eu tinha nove anos, elogiei um aeromodelo de meu colega. Ele tãosomente
replicou:
— Eu o roubei.
Deve ter notado meu espanto, e perguntou-me:
— Você acha que isso foi errado?
Disse-lhe que sim, e ele respondeu-me simplesmente:
— Pode ser errado para você, não para mim. Não fiz mal a ninguém
quando roubei o avião. Conheço o dono. Ele é rico; pode comprar outro. Eu, não.
O que você me diz desse argumento? Se você não acredita na vida além das
vigas do teto, tem pouco a dizer. Se não há um bem supremo por trás do mundo,
então como definimos “bem” dentro do mundo? Se a maioria das opiniões
determinam o bem e o mal, o que acontece quando a maioria está errada? O que
você faz quando a maioria do grupo diz que não há problema em roubar, atacar,
ou mesmo disparar armas de fogo de um veículo em movimento?
O mundo sem moral do hedonista pode ficar bem no papel, ou soar
importante num curso de filosofia, mas e na vida? Chegue para o pai de três
crianças, cuja esposa o abandonou, e diga-lhe: “Divórcio pode ser errado para
você, mas para mim, está tudo certo”. Ou peça a opinião de uma adolescente
grávida e amedrontada, para quem o namorado disse: “Se você tiver o bebê, a
responsabilidade será sua”. Ou então pergunte a um aposentado, cuja pensão foi
roubada por um mercenário que acreditava estar tudo bem, desde que não fosse
apanhado.
Por outro lado, uma visão piedosa do mundo tem algo a dizer ao meu
ladrão infantil. A fé desafia esses cérebros-de-grilo a responder por um critério
superior, em vez de por uma opinião pessoal: “Você pode pensar que é certo. A
sociedade pode achar que está tudo bem. Porém o Deus que fez você disse: ‘Você
não deverá roubar’ — e Ele não estava brincando”.
A propósito, siga o pensamento ímpio com a sua extensão lógica, e veja o
que você ganha. O que acontece quando uma sociedade nega a importância do
certo e errado? Leia a resposta na parede de uma prisão, em Poland: “Libertei a
Alemanha da estúpida e degradante falácia de consciência e moralidade”.
Quem fez tal jactância? Adolf Hitler. Onde estão afixadas estas palavras?
Num campo de extermínio nazista. Os visitantes lêem a declaração, e então vêem
os resultados: uma sala abarrotada com milhares de libras de cabelos de mulheres,
salas cheias de retratos de crianças castradas, e fornos de gás que serviram para a
solução final de Hitler. Paulo descreve-o melhor: “Seu coração insensato se
obscureceu” (Rm 1.21).
Ora, Max, você está indo longe demais. Não está esticando o que começou
com o roubo de um aeromodelo, para terminar num holocausto?
Na maioria das vezes não chega a tanto. Mas poderia. E o que há para
interrompê-lo? Que dique pode segurar o fluxo do Negador-de-Deus? Que âncora
usaria o secularista para impedir que a sociedade fosse sugada pelo mar? Se uma
sociedade deleta Deus da equação humana, que sacos de areia empilharia contra a
crescente maré de barbarismo e hedonismo?
Como se expressou Dostoevsky, “Se Deus está morto, então tudo é
justificável.”
2. Perdemos nosso Propósito
A seguinte conversa ocorreu entre um canário na gaiola e uma cotovia no
peitoril da janela. A cotovia deu uma olhada para o canário e perguntou-lhe:
— Qual é o seu propósito?
— Meu propósito é comer sementes.
— Para quê?
— Para ficar forte.
— Para quê?
— Para poder cantar — respondeu o canário.
— Para quê? — continuou a cotovia.
— Porque quando eu canto, ganho mais sementes.
— Então você come a fim de ficar forte para poder cantar, e então ganhar
mais sementes para comer?
— Sim.
— Há mais que isso para você — ofereceu a cotovia. — Se você me seguir,
eu lhe mostrarei. Mas você deve deixar sua gaiola.
É difícil encontrar sentido em um mundo engaiolado. Mas isto não nos
impede de tentarmos. É só cavar fundo o bastante em cada coração, e você o
achará: uma ânsia de significado, uma busca de propósito. Tão certo quanto um
menino respira, um dia ele quererá saber: “Qual o propósito de minha vida?”
Alguns buscam significado numa carreira. “Meu propósito é ser um
dentista”. Excelente vocação, mas dificilmente uma justificativa para a existência.
Eles optam por ser um “fazedor” humano em lugar de um “ser” humano. “Fazer”
em vez de “ser”. Eles são aquilo que fazem; consequentemente, fazem muito.
Trabalham muitas horas, porque se não trabalharem não terão identidade.
Outros são o que têm. Estes encontram significado num carro novo, numa
casa nova, ou em roupas novas. Tais pessoas são desmedidas para a economia, e
desbastam o orçamento porque estão sempre buscando sentido em algo que
possuam.
Ainda há aqueles que procuram significado nos descendentes. Eles vivem
de modo vicário através dos filhos. Ai desses filhos. Já é bastante duro ser jovem,
sem ter de ser ainda a razão de viver de alguém. Alguns tentam esportes,
diversões, cultos, sexo. Tudo miragens no deserto. “Dizendo-se sábios, tornaramse
loucos” (Rm 1.22).
Não deveríamos encarar a verdade? Se não reconhecemos a Deus, somos
destroços de naufrágio no universo. Na melhor das hipóteses, somos animais
desenvolvidos. E na pior, poeira reagrupada. No final da análise, a resposta dos
secularistas à indagação “Qual o significado da vida?” é uma só: “Não sabemos”.
Ou, como concluiu o paleontólogo Stephen J. Gould:
Nós existimos porque um singular grupo de peixes, com uma
anatomia peculiar, pôde transformar barbatanas em pernas
para criaturas terrestres; porque a terra nunca congelou
inteiramente durante a era do gelo; porque uma pequena e
tênue espécie, surgida na África a um quarto de milhão de
anos, tinha treinado, até então, para sobreviver a qualquer
custo. Podemos anelar uma resposta elevada — mas não há
nenhuma.
O propósito do homem é ser sacrificado sobre o altar do ateísmo. Contraste
isso com a visão de Deus para a vida: “Porque somos criação de Deus realizada
em Cristo Jesus para fazer boas obras, as quais Deus preparou de antemão para
que nós as praticássemos” (Ef 2.10 NVI).
Com Deus em seu mundo, você não é um acidente ou incidente; você é
uma dádiva para o mundo, uma sublime obra de arte assinada por Deus.
Um dos melhores presentes que já recebi é uma bola de futebol assinada
por trinta zagueiros profissionais. Não há nada de mais nessa bola. Até sei que ela
foi comprada com desconto numa casa de artigos esportivos. O que a torna
singular são as assinaturas.
O mesmo se dá conosco. No esquema natural Homo Sapiens não há
singularidade. Não somos as únicas criaturas com carne, cabelo, sangue e
coração. O que nos faz especiais não é nosso corpo, mas a assinatura de Deus em
nossas vidas. Somos sua obra prima. Somos criados à sua imagem para as boas
obras. Somos significantes, não por causa do que fazemos, mas por quem somos.
3. Perdemos Nossa Adoração
Já ouviu a história do homem procurando as chaves sob a luz do poste? Seu
amigo o vê e pára a fim de ajudá-lo. Após alguns minutos, o amigo pergunta:
— Mas exatamente onde você deixou cair as chaves?
— Em minha casa — responde o homem.
— Em sua casa? Então por que está procurando aqui fora?
— Porque a luz é melhor aqui.
Você nunca achará o que precisa, se não procurar no lugar certo. Se você
está procurando suas chaves, vá para onde as perdeu. Se está a procura de verdade
e propósito, vá para o lado de fora do espigão. E se está em busca do sagrado,
mais uma vez, você não conseguirá achá-lo, se pensar como um grilo.
E trocaram a glória de Deus, que sustenta o mundo inteiro em suas mãos,
por estatuetas baratas, que podem ser compradas em qualquer beira de estrada
(Rm 1.21).
Voltemos aos grilos por um instante. Suponha que esses grilos sejam
totalmente avançados e, freqüentemente, se empenhem na filosófica questão
“Existe vida além do espigão?”
Alguns grilos acreditam que sim. Deve haver um criador desse lugar. Se
não, como surgiu a luz? Como pode o vento soprar através dos orifícios? Como
pode a música encher o aposento? Admirados com o que podem ver, eles adoram
o que não vêem.
Porém outros grilos discordam. A partir de estudos, eles acham que a luz
vem por causa da eletricidade. O vento assopra por causa do condicionador de ar,
e a música é o resultado da caixa acústica. “Não havida além desta sala”,
declaram eles. “Calculamos como tudo funciona”.
Vamos deixar os grilos ganhar essa? Claro que não! “Não é porque vocês
não entendem o sistema”, devemos dizer-lhes, “que vão negar a presença de
alguém do lado de fora dele. Além disso, quem o construiu? Quem instalou o
interruptor? Quem projetou o compressor ou construiu o gerador?
Mas não estamos cometendo o mesmo engano? Compreendemos como são
formadas as tempestades. Mapeamos o sistema solar, e transplantamos corações.
Medimos a profundidade do oceano, e enviamos sinais a planetas distantes. Nós,
os grilos, temos estudado o sistema e aprendido como este funciona.
E assim, a perda do mistério tem levado a perda da majestade. Quanto mais
conhecemos, menos acreditamos. Estranho, não acha? O conhecimento do
processo não deveria desmentir o milagre. O conhecimento deveria suscitar a
admiração. Quem tem mais razão para adorar que o astrônomo que vê as estrelas?
Que o cirurgião que segura corações nas mãos? Que o oceanógrafo que sonda as
profundezas? Quanto mais conhecemos, mais deveríamos nos maravilhar.
Ironicamente, quanto mais conhecemos, menos adoramos. Estamos mais
impressionados com a nossa descoberta do interruptor, que com o inventor da
eletricidade. É a lógica dos cérebros-de-grilo. Em lugar de adoramos ao Criador,
adoramos a criação (Rm 1.25).
Sem maravilhas não há admiração. Achamos que tudo é calculado. Uma
das atrações mais populares da Disney World é a Jungle Cruise. As pessoas não
se importam de passar quarenta e cinco minutos esperando no calor da Flórida,
para ter a oportunidade de entrar no barco e atravessar a floresta infestada de
cobras. Elas o fazem pela emoção. Você nunca sabe quando um nativo pulará de
uma árvore, ou um crocodilo sairá da água. As cachoeiras encharcam você, o
arco-íris o inspira, e o filhote de elefante brinca na água para seu divertimento.
É uma viagem total — nas primeiras vezes. Mas depois de quatro ou cinco
corridas rio abaixo, começa a perder a graça. Eu deveria saber. Durante os três
anos em que morei em Miami, Flórida, fiz umas vinte viagens a Orlando. Eu era
solteiro e dono de um furgão, e levava qualquer um que desejasse passar um dia
no Reino Encantado. Lá pela oitava ou nona viagem, eu podia dizer os nomes de
todos os guias e as piadas que eles contavam.
Um par de vezes cheguei a cochilar durante a viagem. A trilha perdera seus
mistérios. É de admirar que as pessoas durmam numa manhã de domingo (seja na
cama ou na igreja)? Agora você sabe. Elas já viram tudo. Por que ficar excitadas?
Eles conhecem tudo. Nada mais há de sagrado. O santuário tornou-se enfadonho.
Em vez de agitados, como meninos no parque, passamos a vida dormitando, como
passageiros que repetem o mesmo percurso de trem todos os dias.
Entende como as pessoas se tornam cheias de pecados sexuais, usando seus
corpos iniquamente umas com as outras? (Rm 1.24).
De acordo com o primeiro capítulo de Romanos, ateísmo é uma péssima
barganha. Nessa de viver o hoje, o hedonista construtor de cabanas destrói sua
esperança de viver num castelo amanhã.
O que era verdade nos dias de Paulo, ainda o é nos dias de hoje, e faríamos
bem se atentássemos para a sua advertência. Do contrário, o que nos livra de
destruirmos a nós mesmos? Se não há critérios nesta vida, nenhum propósito para
esta vida, e nada sagrado acerca desta vida, o que nos impede de fazermos tudo o
que quisermos? — Nada — responde um grilo ao outro.
Como Deus se sente acerca de tal filosofia de vida? Deixe-me dar-lhe uma
dica. Como você se sentiria se visse seus filhos contentando-se com migalhas,
quando você lhes tem preparado um banquete?
4. Julgamento Ímpio
Romanos 2.1-11
Portanto, és inescusável quando julgas, ó homem, quem quer
que sejas, porque te condenas a ti mesmo naquilo em que
julgas a outro-, pois tu, que julgas, fazes o mesmo. Romanos
2.1
Sabe o que mais me perturba acerca de Jeffrey Dahmer?
O que mais me perturba não são os seus atos, embora odiosos. Dahmer foi
culpado de dezessete assassinatos. Onze cadáveres foram encontrados em seu
apartamento. Ele cortou braços e comeu partes dos corpos. Meu dicionário
contém 204 sinônimos para vil, mas nenhum deles é suficiente para descrever um
homem que armazenou caveiras em seu refrigerador, e conservou o coração de
uma de suas vítimas. Ele redefiniu os limites da brutalidade. O monstro de
Milwaukee dependurou-se no mais baixo degrau da conduta humana, e então
deixou-se cair. Mas não é isto o que mais me aborrece.
Posso dizer-lhe o que mais me incomoda a respeito de Jeffrey Dahmer? Não foi o
seu julgamento, por mais perturbador que tenha sido, com todas aquelas imagens
dele sentado serenamente na corte, face gélida, inerte. Nenhum sinal de remorso,
nenhuma sombra de pesar. Lembra-se de seus olhos de aço e seu semblante
impassível? Mas não falo dele por causa de seu julgamento. Há uma outra razão.
Permite-me dizer-lhe o que realmente me transtorna acerca de Jeffrey Dahmer?
Posso contar-lhe?
Sua conversão.
Meses antes que um companheiro de cela o assassinasse, Jeffrey Dahmer
tornou-se um cristão. Falou de seu arrependimento. Estava triste pelo que fizera.
Profundamente triste. Confessou sua fé em Cristo. Foi batizado. Iniciou uma nova
vida. Começou a ler livros evangélicos e a assistir aos cultos na prisão.
Pecados lavados. Alma limpa. Passado perdoado.
Isso me transtorna. Não deveria, mas é assim que me sinto. Graça para um
canibal? É possível que você tenha as mesmas reservas. Se não quanto a Dahmer,
talvez sobre outro alguém. Quem sabe, relutante quanto a conversão de um
estuprador, que se arrepende no leito de morte, ou de um molestador de crianças,
que se converte na última hora. Nós os sentenciamos, não numa corte, mas em
nossos corações. Temo-los posto atrás das grades e trancado a porta. Eles estão
para sempre encarcerados, em nossa repugnância. E então, o impossível acontece:
eles se arrependem.
Nossa reação? (Atrevamo-nos a confessá-la?) Cruzamos os braços,
enrugamos a testa e dizemos: “Deus não o deixará escapar assim tão fácil. Não
depois do que você fez. Deus é bom, mas não é tolo. A graça é para pecadores
normais, como eu, não para pervertidos iguais a você”.
E para provar, buscamos Romanos. “Porque do céu se manifesta a ira de
Deus sobre...” E Paulo alista pecado sexual, maldade, egoísmo, ódio, ciúme,
assassinato (Rm 1. 18-30). Nós queremos gritar “Isso mesmo, Paulo! Já era hora
de alguém falar contra o pecado! Já era tempo de se arrancar a máscara do
adultério e pôr à mostra a desonestidade! Pegue esses pervertidos. Agarre esses
traficantes. Apoiado, Paulo! Nós, os decentes, os obedientes à lei, estamos com
você!
Reação de Paulo?
“Vocês são tão ruins quanto eles. Quando afirmam que eles são maus e
deveriam ser castigados, vocês estão falando de si mesmos, pois fazem essas
mesmas coisas” (Rm 2.1 BV).
Ooopa!
Chamando a atenção sobre o gato construtor de cabanas, o cão de guarda da
ladeira vira o holofote para si mesmo.
Não Seguramos o Martelo
No primeiro capítulo de Romanos, Paulo confronta o hedonista. No
capítulo dois, ele trata com outro grupo: os moralistas judiciais, que condenam a
si mesmos naquilo em que julgam (Rm 2.1). Estão sempre apontando um dedo
para alguém.
“Portanto, você que julga os outros é indesculpável; pois está condenando a
si mesmo naquilo em que julga, visto que você que julga, pratica as mesmas
coisas” (Rm 2.1 NVI).
Quem é essa pessoa? Poderia ser qualquer um (“Ó homem, quem quer que
sejas) que filtre a graça de Deus através de sua opinião pessoal. Qualquer um que
dilua a misericórdia de Deus em seu próprio preconceito. É o irmão do filho
pródigo que não quis comparecer à festa (Lc 15. 11-32). É o trabalhador de dez
horas frustrado porque o que trabalhou apenas uma hora ganhou o mesmo salário
(Mt 20. 1-16). É o censor obcecado pelos pecados de seu irmão, e esquecido dos
seus próprios.
Se você “acha que pode julgar os outros” (Rm 2.1), Paulo tem um duro
lembrete a você. Não lhe cabe a função de segurar o martelo. “E bem sabemos
que o juízo de Deus é segundo a verdade sobre os que tais coisas fazem” (v.2).
A palavra chave aqui é juízo. Uma coisa é ter uma opinião; outra, bem
diferente, é passar um veredicto. Uma coisa é ter uma convicção; outra é condenar
a pessoa. Um coisa é estar repugnado pelos atos de Jeffrey Dahmer (e eu estou).
Outra totalmente diferente é declarar que sou superior (não sou), ou que ele está
fora do alcance da graça de Deus (ninguém está).
Como escreveu John Stott: “Este (versículo) não é uma intimação a
suspender nosso senso crítico, ou renunciar toda censura e reprovação a outros,
como algo ilegítimo. É, antes, a proibição de nos levantarmos em julgamento à
outra pessoa e condená-la (como seres humanos, não temos o direito de fazê-lo),
especialmente quando falhamos em julgar a nós mesmos.”
Cabe a nós odiar o pecado. Mas tratar com o pecador é tarefa de Deus. Ele
convocou-nos a desprezar o mal; porém jamais ordenou que desprezássemos o
malfeitor.
Contudo, oh, como gostaríamos de fazê-lo! Existe algo mais deleitável que
julgar os outros? O que daria mais satisfação que vestir a toga, sentar-se atrás da
mesa, fazer soar o martelo e declarar: “Culpado!”?
Além de que, julgar os outros é um modo fácil e rápido de sentir-nos bem
com nós mesmos. Uma loja de conveniência Levanta Ego. Olhando para todos os
Mussolinis e Hitlers e Dahmers do mundo, nos gabamos: “Veja, Senhor,
comparado a eles, não sou tão mau”.
Esse é o problema. Deus não nos compara a eles. Eles não são paradigmas.
Deus é. E comparado a ele, Paulo argumenta: “Não há quem faça o bem” (Rm
3.12). Na verdade, essa é uma das duas razões porque Deus é o único que pode
julgar.
Razão 1: Não Somos Bons o Bastante
Suponha que Deus simplifique o assunto e reduza a Bíblia a um
mandamento: “Deves saltar bem alto no ar para que toques a lua”. Não é preciso
amar o próximo, nem orar, nem seguir a Jesus; apenas toque a lua pela eficácia de
um salto, e você será salvo.
Nunca o faríamos. Pode ser que uns poucos consigam pular três ou quatro
pés, e outros menos cheguem a cinco ou seis; porém com a distância que nos
separa da lua, ninguém chegaria nem perto. Ainda que você pudesse pular seis
polegadas mais alto que eu, isto mal constituiria motivo de orgulho.
Ora, Deus não nos chamou para tocar a lua, mas bem que poderia tê-lo
feito. Ele ordenou: “Sede perfeitos, como é perfeito o vosso Pai, que está nos
céus” (Mt 5.48). Nenhum de nós pode satisfazer o critério de Deus. Como
resultado, ninguém de nós merece vestir a toga, sentar-se na cadeira do juiz e
julgar os outros. Por quê? Não somos bons o bastante. Dahmer pode pular seis
polegadas, e você, seis pés, mas comparado às 230.000 milhas restantes, quem
pode orgulhar-se?
A simples idéia chega a ser cômica. Nós, os que saltamos três pés, olhamos
o companheiro que pulou uma polegada, e dizemos: “Que pulo ruim”. Por que
nos ocupamos com tais acusações? É uma manobra. Enquanto estou pensando em
sua fraqueza, não tenho de pensar na minha. Enquanto estou olhando seu pulo
fraco, não tenho de ser honesto com o meu próprio salto.Estou como o homem
que foi ao psiquiatra, com uma tartaruga na cabeça e uma tira de bacon pendurada
em cada orelha, e disse: “Estou aqui para consultá-lo a respeito de meu irmão”.
É a estratégia universal da impunidade. Todas as crianças a usam. Se eu
puder deixar papai mais bravo com meu irmão do que comigo, sairei livre. Então,
acuso. Comparo. Em vez de admitir minhas próprias faltas, encontro falhas nos
outros. O jeito mais fácil de justificar os erros em minha casa é achar erros piores
na casa de meu vizinho.
Tal artifício não funciona com Deus. Leia atentamente as
palavras de Paulo. Deus não se deixa levar tão facilmente.
Ele enxerga claro através da fumaça, e o pega pelo que você
fez. Você não acha que, pelo simples fato de apontar o dedo
para outra pessoa, irá desviar a severidade divina de sobre
você, acha? Ou pensa que, só porque Ele é um Deus tão
bondoso, vai deixar você de fora? Melhor pensar nisto desde
o princípio. Deus é bom, porém não é bobo. Em sua bondade,
Ele toma-nos firmemente pela mão, e leva-nos a uma
mudança radical de vida (Rm 2.2-4).
Não somos bons o bastante para julgar. Pode o faminto
acusar o mendigo? Pode o doente zombar da enfermidade?
Pode o cego julgar o surdo? Pode o pecador acusar o
pecador? Não. Apenas Um pode julgar, e este Um não está
escrevendo nem lendo este livro.
Razão 2: Não Sabemos o Bastante
Não somos apenas indignos; somos incompetentes. Não sabemos o bastante
sobre a pessoa para julgá-la. Condenamos um homem por cambalear nesta manhã,
mas não vimos a pancada que ele levou ontem. Julgamos uma mulher.por andar
mancando, mas não podemos ver o prego em seu sapato. Zombamos do medo em
seus olhos, mas não fazemos idéia de quantas pedras já tiveram de se desviar, ou
de quantas flechas se esquivar.
Não ignoramos apenas o ontem, mas também o amanhã. Ousaríamos julgar um
livro antes que seus capítulos fossem escritos? Podemos dar nossa opinião sobre
um quadro, enquanto o artista ainda segura os pincéis? Como pode você repudiar
uma alma, antes que o trabalho de Deus seja completado? “Estou convencido de
que aquele que começou boa obra em vocês há de completá-la até o dia de Cristo
Jesus” (Fp 1.6 NVI).
Cuidado! O Pedro que negou a Jesus na fogueira, esta noite, poderá
proclamá-lo com fogo, amanhã, no Pentecostes. O Sansão que hoje está cego e
fraco pode usar suas últimas forças para demolir os pilares do ateísmo. O pastor
gago desta geração pode ser o poderoso Moisés da geração vindoura. Não chame
Noé de louco; talvez você tenha de pedir-lhe uma carona. “Portanto, nada julgueis
antes do tempo, até que o Senhor venha” (1 Co 4.5).
Um criminoso foi condenado à morte por seu país. Em seu último
momento, clamou por misericórdia. Houvesse ele pedido clemência ao povo, e ela
lhe teria sido negada. Houvesse pedido ao governo, e não lha teriam concedido.
Houvesse pedido às suas vítimas, e elas ter-se-iam tornado surdas. Mas não assim
com a graça. Ele virou-se para o vulto ensangüentado, pendurado na cruz próxima
a dele, e apelou: “Jesus, lembra-te de mim, quando entrares no teu reino”. E Jesus
respondeu-lhe dizendo: “Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso”
(Lc 23.42,43).
Tanto quanto sabemos, Jeffrey Dahmer fez a mesma coisa. E tanto quanto
sabemos, Jeffrey Dahmer obteve a mesma resposta. A súplica de Dahmer não foi
diferente da sua nem da minha. Ele pode tê-la feito na beliche de uma prisão, e
você, num banco de igreja, porém do ponto de vista do céu, estamos todos
tentando tocar a lua.
E pela graça do céu, todos fomos atendidos.
5. Religião Ímpia
Romanos 2.17-3.18
Eis que tu, que tens por sobrenome judeu, e repousas na lei,
e te glorias em Deus; ...que tens a forma da ciência e da
verdade na lei; tu, pois, que ensinas a outro, não te ensinas a
ti mesmo? Romanos 2.17,20,21
Vamos supor que eu o convide para navegar comigo.
— Eu não sabia que você era marinheiro — observa você.
— Pode apostar que sou — respondo eu.
— Diga-me, onde você aprendeu a navegar? Faço brilhar um sorriso
arrogante, e puxo do bolso um retrato amarelado. Você olha para o marinheiro de
pé sobre a proa de uma escuna.
— Esse é meu bisavô. Ele atravessou o Cabo de Horn. A navegação está
em meu sangue.
— Seu bisavô o ensinou a navegar?
— Claro que não. Ele morreu antes de eu nascer.
— Então, quem o ensinou a navegar? Exibo um livro com capa de couro e
orgulho-me:
— Li o manual.
— Você leu um livro sobre navegação?
— Mais que isso. Fiz um curso no grêmio do colégio. Posso dizer-lhe a
diferença entre proa e popa, e entre bombordo e estibordo. Você precisa ver-me
levantar um mastro.
— Você quer dizer “içar uma vela”?
— Tanto faz. Numa viagem, conheci um capitão de verdade. Apertei a mão
dele! Ora, vamos, não quer navegar?
— Honestamente, Max, não acho que você seja um marinheiro.
— Quer uma prova? Quer uma prova real? Dê uma olhada, companheiro.
Tenho uma tatuagem ge-nu-í-na. — Levanto a manga e revelo uma sereia sentada
numa âncora. — Veja como ela pula quando eu contraio o braço.
Você não está impressionado.
— Essa é toda a prova que você tem?
— Que mais preciso fazer? Tenho linhagem. Tenho livro. Tenho tatuagem.
Todos a bordo!
Provavelmente você ficará em terra. Até um marinheiro de água doce sabe
que é preciso mais que uma árvore genealógica, um curso de uma noite e uma
tatuagem, para ser um navegador. Você não confiaria num companheiro como eu
para navegar seu barco. Paulo tampouco confiaria num confrade igual a mim para
dirigir a igreja.
Aparentemente, alguns foram difíceis. Oh, eles não eram do tipo
navegantes; eram do tipo religioso. Seus ancestrais não foram companheiros de
bordo; foram companheiros de sinagoga. Não tinham um livro sobre barcos, mas
tinham um livro chamado Torá. E acima de tudo, tinham sido tatuados; tinham
sido circuncidados. E eles eram orgulhosos, orgulhosos de sua linhagem, sua lei, e
sua iniciação.
Tenho o pressentimento de que eles estavam orgulhosos também da carta
de Paulo. Imagine a congregação ouvindo esta epístola. Judeus de um lado,
gentios do outro. Não está vendo o sorriso radiante dos judeus? Paulo fala
declaradamente contra os costumes ímpios, e eles balançam a cabeça
aquiescendo. Paulo adverte quanto à ira divina dirigida ao hedonista construtor de
cabanas, e eles sorriem. Quando Paulo, seu companheiro judeu, ralha com os
miseráveis incircuncisos, eles explodem em coro: “Amém! Isso, Paulo, exorteos!”
Mas então Paulo os surpreende.
Ele aponta o dedo para seus peitos estufados e verbera:
E quanto a você? Você chama a si mesmo de judeu. Você
confia na lei de Moisés e se envaidece de estar perto de
Deus. Você sabe o que Ele quer que você faça, e sabe o que
é importante, porque tem aprendido a lei. Você pensa que é
um guia para os cegos e uma luz para os que estão nas
trevas. Você acha que pode mostrar aos tolos o que é certo, e
ensinar esses que nada sabem. Você tem a lei, por isso
pensa que sabe todas as coisas e é dono da verdade. (Rm
2.17-20).
Não se vanglorie de sua linhagem
Isso que você está ouvindo não são fogos de artifício; são granadas. Sete
granadas, para ser exato. Sete quentes e ferventes verbos lançados bem no centro
do legalismo. Ouça como explodem.
“Você chama a si mesmo de judeu.”
“Você confia na lei de Moisés e se envaidece de estar perto
de Deus.”
“Você sabe o que Ele quer que você faça, e sabe o que é
importante,
porque tem aprendido a lei.”
“Você pensa que é um guia para os cegos e uma luz para
esses que
andam em trevas.”
“Você acha que pode mostrar aos tolos o que é certo, e
ensinar
esses que nada sabem.”
“...você pensa que sabe todas as coisas.” (Rm 2. 17-20).
Bum. Bum. Bum. Justamente quando os líderes pensavam que ganhariam
elogios, foram detonados. Paulo disparou: “Vocês, judeus, confiam na lei em vez
de confiar no legislador, e ufanam-se de ter o monopólio de Deus. Vocês estão
convencidos de que são uma parte dos eleitos privilegiados que ‘sabem’ (sem
sombra de dúvidas) o que Deus quer que se faça. E se isso não fosse ruim o
bastante, vocês ‘pensam’ que são uma dádiva de Deus para os loucos e confusos.
De fato, vocês ‘pensam’ que sabem tudo”.
Algo me diz que Paulo dirigiu seu tiro ao prêmio “Pastor do Ano”. O apóstolo,
não obstante, está mais interessado em marcar um ponto que contar pontos, e seu
ponto para os religiosos amontoadores de pedras é claro: “Não se vanglorie de sua
árvore genealógica”. Ter nascido com um mezuzá de prata na boca nada significa
no céu. A fé é profundamente pessoal. No reino de Deus não há estirpe real, ou linhagem
santa.
Me vem à mente a história do filho do lenhador. Por alguma razão, o
menino convenceu-se de que havia fantasmas na floresta. Isso preocupou seu pai
que, havendo feito das árvores um meio de vida, esperava que o filho fizesse o
mesmo. A fim de encorajar o filho, o pai deu-lhe seu lenço dizendo-lhe:
— Os fantasmas têm medo de mim, meu filho. Use este lenço, e eles terão
medo de você. O lenço fará de você um lenhador.
E assim o rapaz fez. Usou o lenço orgulhosamente, dizendo a todos que era
um lenhador. Todavia, nunca entrou na floresta, nem nunca cortou uma árvore,
mas desde que ganhara o lenço do pai, considerava-se a si mesmo um lenhador.
O pai teria sido sábio se houvesse ensinado ao filho que não havia
fantasmas, em vez de ensiná-lo a confiar num lenço.
Os judeus confiavam nos lenços de seus pais. Dependiam da aba de sua
herança. Não importava que fossem ladrões, adúlteros e escroques (Rm 2.22,23);
ainda consideravam a si mesmas como os eleitos de Deus. Por quê? Porque
tinham o lenço.
Talvez lhe tenham dado um lenço. Talvez os ramos de sua árvore
genealógica estejam carregados de santos e profetas. Talvez você tenha nascido
numa casa pastoral e criado dentes num banco de igreja. Se assim for, seja
agradecido, mas não acomodado. Melhor confiar na verdade que em um lenço.
Ou quem sabe você não tenha pedigree. Seus ancestrais estão mais nos
registros da prisão, que no rol de professores da Escola Dominical. Neste caso,
não se preocupe. Assim como uma herança religiosa não traz bônus, uma secular
não traz déficits. Árvore genealógica não pode salvá-lo, ou condená-lo; a decisão
final é sua.
Não Confie Num Símbolo
Havendo tratado da questão da linhagem, Paulo agora enfoca o problema
da tatuagem. Ele volta sua atenção ao mais sagrado emblema judaico: a
circuncisão. A circuncisão simbolizava a proximidade que Deus desejava com o
seu povo. Deus pôs uma faca para nossa auto-suficiência. Ele quer ser parte de
nossa identidade, de nossa intimidade, e até de nossa potencialidade. A
circuncisão atesta que não há nenhuma área em nossa vida demasiadamente
privada, ou pessoal demais, para Deus.
Ora, em lugar de ver a circuncisão como um sinal de submissão, os judeus
viam-na como sinal de autoridade. Com o tempo, passaram a confiar mais no
símbolo que no Pai. O apóstolo Paulo destrói esta ilusão ao proclamar: “Não é
judeu quem o é apenas exteriormente, nem é circuncisão a que é meramente
exterior e física. Não! Judeu é quem o é interiormente, e circuncisão é a operada
no coração, pelo Espírito, e não pela lei escrita. Para estes o louvor não provém
dos homens, mas de Deus” (Rm 2.28,29 NVI).
Mais tarde, Pauto indaga: Deus aceitou Abraão antes ou depois de ele haver
sido circuncidado? (Rm 4.10). Pergunta importante. Se Deus somente aceitou
Abraão após a circuncisão, então Abraão foi aceito de acordo com os seus
méritos, e não por causa de sua fé.
Qual é a resposta de Paulo? Abraão foi aceito antes de sua circuncisão
(v.10). Ele foi aceito por Deus em Gênesis 15, e circuncidado em Gênesis 17.
Quatorze anos separam os dois eventos!
Se Abraão já tinha sido aceito por Deus, então por que a circuncisão? Paulo
responde a questão com o seguinte verso: “Ele recebeu a circuncisão como sinal,
selo da justiça que ele tinha pela fé, quando ainda não fora circuncidado” (Rm
4.11 NVI).
O ponto de Paulo é crucial: A circuncisão era simbólica. Seu propósito era
mostrar o que Deus já tinha feito.
Vejo um grande exemplo disso enquanto digito estas palavras. Em minha
mão esquerda há um símbolo — uma aliança de ouro. Embora não elaborada, ela
é inestimável. Foi-me dada por minha esposa no dia de nosso casamento. A
aliança é um símbolo do nosso amor, um manifesto do nosso amor, uma
declaração do nosso amor, mas não é a fonte de nosso amor.
Quando nos desentendemos ou temos alguma dificuldade, não pego a
aliança e a coloco num pedestal e oro para ela. Não a esfrego nem lhe peço
sabedoria. Se eu perdesse essa aliança, ficaria desapontado, mas nosso casamento
continuaria. Ela é um símbolo. Nada mais.
Suponha que eu tente fazer da aliança mais do que ela é. Suponha que eu
me torne um traste de marido, cruel e desleal. Imagine que eu falhe em prover às
necessidades de Denalyn ou em cuidar de nossos filhos. Que um dia ela chegue ao
ponto de dizer-me: “Você não é um marido para mim. Não há amor em seu
coração, nem devoção em sua vida. Quero que você se vá.”
Como você acha que ela reagiria, se eu rebatesse: “Como você ousa dizer
isto? Estou usando a aliança que você me deu. Eu nunca a tirei um minuto sequer!
É certo que a espanquei e enganei, mas sempre usei a aliança. Isto não basta?”
Quantos de vocês acham que tal defesa a levaria a desculpar-se e a
lamentar-se: “Oh, Max, como sou esquecida. Você tem sido tão sacrificial,
usando esta aliança todos estes anos. É certo que você me tem espancado, me
abandonado e me negligenciado, mas deixo tudo isso de lado porque você tem
usado a aliança”?
Conversa fiada. Ela nunca diria isso. Por quê? Porque à parte do amor, a
aliança nada significa. O símbolo representa o amor, porém não o substitui. Paulo
acusa os judeus de confiar no símbolo da circuncisão, enquanto negligenciam a
sua essência. Poderia ele acusar-nos do mesmo erro?
Substitua por um símbolo contemporâneo, tal como batismo, santa ceia ou
membro de igreja.
“Deus, eu sei que nunca penso no Senhor. Sei que odeio as pessoas e
engano meus amigos. Abuso de meu corpo e minto à minha esposa. Mas o Senhor
não se importa, não é? Pois acima de tudo, eu fui batizado nesta igreja cristã
quando tinha doze anos.”
Ou: “Em todas as páscoas, participo da comunhão”.
Ou: “Meu pai e minha mãe são a quinta geração de presbiterianos, o Senhor
sabe.”
Você acha que Deus diria: “Você está certo. Você nunca pensa em mim ou
me respeita. Você odeia seu vizinho e maltrata suas crianças, mas uma vez que
você foi batizado, passarei por alto a sua rebelião e seu mau caminho”?
Papo furado. Desassociado de quem o partilha, um símbolo não tem poder.
Em meu armário há uma jaqueta da equipe desportiva da universidade. Eu
a ganhei por jogar dois anos no time de futebol. Ela, também, é um símbolo.
Simboliza as longas horas de suor e trabalho no campo de treinamento. A jaqueta
e uma cicatriz no joelho são recordações de algo que pude fazer vinte anos atrás.
Você acha que se eu vestir a jaqueta agora, instantaneamente ficarei dez quilos
mais leve e totalmente veloz? Você acha que se eu entrasse no gabinete de um
treinador usando essa jaqueta, ele me estenderia sua mão e diria: “Estávamos
esperando por um jogador como você. Vai lá e bote pra quebrar!”?
Conversa mole. A jaqueta é meramente a lembrança de algo que outrora eu
fiz. Ela não diz nada do que posso fazer hoje. Sozinha, ela não me transforma, não
me capacita, nem me habilita.
Nem sua herança tampouco o faz, ainda que você seja descendente de John
Wesley.
Nem sua participação na ceia o faz, ainda que você se empanturre de pão.
Nem seu batismo o faz, ainda que você seja submerso no Rio Jordão.
Por favor, entenda. Símbolos são importantes. Alguns deles, como batismo
e santa ceia, ilustram a cruz de Cristo. Eles simbolizam salvação; demonstram
salvação; proclamam salvação. Porém não concedem salvação.
Depositar sua confiança num símbolo é como pretender ser um navegante
só porque tem uma tatuagem, ou pretender ser um bom marido só porque tem
uma aliança, ou pretender ser um jogador de futebol só porque tem uma jaqueta
esportiva.
Pensamos, honestamente, que Deus salvaria seus filhos baseado num
símbolo?
Que espécie de Deus olharia para um religioso hipócrita e diria: “Você
nunca me amou, nunca me buscou ou obedeceu-me, mas porque seu nome está no
rol de membros de uma determinada denominação, eu o salvarei”?
Ou por outro lado, que espécie de Deus olharia para alguém que o busca
verdadeiramente e diria: “Você dedicou sua vida a amar-me a amar aos meus
filhos. Você entregou-me seu coração e confessou-me seus pecados. Eu gostaria
de salvar você que é tão falho. Sinto muito, mas sua igreja celebra a santa ceia
mensalmente, e isso é muito. Por causa de um assunto técnico, você está para
sempre perdido no inferno”?
Lero-lero. Nosso Deus é abundante em amor e constante em misericórdia.
Ele nos salva, não porque confiamos em um símbolo, mas porque confiamos em
um Salvador.
Por favor, note que Paulo não mudou de assunto; mudou apenas de
ouvintes. Seu tópico ainda é o drama da vida ímpia. “A ira de Deus é revelada do
céu contra toda impiedade” (Rm 1.18 NVI).
Da perspectiva divina, não há diferença entre o ímpio freqüenta-festas, o
ímpio aponta-dedo, e o ímpio freqüenta-igreja. A turma do salão, o clã do palácio
da justiça, e o coro da igreja precisam da mesma mensagem: Sem Deus, todos
estão perdidos.
Ou como sintetiza Paulo:
Todos nós, íntimos ou estranhos, iniciamos em idêntica condição. Isto é,
iniciamos como pecadores. As Escrituras não deixam dúvidas sobre isto: “Não há
um justo, nem um sequer” (Rm 3.10).
Assim como linhagem, leis e tatuagens não fazem de mim um navegador,
herança, rituais e cerimônias não me tornam um cristão. “Deus justifica o crente,
não pelos méritos de sua crença, mas pelos méritos de Cristo”.
Não Tente Fazer o que Somente Deus Pode Fazer
Voltemos ao meu convite para navegar. Eu sei ter dito que provavelmente
você não iria, mas vamos fingir que você não é tão exigente quanto parece, e você
aceita entrar no barco.
Você começa a preocupar-se quando nota que icei a vela somente umas
poucas polegadas sobre o mastro. Você estranha quando eu me posiciono atrás da
vela parcialmente içada, e começo a soprar.
— Por que você não desfralda a vela? — indaga você.
— Porque não consigo assoprar sobre a coisa toda — explico ofegante.
— Deixe que o vento assopre — insta você.
— Oh, não posso fazer isto. Estou navegando este barco por mim mesmo.
Essas são as palavras de um legalista, soprando e bufando para impelir sua
nave ao céu. (Alguma vez já se perguntou por que tantos religiosos parecem
esbaforidos?)
Com pouco estamos vogando sobre o mar, e uma forte tempestade nos
ataca. A chuva bate no convés, e o pequeno navio salta sobre as ondas.
— Vou lançar a âncora! — grito eu.
Você está aliviado porque eu sei ao menos onde está a âncora, mas então
você se surpreende ao ver onde a coloco Primeiro, pego a âncora e a coloco perto
da proa.
— Isto deverá estabilizar o barco! — Garanto eu aos grilos, mas claro, ele
não se estabiliza. A seguir, levo a âncora para a popa. — Agora estamos seguros!
— Mas o balanço continua. Penduro a âncora no mastro, mas isto não ajuda.
Finalmente, frustrado e com medo, você agarra a âncora, arremessa-a nas
profundezas, e grita:
— Você não sabe que tem de ancorar em alguma coisa que não seja você
mesmo?
Um legalista não sabe disso. Ele ancora apenas em si mesmo. Sua
segurança provém do que ele faz, de sua linhagem, sua lei e sua tatuagem.
Quando a tempestade desaba, o legalista lança sua âncora em seu próprio esforço.
Ele salvará a si mesmo. Além de que, ele não está no grupo certo? Ele não tem a
lei exata? E ele não passou pela iniciação correta? (Alguma vez já se perguntou
por que muitos religiosos têm a vida tão tempestuosa?)
Este é o ponto: A salvação é tarefa de Deus.
Recorda a parábola do rio? O primeiro irmão, o hedonista, construiu uma
choupana e chamava-a de mansão. O segundo irmão, o judicialista, olhava para o
primeiro e chamava-o de desajustado. O legalista, o terceiro irmão, empilhava
pedras e confiava em sua própria força. Ele representa o beato ímpio que amontoa
suas boas obras contra a correnteza, pensando que elas farão uma passagem rio
acima. No final, os três rejeitaram o convite do irmão mais velho, e todos
permaneceram igualmente distantes do pai.
A mensagem da parábola e a mensagem de Paulo aos Romanos são a
mesma: Deus é o único que salva seus filhos. Existe um único nome sob o céu
que tem o poder de salvar, e esse nome não é o seu.
Apesar da sereia em sua tatuagem.
II Parte - QUE DEUS!
Considere o feito de Deus.
Ele não fecha os olhos ao nosso pecado, nem compromete
seu critério.
Ele não ignora nossa rebelião, nem afrouxa suas exigências.
Em vez de descartar nosso pecado, Ele o assume e,
inacreditavelmente, sentencia a si próprio.
A santidade de Deus é honrada. Nosso pecado é punido e...
nós somos redimidos.
Deus faz o que não podemos fazer, e assim podemos ser o
que nem ousamos sonhar: perfeitos diante de Deus.
6. Chamando os Cadáveres
Romanos 3.21-26
Todos se extraviaram e juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o
bem, não há nem um só... para que toda boca seja fechada e todo o mundo seja
condenável diante de Deus.
Há algumas semanas, viajei ao Meio Oeste para buscar minhas duas filhas
mais velhas. Elas haviam passado uma semana num acampamento. Esta não era a
primeira vez que acampavam, mas era a primeira vez que ficavam tão longe de
casa. O local era vasto, e as atividades agradáveis, mas seus corações estavam
pesados. Sentiam falta da mamãe e do papai. E a mamãe e o papai não se sentiam
melhores.
Não querendo arriscar algum atraso nos vôos, embarquei um dia antes. Os
pais não podiam pegar os filhos antes das cinco da tarde, então desfrutei da
região; visitei alguns pontos e mantive um olho no relógio. Meu propósito não era
fazer turismo. Meu propósito era minhas filhas.
Cheguei ao acampamento às três da tarde. Uma corda esticada atravessava
a estrada de terra, e um cartaz pendurado nela recordou-me: “Os pais não podem
entrar antes das 5:00 hs”.
Eu não estava sozinho na corda. Outros pais já estavam ali. Havia muitas
olhadas ao relógio. Nenhuma conversação profunda, apenas o esperado: “Como
vai?” “De onde você é?” e “Quantos filhos?” Nada mais que isso. Nossas mentes
estavam além daquela estrada de terra. Por volta de quatro e meia, notei que
alguns pais se colocavam junto à corda. A fim de não ser ultrapassado, fiz o
mesmo. As vagas estavam todas tomadas; havia espaço somente para mais um
pai. Passei raspando numa mãe, que ignorava que os cavalos tinham sido
chamados à estrada. Senti muito por ela, mas não o suficiente para dar-lhe meu
lugar.
Cinco minutos depois, a conversa terminara. Nada mais de brincadeiras; a
coisa era séria. Os carros estavam na estrada. Os corredores estavam na quadra. A
contagem regressiva estava em cima. Tudo o que precisávamos era que alguém
abaixasse a corda.
Dois conselheiros do acampamento apareceram para fazer as honras. Eles
sabiam como pegar uma das ponta da corda, e cruzar a estrada para permitir a
entrada dos pais. Tal movimento teria sido fatal; eles não sobreviveriam ao
pisoteamento. Em vez de arriscar suas vidas, eles pegaram cada um numa ponta
da corda e, a um sinal previamente combinado, arriaram-na ao chão. (Eles já
tinham feito isto antes).
Estávamos livres!
Eu estava pronto para este momento. Já tinha esperado o suficiente.
Comecei com um passo animado, mas pelo canto do olho, vi um pai começar com
uma carreira. Ah, então era assim, eh? Ainda bem que eu estava usando sapatos
de corrida. Rompi numa carreira. Bastava de preliminares. A hora chegara, e a
corda fora baixada. E eu estava disposto a qualquer coisa para levar minhas filhas.
Deus sente o mesmo.
Deus está pronto a levar os que lhe pertencem. Ele, também, está separado
de seus filhos. Ele, também, fará o que for necessário para levá-los ao lar. Mais
que isso, seu desejo deixa o nosso no pó. Esqueça viagens de avião e carros
alugados. Estamos falando de encarnação e sacrifício. Esqueça uma noite no
hotel; tudo o que fale de existência na terra! Eu fui do Estado do Texas ao Estado
do Missouri. Ele foi do estado de ser adorado no céu para o de um bebê em
Belém.
Por quê? Ele sabe que seus filhos estão sem o seu Pai. E Ele sabe que
somos incapazes de retornar sem a sua ajuda.
Pecado, o Problema Universal
Porém o que nos separa de Deus não é uma corda e uma política de
acampamento. O que nos separa de Deus é o pecado. Não somos fortes o
suficiente para removê-lo, e não somos bons o bastante para apagá-lo. Apesar de
todas as nossas diferenças, há um problema que todos partilhamos: estamos
separados de Deus.
“Não há um justo, nem um sequer. Não há ninguém que
atenda; não há ninguém que busque a Deus” (Rm 3.10,11,
itálico meu).
Não lhe parece que Paulo está tentando dizer-nos alguma coisa?
Cada pessoa sobre o verde jardim de Deus o tem pisoteado. Os hedonistas
pisotearam-no porque centralizaram-se no prazer, e não em Deus. Os judicialistas
pisotearam-no porque se inclinaram à arrogância, e não a Deus. Os legalistas
pisotearam-no porque foram conduzidos pelo esforço, e não pela graça.
O construtor de cabanas busca prazer, o censor busca impunidade, o
amontoador de pedras busca piedade. O primeiro negligencia Deus, o segundo
procura distrair Deus, e o terceiro espera compensar Deus. Porém cada um deles
falha com Deus. São todos ímpios.
Nenhum é como o quarto filho, que dependeu do plano do pai para levá-lo
ao lar.
Morte, a Condição Universal
Sabe qual o grande complemento que falta à humanidade? Estamos a uma
longa distância do Pai, e não temos um indício de como chegar a Ele.
Ouça como Paulo compreende o papel do juiz investigador, e descreve o
cadáver do pecador:
“Sua garganta é um sepulcro aberto”.
“Com a língua tratam enganosamente”.
“Peçonha de áspides está debaixo de seus lábios”.
“Sua boca está cheia de maldição e amargura”.
“Seus pés são ligeiros para derramar sangue”.
(Veja Rm 3.13,14,16).
Que anatomia repulsiva! Gargantas como sepulcros abertos. Língua
mentirosa. Lábios de víbora. Boca cheia de vulgaridades. Pés que marcham em
direção à violência. E para resumir, Paulo apresenta a causa de tudo isso: “Não há
temor de Deus diante de seus olhos” (v. 18).
O pecado infecta a pessoa inteira, desde os olhos até os pés. O pecado não
apenas contamina cada ser humano, mas contamina o ser de cada humano. Mais
para a frente, na carta aos Romanos, Paulo diria isso ainda mais claramente: “O
salário do pecado é a morte” (Rm 6.23).
O pecado é uma doença fatal.
O pecado tem-nos sentenciado a uma morte lenta e dolorosa.
O pecado faz com a vida o que a tesoura faz a uma flor. Um corte no talo
separa a flor da fonte da vida. Inicialmente, a flor é atraente, ainda viçosa e cheia
de cor. Mas olhe para ela depois de um certo tempo; as folhas estarão murchas, e
as pétalas, caídas. Não importa o que você faça, a flor não voltará a viver.
Mergulhe-a na água. Finque o talo na terra. Batize-a com adubos. Cole a flor de
volta ao caule. Faça o que quiser. A flor está morta.
Quando o ditador chinês, Mao-Tse-tung, faleceu em 1976, seu médico, o
Dr. Li Zhisui, recebeu uma tarefa impossível. O Politburo exigiu:
— O corpo do presidente deve ser preservado para sempre.
O staff objetou. O médico desaprovou. Ele tinha visto os restos secos e
encolhidos de Lenin e Stalin. Ele sabia que um corpo sem vida está condenado à
podridão.
Mas ele recebera ordens. Vinte e dois litros de formol foram bombeados
para dentro do corpo. O resultado foi horripilante. A face de Mao inchou como
uma bola, e seu pescoço ficou tão grosso quanto a cabeça. Suas orelhas esticaramse
em ângulo reto. A substância química escorria de seus poros. A equipe de
embalsamamento trabalhou por cinco horas com toalhas e algodão, forçando o
líquido para dentro do corpo. Finalmente o rosto pareceu normal, mas o peito
estava tão inchado, que seu paletó teve de ser fendido atrás, e seu corpo, coberto
com a bandeira vermelha do partido comunista.
Isso satisfez para o funeral, mas as autoridades queriam o corpo
permanentemente preservado, para ser exposto na Praça da Paz Celestial. Durante
um ano, o Dr. Zhisui supervisionou uma equipe trabalhando em um hospital
subterrâneo, na tentativa de preservar os restos mortais. Como o resultado foi
inútil, uma autoridade oficial ordenou que se fizesse um indivíduo de cera,
idêntico ao original. Ambos, corpo e réplica, foram levados ao mausoléu da Praça
da Paz Celestial. Dezenas de milhares de pessoas passaram em fila ante o esquife
de cristal, para prestar homenagens ao homem que governara a China por vinte e
sete anos. Mas nem o médico sabia se eles estavam vendo Mao ou uma figura de
cera.
Não fazemos o mesmo? Não é esta a ocupação da humanidade? Não é esta
a esperança do trabalhador compulsivo? Não é esta a aspiração do ganancioso, do
negociante de poderes, e do adúltero? Não bombear formol para dentro de um
cadáver, mas vida para dentro de uma alma?
Enganamos as pessoas numa árdua tentativa de preservar-nos um
pouquinho mais. Às vezes, nem nós sabemos se as pessoas estão vendo o nosso
eu real, ou uma figura de cera. Uma flor morta não tem vida. Um corpo morto não
tem vida. Uma alma morta não tem vida.
Separada de Deus, a alma murcha e morre. A conseqüência do pecado, não
é um dia ruim, ou um mau humor, mas uma alma morta. O sinal de uma alma
morta é claro: lábios envenenadores e boca blasfemadora, pés que se encaminham
à violência e olhos que não vêem a Deus.
Agora você sabe porque as pessoas podem ser tão profanas. Suas almas
estão mortas. Agora você compreende como alguns religiosos podem ser tão
opressivos. Eles não têm vida. Agora você entende porque o traficante de drogas
pode dormir à noite, e o ditador pode viver em paz com a consciência. Ele não a
possui.
A função do pecado é matar a alma.
Carecemos de um Milagre
Havendo percebido o problema, podemos enxergar a solução? A solução
não é melhor governo ou educação, nem mais formol no defunto. Tampouco a
solução é mais religião; rituais e doutrinas artificiais buscam, talvez, reatar a flor
ao caule, mas não conseguem. Não carecemos de mais religião. Carecemos de um
milagre. Não precisamos de alguém para disfarçar o morto. Precisamos de alguém
para ressuscitar o morto.
Este “alguém” é apresentado em Romanos 3.22. Porém antes de lermos o
versículo, tenho de fazer uma pausa e adverti-lo: Prepare-se para a sua
simplicidade. Não é preciso nenhuma poção mágica. Cerimônias elaboradas são
dispensáveis. Tratamentos complicados são inúteis. Horas torturantes de
reabilitação não são requeridas. A solução de Deus para a nossa enfermidade é
perfeitamente simples.
Antes de lermos o versículo, também preciso fazer uma pausa e perguntar:
Você não se alegra de que a carta não tenha parado nos versos 19 e 20? “Isto
impede toda desculpa, e coloca todo mundo sob o julgamento de Deus, porque
ninguém pode tornar-se certo diante de Deus, por seguir lei. A lei apenas mostranos
os nossos pecados”. Você não está aliviado por Paulo não haver deixado o
defunto sobre a mesa? Não está feliz por não ter o apóstolo descrito a condição
sem mostrar a solução de Deus? Não se preocupe. Disso não há perigo. Nem o
descarrilamento de um trem poderia impedir Paulo de escrever o versículo
seguinte. Estas eram as palavras que ele estava esperando para escrever. As
próximas linhas são a razão da epístola, e até mesmo sua razão de viver.
Por sessenta e um versículos, encontramo-nos sentados com Paulo numa
sala escura, enquanto ele descreve a fatalidade do pecado. Todas as velas estão
sem pavio. Cada lâmpada, vazia de azeite. Há uma lareira, porém não há lenha.
Há uma lanterna, mas ela não tem lume. Apalpamos em todos os cantos e não
achamos luz. Incapazes de enxergar um palmo adiante do nariz, tudo o que
podemos fazer é fitar a noite. Não vemos que Paulo deslizou para perto de uma
janela e colocou a mão no trinco. Exatamente quando nos perguntamos se há
alguma luz para ser achada, Paulo escancara a janela e anuncia: “Mas Deus tem
um jeito!” (v.21).
Mas Deus tem um jeito de fazer as pessoas ficarem bem com
ele, sem a lei, e Ele agora tem-nos mostrado esse caminho...
Deus faz as pessoas ficarem bem com Ele através da fé que
elas tem em Jesus Cristo. Isto é verdade para todos os que
confiam em Cristo, porque todas as pessoas estão na
mesma: todos pecaram, e não há ninguém bom o bastante
para a glória de Deus. E todos precisam tornar-se justo.s
diante de Deus pela sua graça, que é um presente. Eles
precisam ser libertos do pecado através
de Jesus Cristo. Deus concedeu-lhes Jesus como um
meio de perdoar pecados, através da fé no sangue de Jesus.
Isso mostra que Deus sempre faz o que é certo e apropriado,
como no passado, quando Ele foi paciente e não puniu as
pessoas por seus pecados (Rm 3.21-25).
A Sorte do Homem
Quando criança, nós, os meninos da vizinhança, jogávamos futebol de rua.
No instante em que chegávamos da escola, largávamos os livros pulávamos para a
calçada. O garoto do outro lado da rua tinha um pai com um grande braço e uma
forte inclinação para o futebol. Assim que ele retornava do trabalho,
começávamos a gritar por ele, para que viesse jogar. Ele não podia resistir. Com
imparcialidade, ele sempre perguntava:
— Que time está perdendo?
E então ele juntava-se a essa equipe, que às vezes acontecia de ser a minha.
Sua aparição mudava todo o jogo. Ele era confiante, forte, e acima de tudo,
tinha um plano. Fazíamos um círculo à sua volta; ele olhava para nós e dizia:
— O.k., meninos, é isto o que vamos fazer.
O outro lado gemia antes que desfizéssemos a conferência. Veja você, nós
não tínhamos apenas um novo plano; tínhamos um novo líder.
Ele trazia nova vida ao nosso time. Deus faz precisamente o mesmo. Não
precisávamos de um novo jogo; precisávamos de um novo plano. Não
precisávamos mudar posições; precisávamos de um novo jogador. Este jogador é
Jesus, o primogênito de Deus.
“Estando nós ainda mortos em nossas ofensas, nos vivificou
juntamente com Cristo” (Ef 2.5).
A solução de Deus não é preservar o morto — é ressuscitar o morto.
“Portanto, se alguém está em Cristo, é nova criação. As
coisas antigas já passaram; eis que as coisas novas surgiram!”
(2 Co 5.17 NVI).
Jesus está disposto a fazer conosco o mesmo que fez com Lázaro. E o que
Marta disse sobre Lázaro, pode ser dito a nosso respeito: “Senhor, já cheira mal,
porque é já de quatro dias” (Jo 11.39). Marta estava falando por todos nós. A raça
humana está morta, e cheira mal. Temos estado mortos e enterrados por um longo
tempo. Não precisamos de alguém que nos fixe em pé; precisamos de alguém que
nos ressuscite. No lodo e sujeira a que chamamos vida, há morte. E estivemos
nisso por tanto tempo, que acabamos nos acostumando ao odor. Mas Cristo não.
E Cristo não pode suportar a idéia de seus filhos apodrecendo no cemitério.
Então Ele veio, e nos chamou para fora. Nós somos os defuntos, e Ele é o chamadefunto.
Nós somos os mortos, e Ele é o ressuscita-morto. Nossa tarefa não é ficar
em pé, mas admitir que morremos. Os únicos que permanecem na sepultura são
os que não reconhecem que estão lá.
A pedra foi removida. “Lázaro!” grita ele. “Lauro! Suely! Horácio! Saiam
para fora!” Chama ele.
— Andrea! Jenna! Estou aqui! — gritei eu, correndo pela estrada do
acampamento. (Eu ganhei a corrida.) Avistei Andrea primeiro. Ela estava sob um
abrigo preparado para ginásticas. Chamei seu nome outra vez.
— Papai! — Exclamou ela, e saltou para os meus braços.
Não havia garantia de que ela responderia. Embora eu houvesse voado mil
milhas, alugado um carro, e esperado uma hora, ela poderia ter me visto e —
Deus me livre! — me ignorado. Algumas crianças são crescidas demais para
correr para os pais na frente dos amigos.
Mas há aquelas que já tiveram comida de acampamento, e repelente de
mosquito, o suficiente para fazê-las saltar de alegria à vista de seus pais. Era o
caso de Andrea.
Repentinamente, Andrea passara do sentimento de saudade ao de
felicidade. Por quê? Apenas uma diferença. Seu pai tinha vindo para levá-la ao
lar.
7. Onde o Amor e a Justiça se Encontram
Romanos 3.21-25
Mas agora se manifestou uma justiça que provém de Deus,
independente da lei, da qual testemunham a Lei e os profetas,
justiça de Deus mediante a fé em Jesus Cristo para todos os
que crêem. Romanos 3.21,22
Alegra-me que a carta não tenha sido enviada do céu. Ela veio da minha
companhia de seguros de automóvel, minha antiga companhia de seguros de
automóvel. Eu não desisti dela. Eles desistiram de mim. Não por eu não haver
pago as taxas; eu estava em dia. Não por eu deixar de fazer a papelada; cada
documento tinha sido assinado e entregue.
Fui desligado por cometer muitas faltas.
A carta começava, polidamente, dizendo-me que meu registro tinha sido
revisado.
Temos verificado nos Registros de Veículos Automotores a
indicação de uma violação dos limites de velocidade, por Max
Lucado, em dezembro e janeiro, e uma falta por Denalyn
Lucado, em dezembro. Registros adicionais indicam outras
violações dos limites de velocidade por Max Lucado, em abril,
e pela senhora Lucado, em dezembro do ano seguinte.
Agora, sou o primeiro a admitir que Denalyn e eu temos tendência a pisar
fundo e descuidadamente. Na verdade, esta é a razão de termos seguro contra
acidentes. As marcas em meu registro não são uma indicação de que sou um
cliente meritório? Os prêmios de seguro não foram inventados para pessoas como
eu? Meus pequenos acidentes e batidas não põe comida na mesa de alguns
funileiros? Se não fosse por minhas barbeiragens, o que movimentaria as
estatísticas?
Meu pensamento inicial foi que a companhia estivesse escrevendo para
congratular-me por ser um bom cliente. Talvez estejam escrevendo a fim de
convidar-me para um banquete, ou para dizer-me que ganhei um prêmio, pensei
entusiasmado.
A carta prosseguia, documentando outros segredos de nosso passado:
Nossos registros indicam que, no dia 18 de novembro,
pagamos a indenização de outro veículo, quando Max Lucado
entrou na traseira de outro carro, num estacionamento.
A dupla citação da palavra outro alarmou-me. “Outro” veículo. “Outro”
carro. Alguém está contando! Talvez eu precise levá-lo a ler 1 Co 13-5: “O
amor... não guarda rancor” (NVI). A carta continuava com outras menções de
“outros”.
Em abril pagamos a indenização de outro veículo, quando
Denalyn Lucado atingiu a parte traseira de outro carro, num
sinal fechado.
— Mas ela estava dando a mamadeira ao bebê! — disse eu em sua defesa, a
ouvinte nenhum. Denalyn estava num farol fechado. Sara derrubara a mamadeira
e estava chorando, então Denalyn inclinou-se, apanhou-a, e bateu no carro da
frente. Uma falta genuína. Poderia ter acontecido a qualquer um.
E, em tempo, eu entrei na traseira de outro carro? Posso contar como foi!
Fui eu que andei pelo edifício, achei o proprietário e contei-lhe o que tinha feito.
Confessei minha falta. Fiz minha parte. Eu poderia ter batido no carro e ido
embora, o que, para ser honesto, cogitei, mas não fiz. Eu deveria também partilhar
com ele 1 Jo 1.9? “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para
perdoar os nossos pecados...”.
Eu não deveria ganhar algum crédito por ser honesto?
Aparentemente, não. Leia a conclusão da carta.
Tendo em vista as informações acima, não estamos dispostos
a renovar sua apólice de seguro automobilístico. A apólice
terminará às 24:00h do dia 4 de janeiro. Sentimos não ter
uma resposta mais favorável. Para sua proteção, nós o
aconselhamos a obter outro plano de seguro, a fim de
prevenir qualquer lapso.
Espere aí. Deixe-me ver se entendi direito. Eu paguei o seguro para cobrir
minhas faltas. Mas então, fui rejeitado por causa de meus erros. Deixei escapar
alguma coisa? Deixei passar alguma nota de rodapé? Não enxerguei algum
detalhe impresso em letras miúdas no contrato?
Passei por alto um parágrafo que rezava “Nós, a supracitada companhia,
consideraremos Max Lucado segurável até que ele demonstre ser alguém que
precise de cobertura para acidentes”?
Não é como um médico tratando apenas de pacientes saudáveis? Ou um
dentista pendurando na janela o cartaz “Não tratamos dentes cariados.”? Ou um
professor punindo o aluno por fazer muitas perguntas? Não é como qualificar para
um empréstimo alguém que não precise? E se o corpo de bombeiros disser que o
protegerá, até que você tenha um incêndio? E se um guarda-costas disser que o
protegerá, até que alguém lhe queira fazer mal? E se um salva-vidas disser que
cuidará de você, até que você comece a mergulhar?
Ou se o céu tivesse limite para a sua cobertura? E se você recebesse uma
carta da Seguradora Celestial Portão de Pérola, dizendo:
Prezada senhora Silva,
Estou escrevendo em resposta ao seu pedido de perdão
desta manhã. Sinto informá-la que você atingiu sua cota de
pecados. Os registros mostram que, desde que solicitou
nossos serviços, você errou sete vezes na área da ganância,
e sua vida de oração está abaixo do padrão, comparada a
outras da mesma idade e em iguais circunstâncias. Ademais,
a inspeção revela que sua compreensão doutrinária caiu vinte
por cento, e você tem excessivas tendências à bisbilhotice.
Por causa de seus pecados, você é uma candidata de alto
risco para o céu. Você compreende que a graça tem os seus
limites. Jesus envia seu pesar e, respeitosamente, espera que
você encontre outra forma de cobertura.
Muitos temem receber tal carta. Alguma preocupação já tiveram! Se uma
companhia de seguros não pode cobrir minhas faltas genuínas, posso esperar que
Deus cubra minhas rebeliões intencionais?
Paulo responde a questão com o que John Stott chama de “a mais
surpreendente declaração de Romanos”. Deus faz com que o ímpio se torne justo
aos seus olhos (Rm 4.5). Que inacreditável reivindicação! Uma coisa é tornar
justas as pessoas boas. Porém, e quanto às más? Podemos esperar que Deus
justifique o decente, mas e quanto ao desprezível? Certamente a cobertura é
fornecida aos motoristas com a ficha limpa, mas e os infratores da lei de trânsito?
Os multados? Os clientes de alto risco? Como, neste mundo, pode um ímpio ser
justificado?
A Procedência da Graça
Não pode. Não pode vir do mundo. Deve vir do céu. O homem não tem
meios. Mas Deus tem um meio...
Até este ponto da carta de Paulo, todo o empenho para a salvação tem
vindo da terra. O homem tem inflado seu balão com seu próprio ar quente, e não
tem sido capaz de deixar a atmosfera. Nossos pretextos de ignorância são
inescusáveis (Rm 1.20). Nossas comparações com outros são inadmissíveis (Rm
2.1). Nossos méritos religiosos são inaceitáveis (Rm 2.29). A conclusão é
inevitável: auto-salvação simplesmente não funciona. O homem não tem como
salvar a si mesmo.
No entanto, Paulo anuncia que Deus tem um meio. Onde o homem falha,
Deus sobressai. A salvação desce do céu; não sobe da terra. “Do alto nos visitará
o sol nascente” (Lc 1.78 NVI). “Toda boa dádiva e todo dom perfeito vem do
alto” (Tg 1.17).
Por favor, note: A salvação é dada por Deus, movida por Deus, autorizada
por Deus, e originada em Deus. A dádiva não é do homem para Deus. É de Deus
para o homem. “Nisto consiste o amor: não em que nós tenhamos amado a Deus,
mas em que ele nos amou e enviou seu Filho para propiciação pelos nossos
pecados” (1 Jo 4.10).
A graça é criada por Deus e dada ao homem. “Destilai vós, céus, dessas
alturas, e as nuvens chovam justiça; abra-se a terra, e produza-se salvação, e a
justiça frutifique juntamente; eu, o Senhor, as criei” (Is 45.8).
Com base neste único ponto, o cristianismo está à parte de qualquer outra
religião no mundo. “Nenhum outro sistema, ideologia, ou religião, proclama o
livre perdão e a nova vida a esses que nada têm feito a fim de merecê-los, e que
merecem, em vez disso, o juízo”.
Para citar John MacArthur: “No que diz respeito à salvação, há apenas duas
religiões que o mundo sempre conheceu, ou sempre conhecerá — a religião
divinamente efetuada, que é o cristianismo bíblico, e a religião humanamente
empreendida, que inclui todas as outras espécies de religiões, não importa o nome
que tenham”.
Qualquer outra tentativa de aproximação de Deus é um sistema de troca; se
eu fizer isto, Deus fará aquilo. Desse modo, sou salvo pelo esforço (o que faço),
pelas emoções (o que experimento), ou pelo conhecimento (o que sei).
Ao contrário, o cristianismo não tem ares de negociação. O homem não é o
negociador; na verdade, o homem não tem com que negociar.
Aqueles que se aproximaram de Deus compreenderam isto. Aqueles que se
acercaram dele nunca se orgulharam de seus feitos; na verdade, estavam
muitíssimo desgostosos com a idéia de auto-salvação. Eles descrevem o legalismo
em termos repulsivos. Isaías afirmou que nossos atos de justiça são “como trapo
da imundície”, referindo-se à roupa menstrual (Is 64.6). Paulo igualou nossas
credenciais religiosas aos montes malcheirosos que você evita no pasto das vacas:
“...as considero como esterco” (Fp 38).
Podemos resumir os primeiros três capítulos e meio de Romanos com três
palavras: nós temos falhado.
Temos tentado alcançar a lua, contudo, mal tiramos os pés do chão.
Tentamos atravessar o Atlântico a nado, mas não conseguimos ir além dos recifes.
Tentamos escalar o Evereste da salvação, porém mal conseguimos sair da base,
quanto mais ascender o aclive. A realidade está na cara: não precisamos de mais
suprimentos, ou músculos, ou técnicas; precisamos de um helicóptero. Não pode
ouvi-lo pairando?
Deus tem um meio de tornar as pessoas retas perante Si.
(Rm 3.21).
É vital que abracemos esta verdade-. O mais alto sonho de Deus não é
fazer-nos ricos, bem-sucedidos, populares ou famosos. O sonho de Deus é fazernos
justos diante dele.
O Dilema da Graça
Como Deus nos torna retos perante Si? Retornemos à companhia
seguradora e façamos algumas indagações. Primeiro: ela foi injusta em rejeitarme
como cliente? Não. Posso ter achado sua decisão ofensiva, desagradável, e
mesmo desanimadora, mas não posso chamá-la de injusta. Ela apenas fez o que
dissera que faria.
Assim fez nosso Pai. Ele avisou a Adão: “Se você comer do fruto dessa
árvore, você morrerá” (Gn 2.17). Nenhum sinal obscuro. Nenhum apontamento
secreto. Nenhum furo ou termo técnico. Deus não tem jogado conosco. Ele tem
sido claro. Desde o Éden, o salário do pecado tem sido a morte (Rm 6.23).
Assim como dirigir descuidadamente tem suas conseqüências, o viver
descuidado também as tem. Assim como não tive defesa perante a companhia
seguradora, não tenho defesa perante Deus. Minhas lembranças me acusam. Meu
passado me convence.
Agora, suponha que o fundador da companhia de seguros preferisse ter
compaixão de mim. Suponha que, por alguma razão, ele quisesse conservar-me
como cliente. O que poderia ele fazer? Poderia fechar os olhos e fingir que não
cometi erros? Por que ele não pegou minha ficha e não a rasgou? Duas razões.
Primeira: a integridade da companhia seria comprometida. Ele teria de
relaxar o padrão da organização, algo que não poderia nem deveria fazer. Os
ideais da firma são valiosos demais para serem abandonados. A companhia não
pode abandonar seus preceitos, e ainda assim manter a integridade.
Segundo, os erros do motorista seriam encorajados. Se não houvesse um
preço para minhas faltas, por que eu dirigiria com cuidado? Se o presidente
permitisse minhas falhas, o que me impediria de dirigir como bem quisesse? Se
ele está disposto a ignorar quaisquer asneiras, vamos aprontar!
É esse o alvo do presidente? É essa a meta de sua clemência? Baixos
padrões e motoristas ineficientes? Não. O presidente enfrenta este dilema: Como
posso ser clemente e justo ao mesmo tempo? Como posso oferecer graça sem
apoiar erros?
Ou, pondo em termos bíblicos, como pode Deus punir o pecado e amar o
pecador? Paulo tornou isto claro: ‘A ira de Deus é revelada do céu contra toda
impiedade e injustiça dos homens que suprimem a verdade pela justiça” (Rm
1.18). lria Deus rebaixar seu padrão para que fôssemos perdoados? Iria Deus
olhar para o outro lado e fingir que nunca pequei? Desejaríamos nós um Deus que
alterasse as regras e abrisse exceções? Não. Queremos um Deus “em quem não há
mudança, nem sombra de variação” (Tg 1.17), e para quem “não há acepção de
pessoas” (Rm 2.11).
Ignorar meu pecado é endossá-lo. Se não há um preço por meus pecados,
então vamos pecar! Se meu pecado não traz punição, continuemos pecando! De
fato “Façamos males, para que venham bens” (Rm 3-8). É esta a intenção de
Deus? Comprometer sua santidade e possibilitar nosso mal?
Claro que não! Então o que é que Ele faz? Como pode Ele ser justo e amar
o pecador? Como pode amar o pecador e punir o pecado? Como pode Ele
satisfazer seus critérios e perdoar meus erros? Há algum modo de Deus honrar a
integridade do céu sem me voltar as costas?
A Decisão da Graça
A santidade exige que o pecado seja punido. A misericórdia constrange a
que o pecador seja amado. Como pode Deus fazer ambas as coisas? Posso
responder a questão, retornando ao diretor da seguradora? Imagine-o convidandome
ao seu escritório e dizendo-me estas palavras:
— Senhor Lucado, achei um meio de lidar com as suas faltas. Não posso
passá-las por alto; fazê-lo seria injusto. Mas aqui está o que posso fazer:
Encontramos em nossos registros uma pessoa com um passado imaculado. Esse
homem nunca quebrou a lei. Nenhuma violação, nenhuma transgressão, nenhuma
multa de trânsito. Ele quer, voluntariamente, trocar de registro com você. Ele
tomará seu nome e o colocará na ficha dele, e pegará o próprio nome e colocará
em sua ficha. Nós puniremos a ele pelo que você fez. Você, que transgrediu, será
tornado correto. Ele, que agiu certo, será tornado incorreto.
Minha resposta?
— Você está brincando! Quem faria isso por mim? Quem é esta pessoa?
E o diretor responderia:
— Eu.
Sc você está esperando que um diretor de seguradora lhe diga isso, nem
prenda a respiração. Ele não o fará. Ele não pode. Mesmo que quisesse, ele não
poderia. Ele não tem um registro perfeito.
Contudo, se você está esperando que Deus lhe diga essas palavras, pode
respirar aliviado. Ele o faz. Ele pode. “Deus estava em Cristo reconciliando
consigo o mundo, não lhes imputando os seus pecados, e pôs em nós a palavra da
reconciliação... Aquele que não conheceu pecado, o tornou pecado por nós, para
que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus” (2 Co 5.19,21).
A ficha limpa de Jesus foi dada a você, e a sua ficha imperfeita foi dada a
Ele. Jesus não tinha culpa, mas “padeceu uma vez pelos pecados, o justo pelos
injustos, para levar-nos a Deus” (1 Pe 3.18). Como resultado, a santidade de Deus
é honrada, e seus filhos são perdoados.
Por sua vida perfeita, Jesus cumpriu as exigências da lei. Pela sua morte,
satisfez a exigência do pecado. Jesus sofreu, não assemelhando-se a um pecador,
mas como um pecador. Por que mais ele clamaria “Deus meu, Deus meu, por que
me desamparaste?” (Mt 27.46).
Considere o feito de Deus. Ele não fecha os olhos aos nossos pecados, nem
compromete seus critérios. Não ignora nossa rebelião, nem afrouxa suas
exigências. Em vez de descartar nosso pecado, Ele o assume e,
inacreditavelmente, sentencia a si próprio. A santidade de Deus é honrada. Nosso
pecado é punido. E nós somos redimidos. Deus ainda é Deus. O salário do pecado
ainda é a morte. E nós somos tornados perfeitos.
É isto: perfeito. “Porque, por meio de um único sacrifício, ele aperfeiçoou
para sempre os que estão sendo santificados” (Hb 10.14 NVI).
Deus justifica (torna perfeito), e então santifica (torna santo). Deus faz o
que não podemos fazer, e assim podemos o ser o que nem ousamos sonhar:
perfeitos diante de Deus. Ele simplesmente justifica o injusto.
E o que ele fez com a nossa pobre carteira de motorista? “Cancelou o
escrito de dívida que consistia de ordenanças, o qual se nos opunha. file o
removeu pregando-o na cruz” (Cl 2.14 NVI).
E qual deveria ser sua resposta? Retornemos mais uma vez à companhia de
seguros. Volto ao meu agente e peço-lhe para puxar meu arquivo. Ele o faz, e fita
descrente a tela do computador.
— Max Lucado, você tem um passado perfeito. Seu desempenho é
impecável.
Minha resposta? Se eu for desonesto e ingrato, cruzarei os braços e direi
num tom de voz profundo:
— Você está certo. Não é fácil ser assim.
Se eu for honesto e agradecido, simplesmente sorrirei e direi:
— Não mereço tal cumprimento. Na verdade, não mereço esse registro. Ele
foi e é um indescritível presente da graça.
De qualquer modo, tenho uma nova companhia seguradora de automóvel.
Eles cobraram-me um pouco mais por eu ter sido excluído de uma concorrente. E
quem sabe? Talvez eu receba mais algumas cartas antes que o contrato termine.
Minha alma imortal está sob cobertura celeste, e Jesus não é conhecido por
rejeitar clientes. Ele é conhecido por pagar prêmios. E eu estou com minha vida
quitada. Com Ele, estou em boas mãos.
Antes de ir para o próximo capítulo, deixe-me tratar de uma questão.
Alguns estão com a mão levantada desde o último parágrafo da página 74. Pois
não? Você está achando isto demais.... o quê?
Desculpe, ainda não entendo... bom demais para ser o quê? Bom demais
para ser verdade? Ah... bem. Você não é o primeiro. De fato, Paulo sabia que
muitos de nós questionariam esse ponto. Foi por isso que ele escreveu o capítulo 4
de Romanos. E é por isso que escrevi o próximo capítulo.
Pois não? Você tem outra pergunta? Sim, você me parece familiar. Você
me vendeu o quê? Apólice de seguro? E depois cancelou? Hmmm. Aposto que
você passou por um duro momento compreendendo a graça.
8. Crédito Onde Crédito Não é Dívida
Romanos 3.27 - 4.25
O homem é justificado pela fé, independente da obediência à
lei. Romanos 3.28 NVI
Lembra-se dos bons e velhos tempos, quando o cartão de crédito era
marcado manualmente? O balconista podia pegar seu cartão, colocá-lo numa
máquina de imprimir, e rrac-rrac, os números eram registrados e a compra estava
feita. Quando eu tinha quatorze anos, aprendi a operar o tal invento, num posto de
gasolina, na esquina da Broadway com a Quarta Avenida. Por um dólar a hora, eu
limpava pára-brisas, bombeava gasolina, e checava o óleo. (Sim, Virgínia, os
frentistas faziam essas coisas).
Minha tarefa preferida, entretanto, era carimbar cartões de crédito. Não há
nada como a sensação de poder que o invade, quando você faz correr o impressor
sobre o cartão. Eu sempre relanceava as vistas ao freguês para vê-lo estremecer
quando eu rrac-rraqueva o seu cartão.
Comprar com cartão de crédito hoje em dia já não é tão dramático. Agora, a
tarja magnética é introduzida na fenda, ou os números digitados num teclado.
Nenhum ruído. Nenhum drama. Nenhum esforço.
Traga de volta os dias do rrac-rrac, quando a compra era anunciada a todos
os ouvidos.
Você compra gasolina, rrac-rrac.
Você debita algumas roupas, rrac-rrac.
Você paga o jantar, rrac-rrac.
Se o ruído não alcança você, o demonstrativo do final do mês o fará. Trinta
dias é um tempo razoável para se rrac-rraquear compras suficientes para rracrraquear
seu orçamento.
E uma existência é suficiente para se rrac-rraquear alguns débitos
importantes no céu.
Você grita com os seus filhos, rrac-rrac.
Você cobiça o carro de um amigo, rrac-rrac.
Você inveja o sucesso de seu vizinho, rrac-rrac.
Você quebra uma promessa, rrac-rrac.
Você mente, rrac-rrac.
Você perde o controle, rrac-rrac.
Você cochila lendo este livro, rrac-rrac, rrac-rrac, rrac-rrac.
Débito e mais débito.
Inicialmente, tentamos compensar a dívida. (Lembra-se do amontoador de
pedras?) Cada oração é um cheque preenchido; cada boa ação, um pagamento
feito. Se pudéssemos ter um ato bom para cada mau ato, não estaria a nossa conta
balanceada no final? Se eu posso compensar minha maldição com elogios, minha
luxúria com lealdade, minhas queixas com contribuições, meus vícios com
vitórias — não estará minha conta justificada?
Estaria, exceto por dois problemas.
Primeiro, não sei o custo de cada pecado. O preço da gasolina é fácil de se
achar. Pudesse o do pecado ser tão evidente. Mas não é. O que se cobra, por
exemplo, por se conduzir tão loucamente no tráfego? Eu marco o motorista que
corta à minha frente. O que faço para pagar este crime? Dirijo a setenta por hora,
numa zona de oitenta? Aceno e sorrio para dez carros consecutivos? Quem sabe?
Ou, e se eu acordo de mau humor? O que se cobra por um par de horas
lamurientas? Poderia o culto do próximo domingo compensar a manhã irritável de
hoje? E o que eqüivaleria a um mau humor? Será que se cobra menos pela
irritabilidade num dia nublado que num dia claro? Ou, me é permitido ficar
aborrecido um certo número de dias por ano?
Isto pode tornar-se confuso, você sabe.
E não é apenas o custo de meus pecados que ignoro; a ocasião deles,
também. Algumas vezes peco, e nem fico sabendo! Eu tinha doze anos quando
compreendi que era pecado odiar meu inimigo. Minha bicicleta fora roubada
quando eu tinha oito. Odiei o ladrão por quatro anos! Como faço para pagar
aqueles pecados? Eu ganharia uma isenção baseada em ignorância?
E quanto aos pecados que cometo agora, sem saber? E se alguém, em
algum lugar, descobrir que é pecado pescar? Ou, e se Deus achar que o modo
como pesco é pecaminoso? Rapaz, eu teria alguns sérios problemas pela frente!
E quanto aos nossos pecados secretos? Mesmo enquanto escrevo este
capítulo, estou pecando. Eu gostaria de pensar que estou escrevendo para a glória
de Deus, mas... estou? Estou livre da vaidade? Este vaso tem interesse apenas no
conteúdo, e não no recipiente? Dificilmente. Pergunto-me se as pessoas
concordarão, se aprovarão, se apreciarão todas as longas, diligentes, tediosas,
exaustivas, torturantes horas em que eu, humildemente, vou dando forma aos
meus pensamentos.
E você? Alguns pecados de omissão no demonstrativo deste mês? Você
deixou passar alguma chance de fazer o bem? Deixou escapar a oportunidade de
perdoar? Negligenciou uma porta aberta para servir? Você aproveitou cada
oportunidade de encorajar seus amigos?
Rrac-rrac, rrac-rrac, rrac-rrac.
E existem outros pontos importantes. O tempo da graça, por exemplo. Meu
cartão de crédito “permite um pagamento mínimo, e então arrola a dívida para o
mês seguinte. E Deus o faz? Ele me deixaria pagar a ganância de hoje no próximo
ano? E quanto aos juros? Se eu deixo um pecado em meu demonstrativo por
vários meses, isto incorrerá em mais pecado? E falando em demonstrativo... onde
está ele? Posso vê-lo? Com quem está? Como pago os estragos?
E isso aí. Essa é a questão. Como lidar com as dívidas que tenho para com
Deus?
Nego-as? Minha consciência não deixaria.
Acho pecados piores nos outros? Deus não cairia nessa.
Reivindico isenção por linhagem? Orgulho familiar não ajudaria.
Tento compensar? Poderia, mas isso nos leva de volta ao problema:
desconhecemos o custo do pecado. Nem mesmo sabemos o quanto devemos.
Então o que fazemos? Ouça a resposta de Paulo naquilo que um erudito diz
ser “possivelmente o mais importante e singular parágrafo já escrito.”
“Sendo justificados gratuitamente pela sua graça, mediante a
redenção que há em Cristo Jesus, ao qual Deus propôs como
propiciação, pela fé, no seu sangue” (Rm 3-24,25).
Simplesmente pôr: O custo de seus pecados é mais do que você pode pagar.
O presente do seu Deus é maior do que você imagina. “O homem é justificado
pela fé”, conclui Paulo, “sem as obras da lei” (v.28).
Esta pode muito bem ser a verdade espiritual mais difícil de se compreender.
Por alguma razão, as pessoas aceitam a Jesus como Senhor, antes de
aceitá-lo como Salvador. E mais fácil compreender seu poder que a sua
misericórdia. Celebramos o túmulo vazio bem antes de nos ajoelharmos perante a
cruz. Nós, como Tomé, morreríamos por Cristo, antes de ter de deixar Cristo
morrer por nós.
Não estamos sozinhos. Não somos os primeiros a lutar com a apresentação
que Paulo faz da graça. Aparentemente, o primeiro a duvidar da epístola aos
Romanos foi o primeiro a lê-la. De fato, tem-se a impressão de que Paulo podia
ouvir-lhe as indagações. O apóstolo levanta a pena da página e imagina seus
leitores: alguns torcendo, uns duvidando, outros negando. Antecipando-lhes os
pensamentos, ele trata de suas objeções.
Objeção 1: Arriscado Demais Para Ser Verdade
A primeira objeção veio do pragmatista. “Anulamos, pois, a lei pela fé?”
(Rm 3-31). O ponto aqui é motivação. Se não sou salvo por meus trabalhos, então
por que trabalhar? Se não sou salvo pela lei, então por que guardar a lei? Se não
sou salvo pelo que faço, então por que fazer alguma coisa?
Você tem de admitir que graça é algo arriscado. Há a possibilidade de a
pessoa levar isto ao estremo. Há a probabilidade de a pessoa abusar da bondade
de Deus.
Outra palavra sobre cartões de crédito pode ser útil aqui. Meu pai tinha uma
regra simples sobre eles: tenha tão poucos quanto possível, e pague-os tão logo
seja possível. Seu salário de mecânico era suficiente, mas não opulento, e ele
detestava a idéia de pagar juros. Ele tomara a decisão de pagar a conta antes do
final do mês. Você pode imaginar a minha surpresa, quando ele pôs-me nas mãos
um cartão de crédito, no dia em que sai para a universidade.
Em pé na via, com o carro lotado e as despedidas feitas, ele entregou-o para
mim. Olhei o nome no cartão; não era o meu, era o dele. Ele autorizara um cartão
extra para mim. Sua única instrução foi: “Seja cuidadoso ao usá-lo”.
Belo risco, não acha? Enquanto eu dirigia para a universidade, ocorreu-me
que eu era um homem livre. Eu poderia ir aonde quisesse. Eu tinha um carango e
um tanque de gasolina. Tinha minhas roupas. Tinha dinheiro no bolso e um
estéreo no porta-malas. E acima de tudo, eu tinha um cartão de crédito. Eu era um
escravo posto em liberdade! As cadeias tinham sido rompidas. Eu poderia estar no
México, antes do cair da noite! O que me impedia de sair desenfreado?
Esta é a indagação do pragmatista. O que nos impede de sairmos
desenfreados? Se a adoração não nos salva, por que adorar? Se o dízimo não
salva, por que dizimar? Se minha moralidade não me salva, então atenção,
mulheres, cheguei! Judas adverte contra esta atitude quando fala de pessoas que
“convertem em dissolução a graça de Deus” (Jd 4).
Mais tarde, Paulo atacaria com a questão “Que diremos, pois? Permaneceremos
no pecado, para que a graça seja mais abundante? De modo
nenhum!” (Rm 6.1). Ou, como escreveu um tradutor, “Que pensamento horrível!”
(Phillips).
Um pensamento horrível, de fato. Graça promovendo mal? Misericórdia
endossando pecado? Que idéia terrível! O apóstolo usa o termo mais forte
possível do idioma grego para repudiar a idéia: Me genoito! A frase significa
literalmente “Nunca!” Como ele já dantes expressou, “a benignidade de Deus te
leva ao arrependimento” (Rm 2.4).
Compreenda de uma vez: Alguém que vê a graça como permissão para
pecar, tem perdido inteiramente a graça. Misericórdia compreendida é santidade
desejada. “O qual [Jesus] se deu a si mesmo por nós, para nos remir de toda
iniqüidade e purificar para si um povo seu especial, zeloso de boas obras” (Tt
2.14, itálico meu).
Atenção para a última frase: “povo seu especial, zeloso de boas obras”. A
graça cria uma ânsia pelo bem. Ela não gera um desejo de pecar. Alguém que
verdadeiramente abraçou a dádiva de Deus não irá escarnecer dela. Na realidade,
é de se pensar que jamais conheceu a graça de Deus alguém que a use para pecar.
Quando meu pai me deu o seu cartão, não anexou a ele uma lista de
regulamentos. Não houve um contrato para eu assinar, ou regras para eu ler. Ele
não me mandou pôr a mão sobre a Bíblia e jurar reembolsá-lo por quaisquer
despesas. Na verdade, não me pediu pagamento algum. Conforme decorreram as
coisas, passei um bom tempo sem usá-lo. Por quê? Porque ele me dera mais que
um cartão; dera-me sua confiança. E onde eu poderia quebrar suas regras, eu não
estava disposto a abusar de sua confiança.
A confiança de Deus torna-nos zelosos do bem. Tal é a índole da graça. A
lei pode mostrar-nos onde erramos, mas não pode fazer-nos zelosos do bem. A
graça pode. Ou, como esclarece Paulo, a fé leva-nos a ser aquilo que a lei
verdadeiramente quer (Rm 3-31).
Objeção 2: Novo Demais Para Ser Verdade
A segunda objeção à graça vem de um homem que é cauteloso com
qualquer novidade.
— Não me dê nada deste moderno ensinamento. Dê-me apenas a lei. Se ela
era boa o bastante para Abraão, é boa o bastante para mim.
— Tudo bem. Deixe-me contar-lhe da fé que seu pai Abraão tinha —
responde Paulo.
“Se Abraão foi justificado pelas obras, tem de que se gloriar,
mas não diante de Deus. Pois, que diz a Escritura? Creu
Abraão em Deus, e isto lhe foi imputado como justiça” (Rm
4.2,3).
Estas palavras devem ter atordoado os judeus. Paulo aponta Abraão como
protótipo da graça. Os judeus enalteciam a Abraão como um homem que fora
abençoado por causa de sua obediência à lei. O caso não é bem assim, argumenta
Paulo. O primeiro livro da Bíblia diz que Abraão “creu no Senhor, e foi-lhe
imputado isto por justiça” (Gn 15.6). Foi a sua fé, não as suas obras, que o tornou
justo diante de Deus. A mensagem reproduz-se em Rm 4.2: Abraão confiou em
Deus para torná-lo justo, em vez de tentar ser justo por si mesmo.
Cinco vezes em seis versículos, Paulo usa a palavra crédito. O termo é
comum no mundo financeiro. Creditar numa conta é fazer um depósito. Se eu
credito em sua conta, eu aumento seu saldo, ou abaixo seu débito.
Não seria ótimo se alguém creditasse as despesas de seu cartão? Durante
todo o mês você rrac-rraqueva as faturas, temendo o dia em que o demonstrativo
viesse pelo correio. Quando ele chegasse, você o deixaria sobre a sua
escrivaninha por alguns dias, não querendo ver o quanto devia. Finalmente, você
forçar-se-ia a abrir o envelope. Com um olho fechado e o outro aberto, espreitaria
a soma. O que você visse o faria esbugalhar o olho fechado. “Saldo devedor:
zero!”
Deve ser um engano. Então você liga ao banco que emitiu o cartão.
— Sim — explica o gerente — sua conta foi totalmente quitada. Um tal de
Max Lucado enviou-nos um cheque para cobrir sua dívida.
Você não pode acreditar em seus ouvidos.
— Como o senhor sabe que o cheque dele é bom?
— Oh, não há dúvida. O Sr. Lucado tem estado pagando as dívidas das
pessoas há anos.
De qualquer modo, eu adoraria fazer isso por você, mas não fique
esperançoso. Tenho minhas próprias faturas. Mas Jesus adoraria fazê-lo, e Ele
pode! Afinal de contas, Ele não tem dívida pessoal. E, o que é mais importante,
Ele tem feito isto há anos. Como prova, Paulo apanhou o arquivo de dois mil
anos, marcado “Abraão de Ur”, e puxou um extrato. O extrato tinha sua quota de
débitos. Abraão estava longe da perfeição. Houve algumas vezes em que ele
preferiu confiar nos egípcios, em vez de confiar em Deus. Ele até mentira,
dizendo a Faraó que Sara, sua esposa, era sua irmã. Mas Abraão teve uma atitude
que mudou-lhe a vida para sempre: “Abraão creu em Deus, e isto lhe foi creditado
como justiça” (Rm 4.3 NVI).
Aqui está um homem justificado pela fé, antes de sua circuncisão (v.10),
antes da lei (v.13), antes de Moisés e os dez mandamentos. Eis aqui um homem
justificado pela fé, antes da cruz! O sangue do Calvário, que cobre pecados,
estende-se tanto ao passado longínquo quanto ao futuro.
Abraão não é o único herói do Antigo Testamento que colocou-se sob a
graça de Deus. “Davi diz a mesma coisa, quando fala da bem-aventurança do
homem a quem Deus credita justiça, independente de obras: ‘Bem-aventurados
aqueles cujas transgressões são perdoadas, cujos pecados são cobertos. Bemaventurado
é o homem cujo pecado o Senhor jamais leva em conta’” (Rm 4. 6-8
NVI).
Não devemos ver a graça como uma provisão feita depois de a lei haver
falhado. A graça foi oferecida antes de a lei ter sido revelada. Na verdade, a graça
foi oferecida antes de o homem haver sido criado!
“Sabendo que não foi com coisas corruptíveis, como prata ou
ouro, que fostes resgatados da vossa vã maneira de viver,
que por tradição recebestes dos vossos pais, mas com
precioso sangue, como de um cordeiro sem defeito e sem
mancha, o sangue de Cristo, o qual, na verdade, foi
conhecido ainda antes da fundação do mundo, mas manifesto
no fim dos tempos por amor de vós” (1 Pe 1.18-20).
Por que Deus ofereceria graça antes que dela necessitássemos? Pergunta
você, satisfeito. Voltemos uma última vez ao cartão de crédito que meu pai me
deu. Mencionei que passei vários meses sem precisar dele? Mas quando precisei,
precisei realmente. Veja você, eu queria visitar um amigo num outro campus. Na
verdade, o amigo era uma garota numa outra cidade, distante seis horas de lá.
Num impulso, cabulei a aula numa sexta-feira de manhã, e sai. Não sabendo se
meus pais aprovariam, não lhes pedi permissão. Por sair apressado, esqueci-me de
levar dinheiro. Fiz a viagem sem o conhecimento deles, e com o bolso vazio.
Tudo ia bem até o carro sofrer uma séria avaria na viagem de volta. Usando
um pé-de-cabra, levantei o pára-lama da roda da frente, e assim o carro pode
avançar, embora com dificuldade, até um posto de gasolina. Ainda posso ver o
orelhão, onde estive de pé, no frio outonal. Meu pai, que supunha estar eu no
campus, atendeu minha chamada a cobrar, e ouviu minha narrativa. Minha
história não era grande coisa. Eu fizera uma viagem sem o seu conhecimento, sem
nenhum dinheiro, e arruinara seu carro.
— Bem — disse ele após longa pausa. — Estas coisas acontecem. Foi por
isto que lhe dei o cartão. Espero que tenha aprendido uma lição.
Eu aprendi? Certamente aprendi. Aprendi que o perdão de meu pai prédatara-
me o erro. Ele dera-me o cartão antes que eu sofresse a perda no incidente.
Ele provera para a minha asneira, antes que eu a cometesse. Preciso dizer-lhe que
Deus tem feito o mesmo? Por favor, entenda, papai não queria que eu estragasse o
carro. Ele não me deu o cartão para que eu arruinasse o veículo. Mas ele conhecia
seu filho. E ele sabia que, algum dia, seu filho careceria da graça.
Compreenda, por favor, Deus não nos quer pecando. Ele não nos deu a
graça porque pecaríamos. Mas Ele conhece seus filhos. “Ele que forma o coração
de todos eles, que contempla todas as suas obras” (Sl 33-15). “Pois ele conhece a
nossa estrutura, e sabe que somos pó” (Sl 103-14). E Ele sabia que, algum dia,
precisaríamos da sua graça.
A graça não é algo novo. A misericórdia de Deus pré-data Paulo e seus
leitores, pré-data Davi e Abraão; pré-data até mesmo a criação. Ela certamente
pré-datou qualquer pecado que você tenha cometido. A graça de Deus é mais
remota que o seu pecado, e maior que este também. Bom demais para ser
verdade? Essa é a terceira objeção.
Objeção 3: Bom Demais Para Ser Verdade
Assim como houve um pragmatista que afirmou ser a graça arriscada
demais, e um tradicionalista que afirmou ser ela nova demais, houve igualmente
um céptico que disse “É bom demais para ser verdade”.
Esta é, sem dúvida, a objeção mais comum à graça. Ninguém veio ao meu
escritório esta semana para perguntar-me sobre Abraão, obras, lei e fé. Mas as
paredes ouviram a indagação de uma jovem que passou dois anos na universidade
dizendo sim à carne e não a Deus. Conversei com um jovem marido interessado
em saber se Deus pode perdoar um aborto financiado por ele há uma década. Há o
pai que, só agora, compreende haver devotado sua vida ao trabalho, e
negligenciado os filhos.
Todos querem saber se ultrapassaram os limites de seu crédito com Deus. E
não são os únicos. A grande maioria simplesmente determina: “Deus pode dar
graça a você, mas não a mim. Veja só, tenho deixado a coisa correr solta. Tenho
chafurdado na lama. Não sou um pecador comum. Sou culpado de
_____________________.” E eles preenchem o espaço em branco.
Como você preencheria o espaço em branco? Há, em sua biografia, um
capítulo que o condena? Um vale profundo demais, em seu coração, para que o
Filho primogênito o atravesse? Se você pensa que não há mais esperança para si,
Paulo tem uma pessoa a qual deseja que você conheça. Nosso passado estéril traz
à memória do apóstolo o ventre estéril de Sara.
Deus prometera um filho a Sara e Abraão. De fato, o nome Abrão significa
“pai exaltado”. Deus até mudara o nome de Abrão para Abraão — “pai de
muitos”, contudo, nada de filho. Quarenta anos se passaram antes que a promessa
fosse honrada. Você não acha que a conversa tornou-se terrivelmente rotineira a
Abraão?
— Qual o seu nome?
— Abraão.
— Oh, “pai de muitos”! Que grande título? Diga-me, quantos filhos você
tem?
Abraão suspirava e respondia:
— Nenhum.
Deus prometera uma criança, porém Abraão não tinha filho. Saíra de sua
cidade para uma terra desconhecida, contudo nenhum filho havia nascido.
Superara a fome, mas ainda não tinha filho. Seu sobrinho Ló viera e se fora, mas
nenhum filho ainda. Encontrara-se com os anjos e com Melquizedeque,
continuava porém sem herdeiro.
Entrementes, estava Abraão com noventa e nove anos, e Sara não muito
mais jovem. Ela tricotava, e ele encaixava as peças de um quebra-cabeça. E
ambos acalentavam a idéia de balançar nos joelhos ossudos um menino robusto.
Ele perdera os cabelos, ela, os dentes. E nenhum passava muito tempo desejando
o outro. Não obstante, nunca haviam perdido a esperança. Ocasionalmente,
Abraão pensava na promessa de Deus, e então piscava para Sara. Ela dava-lhe um
sorriso e pensava: “Bem, Deus prometeu-nos um bebê, não prometeu?”
Quando as coisas pareciam impossíveis, Abraão ainda cria, apoiando-se
não no que ele não podia fazer, mas naquilo que Deus dissera que faria...
Abraão não focalizou a própria impotência e disse “É impossível. Este
velho corpo de cem anos nunca poderia ter um filho”. Tampouco avaliou as
décadas de infertilidade de Sara e desistiu. Ele não ficou roendo as unhas em volta
da promessa de Deus, e fazendo perguntas cépticas. Ele mergulhou na promessa,
e veio à tona forte, pronto para Deus. Por causa disso foi dito: “Abraão, contra
toda esperança, em esperança creu... e isto lhe foi também creditado como
justiça” (Rm 4.18,22 NVI).
Tudo se fora. Não mais juventude. Não mais vigor.
Não mais força. O levante-se-e-ande tinha se levantado e ido. Tudo o que o
velho Abraão e a velha Sara tinham era um carnê do seguro social e uma
promessa do céu. Porém Abraão resolveu confiar na promessa, em vez de fixar-se
nos problemas. Como resultado, o Programa Governamental de Assistência de
Saúde aos Casais Idosos foi o primeiro a ter um berço na enfermaria.
E nós, temos mais que eles? Realmente não. Não há um de nós que não
tenha rrac-rraqueado mais faturas do que poderia pagar. Porém não há um de nós
que deva permanecer em débito. O mesmo Deus, que deu um filho a Abraão,
prometeu graça a nós.
O que é mais inacreditável, Sara dizendo a Abraão que ele era papai, ou
Deus declarando justos você e eu? Ambas as coisas absurdas. Ambas boas demais
para ser verdade. Mas ambas vindas de Deus.
9. A Liga Principal da Graça
Romanos 5.1-3
Justificados, pois, pela fé, tenhamos paz com Deus, por
nosso Senhor Jesus Cristo, por quem obtivemos também
nosso acesso pela fé a esta graça, na qual estamos firmes, e
gloriemo-nos na esperança da glória de Deus. Romanos 5 1,2
Batedores apressando-se para receber a taça? Jogos terminados sem
reclamações? Árbitros recebendo agradecimentos após o jogo? Fãs devolvendo as
bolas lançadas fora?
Esta é Liga Principal de Beisebol?
Era. Por algumas semanas, durante a primavera de 1995, o beisebol
profissional foi um jogo diferente. Os braços de um milhão de dólares estavam
em casa. O tacos do Cadillac estavam na prateleira. Os jogadores contratados
estavam negociando por mais dinheiro. Os cartolas, determinados a começar a
temporada, abriram os portões a qualquer um que soubesse como segurar um
taco, ou correr e rebater a bola.
Esses não eram os confederados juniores. A confederação júnior também
estava em greve. Esses eram companheiros que foram treinados na Pequena Liga,
numa semana, para usar um uniforme Red Sox na semana seguinte.
Os jogos não eram passatempo, lembre-se. Os atacantes raramente
alcançavam o defensor. Um treinador disse aos seus arremessadores para
lançarem a bola tão lentamente, que um radar não pudesse registrá-la. Um fã
poderia bombardeá-lo com uma dúzia de amendoins, no tempo que esta levaria
para chegar ao rebatedor. Os jogadores xingavam e bufavam mais que uma
locomotiva a vapor.
Mas, puxa, como se divertiam! A quadra estava salpicada de rapazes que
jogavam por amor ao esporte. Quando o treinador dizia corre, eles corriam.
Quando ele precisava de um voluntário para procurar e jogar de volta a bola, uma
dúzia de mãos se levantavam. Eles chegavam antes que o parque fosse aberto,
engraxando as luvas e limpando os sapatos ferrados. Quando era hora de ir para
casa, ficavam até que os funcionários pusessem-nos para fora. Eles agradeciam
aos serventes por lavarem seus uniformes. Agradeciam aos fornecedores pela
comida. Agradeciam aos fãs por pagarem para assistir. A fila de jogadores
dispostos a dar autógrafos era maior que a fila de fãs esperando por eles.
Esses rapazes não viam a si mesmos como uma bênção para o beisebol,
mas o beisebol como uma bênção para eles. Não esperavam luxo; surpreendiamse
com ele. Não exigiam mais diversão; vibravam com o jogo.
Era beisebol outra vez.
Em Cincinnati, o treinador geral saiu do campo e aplaudiu os fãs por terem
vindo. Os Fhillies deram soda e cachorro quente de graça. No intercâmbio anual,
o Cleveland Indians deu cinco jogadores ao Cincinnati Reds — de graça!
Não era nada elegante. Não se viam corredores homéricos, nem bolas com
efeito. Todavia, isso era perdoado pela genuína alegria de ver alguns rapazes
jogar por puro prazer. O que os tornava tão especiais? Simples. Estavam tendo
uma vida que não mereciam. Esses rapazes não fizeram o que fizeram por
pertencerem a grandes ligas; fizeram por sorte. Não foram escolhidos por serem
bons; foram porque estavam dispostos.
E eles bem o sabiam! Você nunca leu um artigo sobre jogadores substitutos
reclamando por causa de salários baixos. Li a história de um companheiro que
ofereceu cem mil dólares se algum cartola o registrasse. Não havia manobras
estratégicas. Nem segundas intenções na gerência. Nenhuma greve. Nada de
greves patronais, ou ação de retirada em protesto. Céus, esses rapazes nem mesmo
se queixavam de que seus nomes não eram bordados nos suéteres de lã. Sentiamse
felizes por apenas estar na equipe.
Também não deveríamos estar? Não somos um bocado parecidos com
esses jogadores? Se os primeiros capítulos de Romanos dizem-nos alguma coisa,
dizem-nos que estamos tendo uma vida que não merecemos. Não somos bons o
bastante para sermos escolhidos, mas olharam para nós, e estávamos prontos a
jogar! Não somos expertos o bastante para formarmos a liga comunitária de
esportes, mas nossos nomes estão inscritos no maior rol de toda a história!
Merecemos estar ali? Não. Mas iríamos negociar o privilégio? Por nada
neste mundo! Se a declaração de Paulo é verdadeira, a graça de Deus colocou-nos
numa equipe além da imaginação. Nosso passado está perdoado, e nosso futuro,
garantido. E, para que não esqueçamos esta dádiva indescritível, Paulo especifica
as bênçãos que a graça de Deus traz ao mundo (veja Rm 5.1-12).
Bênção 1: Temos Paz Com Deus
“Justificados, pois, pela fé, tenhamos paz com Deus” (v.1).
Paz com Deus. Que feliz conseqüência da fé! Não meramente paz entre
países, paz entre vizinhos, ou paz no lar; salvação traz paz com Deus.
Uma vez, um monge e seu aprendiz viajaram da abadia para a aldeia
vizinha. No portão da cidade, eles separaram-se, combinando encontrar-se na
manhã seguinte, após completarem suas tarefas. De acordo com o planejado,
encontraram-se e iniciaram a longa viagem de volta à abadia. O monge notou que
o jovem estava estranhamente quieto. Perguntou-lhe se algo saíra errado.
— Por que o interesse? — veio a resposta lacônica.
Agora o monge tinha certeza de que algo perturbava o seu irmão; não disse
nada, porém. A distância entre os dois começou a aumentar. O aprendiz andava
lentamente, como se para separar a si mesmo do mestre. Quando a abadia surgiu à
vista, o monge parou no portão e esperou o aluno.
— Diga-me, meu filho. O que lhe perturba a alma?
O jovem pôs-se a disfarçar de novo, mas ao ver a cordialidade nos olhos do
mestre, seu coração derreteu-se.
— Cometi um grande pecado — soluçou ele. — À noite passada, dormi
com uma mulher, e quebrei meus votos. Não sou digno de entrar na abadia ao seu
lado.
O monge pôs o braço ao redor dos ombros do pupilo e afirmou:
— Vamos entrar juntos na abadia. E entraremos juntos na catedral. E,
juntos, confessaremos o seu pecado. Ninguém, mas somente Deus, saberá quem
de nós caiu.
Isso não descreve o que Deus tem feito por nós? Quando calamos sobre
nossos pecados, afastamo-nos dEle. Vemo-lo como um inimigo. Esquivamo-nos
de sua presença. Mas a confissão de nossas faltas altera nossa percepção. Deus
não é mais um adversário, mas um amigo. Estamos em paz com Ele. Deus fez
mais que o monge, muito mais. Mais que partilhar de nosso pecado, Jesus foi
“moído pelas nossas iniqüidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele” (Is
55.3). Ele aceitou o opróbrio (Hb 12.2). Ele introduz-nos à presença de Deus.
Bênção 2: Temos um Lugar Com Deus
Ser introduzido à presença de Deus é a segunda bênção que Paulo descreve,
“...por meio de nosso Senhor Jesus Cristo; por intermédio de quem obtivemos
igualmente acesso, pela fé, a esta graça na qual estamos firmes; e gloriemo-nos na
esperança da glória de Deus” (Rm 5.1,2). Observe a frase “por intermédio de
quem obtivemos acesso”. A palavra grega significa “introduzir à presença da
realeza”. Duas vezes em Efésios, Paulo recorda nosso direito de adentrarmos à
presença de Deus.
“Por causa daquilo que Cristo fez por nós podemos ir a Deus
o Pai” (Ef 2.18 BV).
“Agora podemos entrar sem medo nenhum na presença de
Deus...” (Ef 3.12 BV).
Cristo encontra você do lado de fora da sala do trono, toma-o pela mão, e o
introduz à presença de Deus. Uma vez ali, encontramos graça, não condenação;
misericórdia, não punição. Onde nunca nos seria permitido uma audiência com o
rei, somos agora bem-vindos em sua presença.
Se você é pai, entende isto. Se uma criança que você não conhece,
aparecesse à sua porta, e pedisse para passar a noite, o que você faria?
Provavelmente, perguntar-lhe-ia o nome e onde vive; descobriria porque
está perambulando pelas ruas, e contataria os pais dela. Por outro lado, se uma
criança entra em sua casa escoltada por seu filho, ela é bem-vinda. O mesmo é
verdade com Deus. Tornando-nos amigos do Filho, ganhamos acesso ao Pai.
Jesus prometeu: “Portanto, todo aquele que me confessar diante dos
homens, também eu o confessarei diante de meu Pai, que está nos céus” (Mt
10.32). Porque somos amigo do Filho, temos entrada à sala do trono. Ele
introduz-nos nesta bênção da graça de Deus, de que agora desfrutamos.
Esta dádiva não é uma visita ocasional a Deus, mas um permanente “acesso
pela fé a esta graça na qual agora estamos firmes” (Rm 5.2 NVI). É aqui que
termina minha analogia com os jogadores substitutos de beisebol. Eles sabiam
que seu status era temporário. Seus privilégios durariam enquanto durasse a
greve. Não é assim conosco. Nossos privilégios duram enquanto dura a fidelidade
de Deus, e esta nunca foi questionada. “Se somos infiéis, ele permanece fiel;
porque não pode negar-se a si mesmo” (2 Tm 2.13). Isaías descreve a fidelidade
de Deus como o “cinto à volta dos seus rins” (Is 11.5). Davi anuncia que a
fidelidade de Deus chega até os céus (Sl 36.5).
Imagino que a analogia do beisebol funcionaria se o cartola conferisse-nos
o status dos membros da equipe efetiva. Neste caso, nossa posição na turma
dependeria não de nossa performance, mas de seu poder. Algum cartola já
concedeu tal coisa? Não sei, mas Deus o faz.
Antes de ir adiante, note a seqüência destas bênçãos. A primeira bênção
relaciona-se ao nosso passado; temos paz com Deus porque o nosso passado está
perdoado. A segunda bênção trata do presente. Temos paz com Deus porque Jesus
tem-nos apresentado ao Pai.
Alguém imagina qual a próxima bênção?
Bênção 3: Partilhamos a Sua Glória
Acertou: nosso futuro, “...e nos gloriamos na esperança da glória de Deus”
(Rm 5.2).
A graça de Deus é a razão de havermos passado de pessoas cujas
“gargantas são como sepulcros abertos” (Sl 5.9) a participantes da glória de Deus.
Tínhamos sido atirados para fora; agora fomos chamados e postos para dentro.
O que significa partilhar da glória de Deus? Posso dedicar um capítulo à
questão? (Por que estou lhe perguntando? O livro já foi escrito!). Venha comigo
do mundo do beisebol e seus jogadores substitutos para a cena de um rei e um
aleijado. Você entenderá o que estou dizendo, em poucas páginas.
10. O Privilégio dos Indigentes
Romanos 5.6-8
“Mas Deus prova o seu amor para conosco em que Cristo
morreu por nós, sendo nós ainda pecadores.” Romanos 5.8
Advertência: O conteúdo deste capítulo é próprio para abrir o apetite. Você
pode querer lê-lo na cozinha.
Minha primeira colocação ministerial foi em Miami, Flórida. Em nossa
congregação tínhamos mais que a nossa quota de senhoras sulistas, que adoravam
cozinhar. Eu me encaixava perfeitamente, pois era um rapaz solteiro, que adorava
comer. A igreja era adepta dos jantares triviais de domingo à noite, e a cada três
meses, eles festejavam.
Em algumas igrejas, os jantares “triviais” fazem jus ao nome. As
cozinheiras rapam a panela, e você tenta a sorte. Não assim com essa igreja.
Nossos “triviais” eram um grande evento. Os armazéns da região pediam-nos que
os avisássemos com antecedência, para que pudessem suprir suas prateleiras.
Livros de receitas eram vendidos aos montes. Para as mulheres, era uma refeição
extra-oficial; para os homens, uma descarada comilança.
Para mim, era ótimo, uma verdadeira cornucópia. Suculentos presuntos em
calda de abacaxi, feijões especiais, picles condimentados, tortas de nozes-pecãs...
(Opa, já estou babando no teclado do computador). Já se perguntou por que há
tantos pregadores robustos? Você entra no ministério para ter refeições como
essas.
Como um solteiro, eu contava com os “jantares triviais” para minha
estratégia de sobrevivência. Enquanto os outros planejavam o que cozinhar, eu
estudava a técnica de armazenagem dos camelos. Sabendo que deveria levar
alguma coisa, eu atacava as prateleiras de minha cozinha no domingo à tarde. O
resultado era deplorável: uma vez levei meio pote amendoim; outra vez fiz meia
dúzia de sanduíches de ge-léia. Uma de minhas melhores oferendas foi um saco
fechado de batata frita. Outra, um pouco mais magra, foi uma lata de sopa de
tomates, também fechada.
Não era muito, mas ninguém nunca reclamou. De fato, o modo como agiam
aquelas senhora o faria pensar que eu tinha levado o peru de ação de graças, filas
recebiam meu pote de amendoim e o colocavam sobre a longa mesa, com os
outros alimentos. Davam-me um prato e incentivavam:
— Vá em frente, Max. Não se acanhe. Encha o prato. E eu ia! Purê de
batatas. Molho. Rosbife. Frango frito. Eu pegava um pouco de cada coisa, menos
o amendoim.
Eu chegava como um indigente, e comia como um rei! Embora Paulo
nunca tenha ido a um “trivial”, ele teria adorado o simbolismo. Ele diria que
Cristo fez por nós precisamente o que aquelas senhoras faziam por mim. Ele
recebeu-nos em sua mesa em virtude de seu amor e de nossa petição. Não são as
nossas oferendas que nos garantem um lugar no banquete; na verdade, qualquer
coisa que levemos parecerá insignificante em sua mesa.
A admissão de nossa fome é a única exigência, pois, “Bem-aventurados os
que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos” (Mt 5.6). Nossa fome, então,
não é um anseio a ser evitado, mas antes, um bem-vindo desejo a ser atendido.
Nossas fraquezas não são para serem rejeitadas, mas confessadas. Note sé não é
este o âmago das palavras de Paulo, quando escreve: “De fato, no devido tempo,
quando ainda éramos fracos, Cristo morreu pelos ímpios. Dificilmente haverá
alguém que morra por um justo; pelo homem bom talvez alguém tenha coragem
de morrer. Mas Deus demonstra seu amor por nós pelo fato de Cristo ter morrido
em nosso favor quando ainda éramos pecadores.” (Rm 5.6-8 NVI).
O Retrato de Um Indigente
O retrato que Paulo faz de nós não é nada atrativo. Nós éramos “incapazes
de ajudar a nós mesmos”, “vivendo contra Deus”, “pecadores”, “inimigos de
Deus” (Rm 5.6,8,10). Tais são as pessoas por quem Cristo morreu.
O terapeuta familiar, Paul Faulkner, conta do homem que resolveu adotar
uma adolescente problemática. Alguém questionaria a lógica do pai. A menina era
destrutiva, desobediente e desonesta. Um dia, ela veio da escola para casa, e
revirou tudo à procura de dinheiro. Quando ele chegou, ela já se fora, e a casa
estava de pernas para o ar.
Ao saber do fato, os amigos insistiram com ele para que não finalizasse a
adoção.
— Deixe-a ir — aconselharam. — Afinal, ela não é realmente sua filha.
A resposta dele foi simples:
— Sim, eu sei. Mas eu disse a ela que era.
Deus, também, fez um acordo para adotar o seu povo. E seu pacto não é
invalidado por nossa rebelião. Uma coisa é amar-nos quando somos fortes,
obedientes, e cordatos. Porém, e quando vasculhamos-lhe a casa, e roubamos o
que é dele? Esta é a prova do amor.
E Deus passa na prova. “Mas Deus prova seu amor para conosco em que
Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores” (Rm 5.8).
As damas de minha igreja não olhavam para mim e meu amendoim, e
diziam: “Volte quando aprender a cozinhar”.
O pai não olhou para a bagunça da casa, e disse: “Volte quando aprender a
respeitar”.
Deus não olhou para nossas vidas confusas, e disse: “Morrerei por você,
quando você o merecer”.
Nem Davi olhou para Mefibosete e disse: “Eu o resgatarei quando você
aprender a andar”.
Mefibo o quê?
Mefibosete. Quando você ouvir sua história, compreenderá por que
mencionei-lhe o nome. Assopre a poeira dos livros de 1 e 2 Samuel, e lá você o
verá.
(E Jônatas, filho de Saul, tinha um filho aleijado de ambos os
pés. Era da idade de cinco anos quando as novas de Saul e
Jônatas vieram de Jezreel; e sua ama o tomou e fugiu; e
sucedeu que, apressando-se ela a fugir, ele caiu e ficou coxo;
o seu nome era Mefibosete) (2 Sm 4.4).
Os parêntesis no versículo não são tipos. Mefibosete está entre parêntesis
na Bíblia. O versículo não diz muito; apenas seu nome (Mefibosete), sua
calamidade (deixado cair pela ama), sua deformidade (aleijado dos pés), e segue
adiante.
Mas isto basta para levantar algumas questões. Quem era esse menino? Por
que sua história aparece na Escritura? Por que Max Lucado o está mencionando
num livro sobre a graça? Uma pequena volta ao passado será útil.
Mefibosete era filho de Jônatas e neto de Saul, o primeiro rei de Israel. Saul
e Jônatas tinham sido mortos na batalha, deixando o trono para ser ocupado por
Davi. Naqueles dias, o novo rei, às vezes, demarcava seu domínio, exterminando
a família de seu antecessor.
Davi não pretendia seguir esta tradição, mas a família de Saul não sabia
disso. Então apressaram-se a fugir. O cuidado deles concentrou-se em Mefibosete,
de cinco anos, que, após a morte do pai e do tio, era o provável herdeiro do trono.
Se Davi tivesse a intenção de assassinar os herdeiros de Saul, esse menino seria o
primeiro da lista. Então a família fugiu. Na precipitação, Mefibosete escapuliu do
colo da ama, danificando, permanentemente, ambos os pés. Pelo resto de sua vida,
ele seria um aleijado.
Se a história está começando a lhe parecer familiar, é o que deveria
acontecer. Você e Mefibosete têm muito em comum. Você também não nasceu da
realeza? E você também não traz as marcas de uma queda? E não temos, cada um
de nós, vivido com medo de um rei que nunca vimos?
Mefibosete entenderia o retrato que Paulo faz de nós, indigentes: “estando
nós ainda fracos...” (Rm 5.6). por aproximadamente duas décadas, o jovem
príncipe viveu numa terra distante, amedrontado demais para falar com o rei. Ele
era fraco, incapaz de ajudar-se a si mesmo.
Entrementes, o reino de Davi florescia. Sob a sua liderança, Israel
aumentou dez vezes o seu tamanho original. Ele não conhecia derrotas em campo
de batalha, nem insurreição em sua corte. Israel estava em paz. O povo estava
agradecido. E Davi, o pastor feito rei, não esquecera a promessa feita a Jônatas.
A Promessa de Um Rei
Davi e Jônatas eram como duas teclas num piano. Separados, faziam
música; juntos, harmonia. Jônatas amava a Davi “com todo o amor da sua alma”
(1 Sm 20.17). Sua legendária amizade encontrou sua prova máxima no dia em que
Davi ouviu que Saul tentava matá-lo. Jônatas empenhou-se para salvar Davi, e
pediu em troca um favor ao amigo: “Nem tampouco cortarás da minha casa a tua
beneficência eternamente; nem ainda quando o Senhor desarraigar da terra a cada
um dos inimigos de Davi. Assim fez Jônatas aliança com a casa de Davi (1
Samuel 20.15,16).
Você reconhece que essa era uma terna lembrança para Davi? Pode
imaginá-lo refletindo sobre esse momento, anos mais tarde? Da sacada do palácio,
contemplando a cidade salva. Cavalgando em seu corcel, através dos campos
abundantes. Vestido em sua armadura, inspecionando seu competente exército.
Em algum momento foi ele dominado pela gratidão? Alguma vez pensou: “Não
houvesse Jônatas salvo a minha vida, nada disso teria acontecido”?
Talvez, um desses momentos de reflexão o tenha levado a voltar-se para os
servos e perguntar: “Há ainda alguém que ficasse da casa de Saul, para que lhe
faça bem por amor de Jônatas?” (2 Sm 91).
Aqueles que estão nas garras da graça são conhecidos por fazerem
semelhantes indagações. “Posso fazer algo por alguém?” “Posso ser bondoso com
alguém, assim como outros têm sido bondosos comigo?” Isto não é uma manobra
astuta. Davi não procurou fazer o bem a fim de ser aplaudido pelas pessoas. Nem
fez alguma coisa, esperando que fizessem o mesmo por ele. Mas foi movido pelo
singular pensamento de que ele também já fora fraco, E em sua fraqueza, fora
ajudado. Enquanto se escondia de Saul, cabia-lhe bem o epitáfio de Paulo:
“Quando éramos incapazes de ajudar a nós mesmos” (Rm 5.6).
Davi obtivera livramento; agora desejava fazer o mesmo. Um servo
chamado Ziba conhecia um descendente. “Ainda há um filho de Jônatas, aleijado
de ambos os pés. E disse-lhe o rei: Onde está? E disse Ziba ao rei: Eis que está em
casa de Maquir, filho de Amiel, em LoDebar” (2 Sm 9.3,4).
Apenas uma sentença e Davi soube que havia mais do que ele esperava. O
menino era “aleijado de ambos os pés”. Quem teria culpado Davi por perguntar a
Ziba: “Há alguma outra opção? Algum membro saudável da família?”
Quem o culparia por raciocinar:
“Um aleijado não se adaptará à multidão do castelo. Apenas a
elite anda por estes pavimentos; este menino nunca poderá
andar! E que serventia teria ele? Sem saúde, sem educação,
sem treino. E quem sabe que aparência ele tem? Todos
esses anos, vivendo em... como é mesmo? LoDebar? Até o
nome parece “lodo e barro”. Certamente há alguém que eu
possa ajudar, que não seja tão paupérrimo”.
Mais tais palavras nunca foram pronunciadas. A única resposta de Davi foi:
“Onde está esse filho?” (v.4).
Esse filho. Há quanto tempo Mefibosete não recebia a designação de filho?
Em todas as referências anteriores, fora chamado de aleijado. Em cada menção,
seu nome é seguido de sua desvantagem. Todavia, as palavras de Davi não
fizeram menção de sua deficiência. Ele não perguntou: “Onde está Mefibosete,
essa criança problemática?” Mas sim: “Onde está esse filho?”
Alguns de vocês sabem o que significa carregar um estigma. A cada vez
que seu nome é mencionado, sua calamidade o acompanha.
“Tem tido notícias de João, ultimamente? Você sabe, aquele colega
divorciado”.
“Recebemos uma carta de Jerry. Lembra dele? O alcoólatra”. “Sharon está
na cidade. Que humilhação ela ter criado sozinha aqueles meninos”.
“Vi Melissa hoje. Não sei por que ela não consegue parar num emprego”.
Como um irmão incômodo, seu passado o segue onde quer que você vá.
Não há ninguém que o veja pelo que você é, e não pelo que você faz? Sim. Existe
um que o vê pelo que você é. Seu Rei. Quando Deus fala de você, não menciona
sua situação, dor, ou problema; ele o deixa partilhar da sua glória. Ele o chama de
filho.
“Não repreenderá perpetuamente, nem para sempre
conservará a sua ira.
Não nos trata segundo os nossos pecados, nem nos retribui
segundo as nossas iniqüidades.
Pois quanto o céu está elevado acima da terra, assim é
grande a sua benignidade para com os que o temem.
Quanto o oriente está longe do ocidente, tanto tem ele
afastado de nós as nossas transgressões.
Como um pai se compadece de seus filhos, assim o Senhor
se compadece daqueles que o temem.
Pois ele conhece a nossa estrutura; lembra-se de que somos
pó” (Sl 103.9-14).
Mefibosete carregou seu estigma por vinte anos. Quando lhe mencionavam
o nome, mencionavam-lhe o problema. Porém quando o rei pronunciou-lhe o
nome, chamou-o de “filho”. E uma palavra vinda do palácio equivale a mil vozes
nas ruas.
Os mensageiros de Davi rumaram para a casa de Mefibosete, puseram-no
em uma carruagem, e escoltaram-no até o palácio. Ele foi levado à presença do
rei, onde prostrou-se com o rosto em terra, e confessou: “Eis aqui teu servo” (2
Sm 9.6). Seu temor era compreensível. Embora ele tivesse ouvido falar da
bondade de Davi, quem lha garantiria? Apesar de os emissários lhe haverem dito
que Davi não pretendia fazer-lhe mal, ele estava amedrontado. (Você não
estaria?) A ansiedade estava naquela face que se inclinava ao chão. As primeiras
palavras de Davi para ele foram: “Não tenha medo”.
De igual modo, seu Rei é conhecido por dizer o mesmo. Já notou que a
maioria das ordens repetidas pelos lábios de Jesus era: “Não temas”? Já observou
que a ordem celeste para não temer aparece em cada livro da Bíblia?
Mefibosete fora chamado, encontrado, e resgatado, mas ainda precisava de
garantia. O apóstolo aponta a cruz como nossa garantia do amor de Deus. “Deus
prova o seu amor para conosco em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda
pecadores” (Rm 5.8). Deus provou seu amor por nós através do sacrifício de seu
Filho.
No passado, Deus enviara profetas a pregar; agora, enviou seu Filho para
morrer. No passado, Deus comissionara anjos a ajudar; agora, ofereceu seu Filho
para redimir. Quando trememos, ele aponta o sangue derramado no madeiro e
conforta: “Não tenha medo”.
Durante os primeiros dias da guerra civil americana, um soldado da União
foi preso por deserção. Incapaz de provar sua inocência, foi condenado e
sentenciado à morte dos desertores. Sua apelação foi parar na mesa de Abraão
Lincoln. O presidente compadeceu-se do soldado e assinou um indulto. O soldado
retornou ao serviço, lutou durante toda a guerra, e foi morto na última batalha. No
bolso de sua camisa, foi encontrada a carta assinada pelo presidente.
Cercando o coração do soldado, estavam as palavras de perdão de seu líder.
Ele achara coragem na graça. Pergunto-me quantos milhares mais acharam
coragem na cruz enaltecida de seu Rei.
O Privilégio da Adoção
Assim como Davi cumpriu sua promessa a Jônatas, Deus cumpre-nos a sua.
O nome Mefibosete significa “o que despedaça a desonra”. E era isto, exatamente,
o que Davi pretendia fazer pelo jovem príncipe.
Logo em seguida, Davi devolveu a Mefibosete todas as suas terras,
colheitas, e servos, e insistiu que o aleijado comesse da mesa do rei. Não apenas
uma vez, mas para sempre!
“E te restituirei todas as terras de Saul, teu pai, e tu de
contínuo conterás pão à minha mesa”.
“Mefibosete... de contínuo comerá pão à minha mesa”.
“Porém Mefibosete comerá pão à minha mesa como um dos
filhos do rei”.
“Morava, pois, Mefibosete em Jerusalém, porquanto de
contínuo comia à mesa do rei; e era coxo de ambos os pés”
(2 Sm 97,10,11,13 itálicos meus).
Pare e visualize a cena na sala de jantar real. Posso novamente passar
minha pena a Charles Swindoll a fim de ajudar você?
A sineta ressoa através do palácio, anunciando o jantar. Davi
chega e senta-se à cabeceira da mesa. Em poucos minutos,
Amnon — esperto e astucioso Amnon — senta-se à esquerda
de Davi. A adorável e graciosa Tamar, uma jovem bonita e
atraente, aproxima-se e senta-se ao lado de Amnon. E então,
atravessando o recinto, Salomão caminha lentamente, vindo
de seus estudos; precoce, brilhante, preocupado Salomão. O
virtual herdeiro senta-se devagar. E aí, Absalão — bonitão,
encantador Absalão, com seus cabelos bastos e ondulados,
negros como um corvo, descendo-lhe pelos ombros —
assenta-se também. Nessa noite particular, Joabe, o corajoso
guerreiro e comandante das tropas de Davi, foi convidado a
jantar. Musculoso, bronzeado, Joabe senta-se perto do rei.
Posteriormente, eles esperam. Ouve-se o arrastar de pés, o
tum, tum, tum das muletas, enquanto Mefibosete, um tanto
desajeitado, encontra seu lugar à mesa, escorrega para o
assento e... a toalha da mesa cobre-lhe os pés. Pergunto-lhe:
Mefibosete compreendeu a graça?
E eu lhe pergunto: você vê nele a nossa história?
Filhos da realeza, aleijados por uma queda, permanentemente desfigurados
pelo pecado. Vivendo de modo parentético nas crônicas da terra, apenas para ser
lembrado pelo rei. Movido não por nossa formosura, mas por sua promessa, ele
chamou-nos a si, e convidou-nos a tomar lugar à sua mesa. Embora às vezes
coxeemos mais do que andamos, tomamos nosso lugar junto a outros pecadorestornados-
santos, e partilhamos a glória de Deus.
Posso partilhar com você algumas das coisas que o esperam na mesa do
rei?
Você está além da condenação (Rm 8.1).
Você está liberto da lei (Rm 7.6).
Você está perto de Deus (Ef 2.13).
Você está livre do poder do mal (Cl 1.13).
Você é um membro do reino de Deus (Cl 1.13).
Você está justificado (Rm 5.1).
Você é perfeito (Hb 10.14).
Você foi adotado (Rm 8.15).
Você tem acesso a Deus a qualquer momento (Ef 2.18).
Você é uma parte de seu sacerdócio (1 Pe 2.5).
Você nunca será abandonado (Hb 13.5).
Você tem uma herança imperecível (1 Pe 1.4).
Você partilha da vida de Cristo (Cl 5.4),
de seus privilégios (Ef 2.6)
de seus sofrimentos (2 Tm 2.12),
e de seu serviço (1 Co 1.9).
Você é um:
Membro do seu corpo (1 Co 12.13).
Ramo na videira (Jo 15.5).
Pedra no edifício (Ef 2.19-22).
Noiva ataviada (Ef 5.25-27).
Sacerdote na nova geração (1 Pe 2.9).
Habitação do Espírito (1 Co 6.19).
Você possui (guarde isto!) todas as bênçãos espirituais possíveis
“Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual
nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares
celestiais em Cristo” (Ef 1.3).
Este é o presente oferecido ao mais humilde pecador da terra. Quem
poderia fazer tal oferta, senão Deus? “E todos nós recebemos também da sua
plenitude, com graça sobre graça” (Jo 1.16).
Paulo declara-nos tudo ao perguntar:
Você já experimentou algo como este extravagante amor de Deus, esta
profunda sabedoria? Está além de nossa mente. Nunca o calcularemos com
exatidão.
“Ó profundidade da riqueza da sabedoria e do conhecimento
de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e
inescrutáveis os seus caminhos!
Quem conheceu a mente do Senhor?
Ou quem foi seu conselheiro
Quem primeiro lhe deu para que ele o recompense?
Pois dele, por ele e para ele são todas as coisas.
A ele seja a glória para sempre! Amém.” (Rm 11.33-36).
À semelhança de Mefibosete, somos filhos do Rei. E, como me acontecia
em Miami, nossas maiores oferendas, comparadas ao que nos é dado, não passam
de amendoins.
III Parte - QUE DIFERENÇA!
Onde a graça de Deus é omitida, nasce a amargura. Onde a
graça de Deus é abraçada, floresce o perdão.
Quanto mais passeamos no jardim, mais semelhante ao das
flores é o nosso aroma.
Quanto mais imergimo-nos na graça, mais graça
concedemos.
11. A Graça Funciona
Romanos 6.11,12
Nós, os que morremos para o pecado, como podemos
continuar vivendo nele? Romanos 6.2 NVI
Às vezes dou dinheiro no final do sermão. Não para pagar os ouvintes
(embora alguns possam achar que o mereçam). Ofereço um dólar a qualquer um
que o aceite. Dinheiro de graça. Um presente. Convido qualquer um, que queira o
dinheiro, a vir pegá-lo.
A reação é previsível. Uma pausa. Alguns pés se arrastam. Uma esposa
cutuca o marido, e ele sacode a cabeça. Um adolescente começa a levantar-se,
mas então se lembra de sua reputação. Uma criança de cinco anos começa a
mover-se pelo corredor, e sua mãe a puxa de volta. Finalmente algum corajoso
(ou pobre de espírito) levanta-se e anuncia:
— Eu irei pegá-lo.
O dólar é dado, e a aplicação se inicia.
— Por que vocês não aceitaram a minha oferta? — Pergunto ao restante.
Alguns dizem que ficaram embaraçados. O ganho não compensa o
sofrimento. Outros temiam uma pegada. E há aqueles cujas carteiras estão gordas.
O que significa um dólar para que tem cem?
E então vem a indagação óbvia: “Por que as pessoas não aceitam o dom
gratuito de Cristo?” As respostas são similares: Alguém está muito embaraçado.
Aceitar perdão é admitir pecado, um passo que somos lentos em dar. Outros
temem um truque. Quem sabe se não há algum detalhe do acordo escrito em letras
miúdas na Bíblia? Outros pensam: Quem precisa de perdão, quando se é tão bom
quanto eu?
Embora a graça seja disponível a todos, é aceita por poucos. Muitos
preferem sentar e esperar, enquanto poucos escolhem levantar e confiar.
Comumente, esse é o fim. A lição é completada, eu fico um dólar mais
pobre, alguém fica um dólar mais rico, e todos nós ficamos um pouco mais
sábios. De qualquer modo, aconteceu algo, há umas duas semanas, que deu à
prática uma nova dimensão. Myrtle foi quem disse sim ao dólar. Eu fizera a
oferta, e estava esperando por um aceitador, quando ela levantou a voz:
— Eu aceito!
Ela veio rapidamente, e eu dei-lhe o dólar. Ela retornou ao assento, eu
terminei minha prédica, e todos voltamos para casa.
Procurei-a, alguns dias depois, e perguntei-lhe pelo dinheiro de meu
sermão.
— Você ainda está com o dólar?
— Não.
— Gastou-o?
— Não, dei-o embora — respondeu ela. — Quando voltei a sentar, um
menino perguntou-me se poderia ficar com ele. “Claro”, disse eu. “Foi um
presente para mim; é um presente para você”.
Puxa, isto não diz nada? Tão simplesmente como o recebeu, ela o deu. Tão
facilmente quanto veio, se foi. O menino não implorou, nem ela relutou. Como
podia ela, a quem fora dado um presente, não dar outro em retribuição? Ela estava
presa nas garras da graça.
Usaremos estes últimos capítulos para discutir o impacto da graça. Agora
que já consideramos a desordem que fizemos, e o Deus que temos, vamos refletir
sobre a diferença que a graça faz em nossas vidas. Qual é exatamente o aspecto de
um cristão conduzido pela graça?
A Graça liberta-nos
Em Romanos 6, Paulo faz-nos a pergunta crucial: “Nós, os que morremos
para o pecado, como podemos continuar vivendo nele?” (v.2). Como podemos
nós, que temos sido justificados, não viver justamente? Como podemos nós, que
temos sido amados, não amar também? Como podemos nós, que temos sido
abençoados, não abençoar? Como podemos nós, a quem tem sido dado graça, não
viver graciosamente?
Paulo parece chocado com tal possibilidade! Como poderia a graça resultar
em qualquer coisa que não um viver gracioso? “Continuaremos pecando para que
a graça aumente? De maneira nenhuma!” (vv. 1, 2a).
O termo para esta filosofia é antinomianismo: anti significa “contra”, e
nomi, “lei moral”. Os promotores da idéia vêem a graça mais como uma razão
para se fazer o mal, do que para se fazer o bem. A graça concede-lhes um brevê
para o mal. Quanto piores forem os meus atos, melhor Deus parecerá. Esta não é a
primeira referência de Paulo sobre o assunto. Lembra-se de Rm 3.7? “Alguém
pode alegar ainda: Se a minha mentira ressalta a veracidade de Deus, aumentando
assim a sua glória, por que sou condenado como pecador?” (NVI).
Que desculpa! Vocês mães não a tolerariam. Pode imaginar seu adolescente
dizendo: “Mamãe, vou deixar meu quarto bagunçado, assim toda a vizinhança
poderá ver que boa dona de casa é você”? Um patrão não deixaria o empregado
pretextar: “A razão da minha preguiça é dar a você uma oportunidade de mostrar
o seu perdão”. Ninguém respeitaria um mendigo que recusasse trabalho,
alegando: “Estou dando ao governo a oportunidade de demonstrar sua
benevolência”.
Zombaríamos de tal hipocrisia. Não a toleraríamos, e não a cometeríamos.
Ou sim? Vamos responder isto devagar. Talvez não pequemos para que
Deus possa conceder graça, mas... fazemo-lo sabendo que Ele concederá graça?
Transigimos esta noite, sabendo que amanhã confessaremos?
É fácil ser como o homem que, em visita a Las Vegas, ligou ao pastor,
querendo saber a hora do culto de domingo. O pastor ficou impressionado:
— A maioria das pessoas que vem a Las Vegas não se importa em ir à
igreja.
— Oh, não vim para ir à igreja. Estou aqui para ir aos jogos, às festas e às
mulheres. Se eu tiver metade da diversão que pretendo ter, precisarei ir à igreja
domingo de manhã.
É esta a intenção da graça? É a meta de Deus promover a desobediência?
Improvável. “Porque a graça... nos ensina a renunciar à impiedade e às paixões
mundanas e a viver de maneira sensata, justa e piedosa nesta era presente” (Tt
2.11,12). A graça de Deus libertou-nos do egoísmo. Por que retornar?
A Pena Foi Paga
Pense deste modo. O pecado aprisionou você. O pecado trancou você atrás
das grades da culpa, da vergonha, da decepção e do medo. O pecado não fez nada,
mas acorrentou você ao muro da miséria. Então Jesus veio e pagou sua fiança.
Cumpriu a sua pena; satisfez a penalidade e colocou-o em liberdade. Cristo
morreu, e quando você lançou sua sorte com Ele, seu velho eu também morreu.
O único modo de se ver livre da prisão do pecado é cumprindo a sua
penalidade. Neste caso, a pena é a morte. Alguém tem de morrer; você ou um
substituto celeste. Você não pode deixar a prisão a menos que haja uma morte.
Porém esta ocorreu no Calvário. E quando Jesus morreu, você morreu para a
reivindicação do pecado em sua vida. Você está livre.
Próximo a São José dos Campos, em São Paulo, Brasil, há algo simplesmente
notável. Há vinte anos, o governo brasileiro colocou um presídio sob a
direção de dois cristãos. A instituição recebeu o novo nome de Humaitá, e o plano
era fazê-la funcionar dentro dos princípios cristãos. Excetuando-se o trabalho das
duas equipes de tempo integral, todo o serviço era feito pelos reclusos. Famílias
de fora da prisão adotavam um recluso e trabalhavam com ele, durante e depois
de sua pena. Chuck Colson visitou a prisão, e escreveu esta reportagem:
Quando visitei Humaitá, encontrei os reclusos sorrindo —
particularmente o assassino que segurava as chaves, e que
abriu o portão e deixou-me entrar. Por onde andei, vi homens
em paz. Vi recintos limpos, e pessoas trabalhando
industriosamente. As paredes estavam decoradas com
versículos bíblicos, dos livros de Salmos e Provérbios... Meu
guia escoltou-me à cela outrora usada para torturas. Hoje,
contou-me ele, o cubículo abriga um único recluso. Quando
chegamos ao final do longo corredor
de concreto, ele pôs a chave na fechadura. Fez então
uma pausa, e perguntou-me:
— Tem certeza de que quer entrar?
— Claro! Repliquei impaciente. — Tenho visto celas de
isolamento em todo o mundo.
Vagarosamente, ele empurrou a pesada porta, e eu avistei o
prisioneiro daquela solitária: um crucifixo lindamente
esculpido pelos reclusos — o prisioneiro Jesus Cristo,
pendurado na cruz.
— Ele está fazendo a vez de todos nós — disse meu guia,
suavemente.
Cristo tomou o seu lugar. Você não precisa permanecer na cela. Já ouviu
um prisioneiro liberto dizer que quer continuar preso? Nem eu. Quando as portas
se abrem, os prisioneiros se vão. É inconcebível o pensamento de alguém
preferindo a jaula à liberdade. Uma vez paga a penalidade, por que viver em
cativeiro? Você está solto da penitenciária do pecado. Por que, ó céus, você
haveria de querer pôr os pés nessa prisão outra vez?
Paulo recorda-nos: “O nosso velho homem foi com ele crucificado, para
que o corpo do pecado seja desfeito, a fim de que não sirvamos mais ao pecado,
porque aquele que está morto, está justificado do pecado” (Rm 6.6, 7).
Ele não está dizendo que é impossível ao crente pecar; mas que é estupidez
fazê-lo. “Não é a impossibilidade literal... mas a incongruência moral”, de um
salvo retornar ao pecado.
O que tem a prisão para que você a deseje? Está sentindo falta da culpa?
Está com saudades da desonestidade? Tem lembranças ternas da vida mentirosa?
A vida era melhor quando você era rejeitado e escorraçado? Você tem vontade de
ver outra vez um pecador no espelho?
Não faz sentido voltar à prisão.
O Voto Foi Feito
Não apenas um preço tem sido pago, como um voto tem sido feito. “Ou não
sabeis que todos quantos fomos batizados em Jesus Cristo fomos batizados na sua
morte?” (Rm 6.3).
O batismo não era um costume casual, ou um ritual. O batismo era, e é, “o
compromisso de uma boa consciência diante de Deus” (1 Pe 3-21 NVI).
A elevada consideração de Paulo pelo batismo é demonstrada no fato de
que ele sabia que seus leitores tinham sido inteirados da importância do mesmo.
“Ou vocês não sabem que todos nós, que fomos batizados em Cristo Jesus, fomos
batizados em sua morte?” (Rm 6.3 NVI, itálico meu).
Que espécie de amnésia é esta? Como uma noiva horrorizada ao ver seu
marido flertando com outras mulheres na festa do casamento, Paulo pergunta:
“Esqueceram-se de seus votos?”
De fato, o batismo é um voto; um voto sagrado que o crente faz de seguir a
Cristo. Assim como o casamento celebra a fusão de dois corações, o batismo
celebra a união do pecador com o Salvador. Tornamo-nos parte de Cristo ao
sermos batizados.
A noiva e o noivo compreendem todas as implicações do casamento? Não.
Conhecem cada desafio ou ameaça que enfrentarão? Não. Entretanto, eles sabem
que se amam, e juram ser fiéis até o fim.
Quando um coração disposto entra nas águas do batismo, conhece as
implicações do voto? Não. Conhece cada tentação ou desafio? Não. Conhece
porém o amor de Deus, e o está correspondendo.
Por favor, entenda, não é o ato que nos salva. Mas ele simboliza como
fomos salvos! A ação invisível do Espírito Santo é visivelmente dramatizada na
água.
A imersão nas águas correntes foi como uma morte; a pausa
momentânea, antes que eles viessem para cima, como um
sepultamento; e o pôr-se ereto novamente no ar e à luz solar,
como uma ressurreição.
Tire os sapatos, curve a cabeça, dobre os joelhos; este é um evento sagrado.
Batismo não é para ser tratado levianamente.
Retornar ao pecado após selar nossas almas no batismo, é como cometer...
bem, é como cometer adultério em plena lua-de-mel. Pode imaginar a perturbada
esposa descobrindo seu marido nos braços de outra mulher, poucos dias depois de
tê-lo ouvido jurar no altar? Em meio a suas veementes palavras, viria a indagação:
“Esqueceu-se do que me disse?”
Semelhantemente, Deus pergunta: “Nossa união não significa nada para
você? Nosso pacto é tão frágil, que você preferiu os braços de uma meretriz aos
meus?”
Quem, em sã consciência, abandonaria esses votos? Quem se afligiria por
você mais que o próprio Cristo? Temos nos esquecido de como era a vida antes
do batismo? Temos nos esquecido da desordem em que vivíamos antes de nos
unirmos a Ele? Escolhi a palavra desordem intencionalmente. Posso partilhar uma
desordem da qual me alegro por estar fora? Meu apartamento de solteiro.
Exposto a um Critério Superior
Dentre todos os nomes de que tenho sido chamado, nenhum nunca me
acusou de ser um maníaco por limpeza. Na verdade já fui bem porcalhão. Não
que minha mãe não tivesse tentado. E não que ela não tivesse obtido sucesso.
Enquanto eu estava sob o seu teto, eu empilhava meu prato e apanhava minhas
roupas. Mas uma vez que fiquei livre, fiquei livre de fato.
Na maior parte de minha vida eu fora um relaxado. Eu era lento em ver a
lógica do asseio. Por que arrumar a cama, se você vai dormir nela esta noite, outra
vez? Faz sentido lavar louça após uma única refeição? Não seria mais fácil deixar
suas roupas no chão, aos pés da cama, assim elas estariam lá quando você se
levantasse e as fosse vestir? Qual a vantagem de se colocar a tampa no tubo de
pasta de dente à noite, só para ter de removê-lo pela manhã?
Eu era tão coercivo quanto qualquer um, só que eu era coercivo quanto a
ser desordenado. A vida era tão curta para se ficar unindo pares de meias!
Então casei-me.
Denalyn era tão paciente. Ela disse que não se importaria com meus
hábitos... se eu não me importasse de dormir do lado de fora. Desde então,
comecei a mudar.
Inscrevi-me num programa de doze passos para o porcalhão. (“Meu nome é
Max, odeio passar aspirador de pó.”) Um terapeuta físico ajudou-me a redescobrir
os músculos usados para pendurar camisas e colocar papel higiênico no rolete.
Meu nariz foi reapresentado à fragrância de Pinho Sol. Quando os pais de
Denalyn vieram visitar-nos, eu era um novo homem. Pude passar três dias sem
jogar as meia atrás do sofá.
Mas então veio a hora da verdade. Denalyn foi passar uma semana fora.
Inicialmente voltei ao velho homem. Calculei que pudesse ser um porcalhão por
seis dias, e um homem limpo no sétimo. Mas algo estranho aconteceu; um curioso
desconforto. Não pude relaxar com a louça suja sobre a pia. Quando vi no chão
um saco de batata frita vazio, eu — tire o chapéu para mim — abaixei-me e o
apanhei! E eu realmente pendurava minha toalha de banho de volta no cabide. O
que me tinha acontecido?
Simples. Eu havia sido exposto a um critério superior.
Não foi isso o que aconteceu conosco? Não é essa a essência do argumento
de Paulo? Como poderíamos nós, que fomos libertos do pecado, tornar para ele?
Antes de Cristo, nossa vida andava fora de controle, emporcalhada e indulgente.
Nem mesmo sabíamos que éramos relaxados, até encontrarmo-nos com Ele.
Então Ele agiu. A coisas começaram a mudar. O que atirávamos por toda
parte, começamos a organizar. O que descurávamos, começamos a cuidar. O que
antes fora desordem começou a entrar em ordem. Oh, houve, e ainda há, lapsos
ocasionais de pensamentos e atos, mas em geral, Ele colocou nossa casa em
ordem.
De repente, achamo-nos a nós mesmos desejando fazer o bem. Voltar a
velha desordem? Tá brincando?! “Mas, graças a Deus, porque, embora vocês
tenham sido escravos do pecado, passaram a obedecer de coração à forma de
ensinos que lhes foi transmitida. Vocês foram libertados do pecado e tornaram-se
escravos da justiça” (Rm 6.17,18 NVI).
Pode um prisioneiro liberto retornar ao confinamento? Sim. Porém deixe-o
recordar as paredes cinzas e as noites longas. Pode um recém-casado esquecer
seus votos? Sim. Mas deixe-o lembrar seu juramento sagrado e sua noiva
encantadora. Pode um relaxado transformado tornar a ser desordeiro? Sim. Porém
deixe-o considerar a diferença entre a imundície de ontem e a pureza de hoje.
Pode alguém que recebeu um dom, de graça, não partilhá-lo com outros?
Possivelmente. Porém deixe-o recordar Myrtle. Deixe-o lembrar que ele, como
ela, recebeu uma dádiva. Deixe-o lembrar que tudo na vida é um presente da
graça. E deixe-o lembrar que a chamada da graça é para viver uma vida graciosa.
É como a graça funciona.
12. Voltando-se a si Mesmo
Lucas 22.54-62
Miserável homem que eu sou! Romanos 7.24
Charles Robertson deveria ter-se voltado a si mesmo. Não que isso o
tivesse absolvido; ele roubara um banco. Mas pelo menos não teria sido o
bobalhão de Virgínia Beach.
Sem dinheiro, Robertson, de dezenove anos, foi ao Banco Jefferson State,
numa quarta-feira à tarde, preencheu um pedido de empréstimo, e saiu.
Aparentemente, mudou de idéia sobre o empréstimo e optou por um plano mais
rápido. Retornou dentro de duas horas, com uma pistola, um saco, e um bilhete
exigindo dinheiro. O contador obedeceu e, num instante, Robertson estava
segurando o produto do assalto.
Imaginando que a polícia já estivesse velozmente a caminho, ele
precipitou-se pela porta da frente. Já estava a meio caminho para o carro, quando
compreendeu que deixara o bilhete.. Temendo que este pudesse ser usado como
uma evidência contra ele, Robertson correu de volta ao banco, e tomou-o das
mãos do contador. Então, segurando o bilhete e o dinheiro, correu um quarteirão
até o carro estacionado. Foi quando percebeu que, ao retornar para pegar o
bilhete, deixara as chaves no guichê.
“A esta altura”, contou rindo um detetive, “instalara-se o pânico”.
Robertson meteu-se apressado num restaurante tipo fast food. Removeu
uma placa do teto, e escondeu ali o dinheiro e a arma calibre 25. Fugindo
rapidamente pelas ruelas, e esgueirando-se por trás dos carros, finalmente chegou
ao seu apartamento, onde seu colega, que nada sabia do roubo, recebeu-o com
estas palavras: — Preciso do meu carro.
Veja você, o veículo de fuga de Robertson era emprestado. Em vez de
confessar o crime e admitir o erro, ele enfiou a pá mais uma vez na lama,
aprofundando o buraco.
— Ih, seu carro foi roubado — mentiu ele.
Enquanto Robertson olhava em pânico, o colega chamou a polícia para
comunicar o roubo do veículo. Mais ou menos vinte minutos depois, um oficial
descobriu o carro “roubado” a uma quadra do banco recém-assaltado. Ele já fora
avisado pelo rádio que o ladrão esquecera as chaves. O oficial somou dois mais
dois e experimentou as chaves no carro. Elas funcionaram.
Os detetives foram ao endereço da pessoa que anunciara o roubo do carro.
Lá, encontraram Robertson. Ele confessou, foi acusado formalmente de roubo, e
posto na cadeia. Sem fiança. Sem empréstimo.
Tem dias que é difícil fazer direito alguma coisa. Até mesmo uma coisa
errada é difícil fazer certo. Robertson não é o único. Temos feito o mesmo.
Talvez não tenhamos pegado dinheiro, mas quem sabe tenhamos levado
vantagem, ou tomado poder, ou perdido o senso e, como o ladrão, tratado de nos
safar. Percorrendo as vielas da fraude. Escondendo-se atrás de edifícios de
trabalho a ser feito, ou deixando passar o prazo. Embora tentemos agir
normalmente, qualquer um que nos olhe de perto pode ver que estamos em fuga:
olhos dardejantes e mãos inquietas, paroleamos nervosamente. Comprometidos
com o encobrimento da verdade, maquinamos e torcemos, mudando o assunto e a
direção. Não queremos que ninguém saiba da verdade, especialmente Deus.
Porém desde o princípio, Deus tem apelado para a honestidade. Ele nunca
reclamou perfeição, mas tem esperado veracidade. Já nos longínquos dias de
Moisés, Deus afirmou:
“Mas se confessarem a sua iniqüidade, e a iniqüidade de seus
pais, na infidelidade que cometeram contra mim; como
também que andaram contrariamente para comigo, pelo que
também fui contrário a eles, e os fiz entrar na terra dos seus
inimigos; se o seu coração incircunciso se humilhar, e
tomarem eles por bem o castigo da sua iniqüidade, então me
lembrarei da minha aliança com Jacó, e também da minha
aliança com Isaque, e também da minha aliança com Abraão,
e da terra me lembrarei” (Lv 26. 40-42 RA).
Coração Honesto, Adoração Honesta
Neemias conhecia o valor da honestidade. Ao ouvir dos muros caídos de
Jerusalém, culpou Deus? Responsabilizou o céu? Improvável. Leia sua oração:
“Estejam, pois, atentos os teus ouvidos, e os teus olhos, abertos, para ouvires a
oração do teu servo, que eu hoje faço perante ti, de dia e de noite, pelos filhos de
Israel, que pecamos contra ti; também eu e a casa de meu pai pecamos. De todo
nos corrompemos contra ti e não guardamos os mandamentos, nem os estatutos,
nem os juízos que ordenaste a Moisés teu servo” (Ne 1.6,7).
Aqui está o segundo homem mais poderoso do reino, olhando para dentro
de si mesmo, assumindo a responsabilidade pela decadência de seu povo.
Todavia, a cena de sua confissão pessoal nada é, comparada ao dia do
arrependimento nacional. “E a geração de Israel se apartou de todos os estranhos,
e puseram-se em pé e fizeram confissão dos seus pecados e das iniqüidades de
seus pais. E, levantando-se no seu posto, leram no livro da Lei do Senhor, seu
Deus, uma quarta parte do dia; e na outra quarta parte, fizeram confissão; e
adoraram o Senhor, seu Deus” (Ne 9. 2,3).
Você pode imaginar o evento? Centenas de pessoas passando horas em
oração, não fazendo petições, mas confissões. “Sou culpado, Deus”. “Tenho
falhado contigo, Pai”.
Tal honestidade pública é comum na Escritura. Deus instruiu o sumo
sacerdote: “E Arão porá ambas as mãos sobre a cabeça do bode vivo e sobre ele
confessará todas as iniqüidades dos filhos de Israel e todas as suas transgressões,
segundo todos os seus pecados; e os porás sobre a cabeça do bode... Assim aquele
bode levará sobre si todas as iniqüidades deles à terra solitária. E o homem
enviará o bode ao deserto” (Lv 16.21,22).
Por força desse drama, o povo aprendeu que Deus despreza o pecado e trata
dele. Para que a adoração fosse honesta, os corações tinham de ser honestos.
A Motivação da Verdade
A confissão é para a alma o que o preparo da terra é para o campo. Antes
de semear, o fazendeiro trabalha a terra, removendo pedras e arrancando tocos.
Ele sabe que a semente cresce melhor quando o solo é preparado. A confissão é
um convite para Deus passear pelos acres de nosso coração. “Há uma pedra de
ganância aqui, Pai; eu não consigo removê-la. E aquele tronco de culpa perto da
cerca? Suas raízes são longas e profundas. E, posso mostrar-lhe o solo seco,
encrostado demais para o plantio?” A semente de Deus cresce melhor se o solo do
coração é roçado.
E então, o Pai e o Filho andam juntos pelo campo; cavando e arrancando,
preparando o coração para frutificar. A confissão convida o Pai a trabalhar o solo
da alma.
A confissão busca o perdão de Deus, não a anistia. Perdão presume culpa;
anistia, derivada da mesma palavra grega para amnésia, “esquece” a suposta
ofensa sem imputar culpa. A confissão admite erro e busca remissão; a anistia
nega o erro e reivindica inocência.
Muitos proferem um pedido de perdão, quando na realidade estão
pretendendo uma anistia. Conseqüentemente, nossa adoração é fria (Por que
agradecer a Deus por uma graça de que não necessitamos?), e nossa fé é fraca
(Lidarei com os meus erros sozinho, obrigado.) Somos melhores em manter Deus
de fora do que em convidá-lo a entrar. No domingo de manhã, ocupamo-nos em
preparar o corpo para adorar, preparar o cabelo para adorar, preparar as roupas
para adorar... mas e o preparo da alma?
Estou enganado, quando digo que muitos de nós vamos à igreja às
carreiras? Estou por fora, quando digo que muitos de nós passamos a vida na
correria?
Estou exagerando o caso quando anuncio: “Graça significa que você não
tem mais de correr!”? É a verdade. Graça significa estar finalmente seguros para
voltar-nos à nós mesmos.
Um Modelo de Verdade
Pedro o fez. Lembra-se de Pedro? “Rutilou a espada e negou o Senhor”.
Pedro? O apóstolo que jactou-se num minuto e fugiu no outro? Ele tirou uma
soneca quando deveria ter orado. Negou, quando deveria defender. Praguejou,
quando deveria confortar. Correu, quando deveria ficar. Recordamos Pedro como
alguém que virou e fugiu. Recordamo-lo porém como aquele que virou e
confessou? Deveríamos.
Tenho uma pergunta a você.
Como os escritores do Novo Testamento sabiam do pecado de Pedro?
Quem lhes contou de sua traição? E, mais importante, quem os fez saber dos
detalhes? Quem lhes contou da criada junto ao portão, e dos soldados partilhando
o fogo? Como Mateus soube que foi o sotaque de Pedro que fez dele um suspeito?
Como Lucas ficou sabendo do olhar fixo de Jesus? Quem contou sobre o galo
cantando e as lágrimas fluindo?
O Espírito Santo? Suponhamos que sim. Pode ser que cada escritor tenha
sido instruído acerca daquele momento por inspiração divina. Ou, mais
provavelmente, todos souberam da traição por uma confissão honesta. Pedro
voltou-se a si mesmo. Como o assaltante do banco, ele fizera o malfeito e correra.
Diferente do assaltante, ele parou e pensou. Nalgum lugar da sombreada
Jerusalém, Pedro parou de correr, caiu de joelhos, enterrou a face nas mãos, e
desistiu.
Porém não apenas desistiu, como tornou-se acessível. Ele voltou à sala
onde Jesus partira o pão e partilhara o vinho. (Muito já se falou dos discípulos,
por deixarem Pedro voltar para dentro).
Lá está ele, em toda a sua robustez, enchendo o vão da porta.
— Companheiros, tenho algo explodindo em meu peito.
E foi quando eles ficaram sabendo da fogueira, da criada e do olhar de
Jesus. Foi quando eles ouviram do praguejamento e do galo cantando. Foi assim
que ouviram a história. Pedro voltou-se a si mesmo. Fez uma introspecção.
Como posso ter tanta certeza? Duas razões:
1. Ele não podia permanecer de fora. Quando chegou a notícia de que o
túmulo estava vazio, quem foi o primeiro a sair correndo? Pedro. Quando veio a
notícia de que Jesus estava na praia, quem foi o primeiro a saltar do barco? Pedro.
Ele estava na correria outra vez. Só que agora estava correndo na direção certa.
Aqui está uma boa regra prática: Aqueles que de Deus guardam segredos,
guardam também distância. Aqueles que com Deus são honestos vão para perto
dele.
Não há nada de novo nisto. Acontece entre pessoas. Se você me empresta
seu carro, e eu o danifico, ficarei desejoso de ver você outra vez? Não. Não é por
coincidência que o comportamento resultante do primeiro pecado foi meter-se sob
os arbustos. Adão e Eva comeram o fruto, ouviram Deus no jardim, e
esgueiraram-se para trás da folhagem.
— Onde estão vocês — perguntou Deus, não porque precisasse. Ele sabia
exatamente onde eles estavam. A questão era espiritual, não geográfica. —
Examinem onde vocês estão, filhos. Vocês não estão onde estavam. Vocês
estavam ao meu lado; agora estão escondidos de mim.
O segredo ergue uma cerca; a confissão constrói uma ponte.
Havia dois fazendeiros, que não podiam ficar juntos. Uma larga ravina
separava as duas fazendas, mas como um sinal de sua mútua aversão, cada um
construiu uma cerca no seu lado do precipício, para manter o outro fora.
Não obstante, a filha de um conheceu o filho do outro, e ambos se
apaixonaram. Determinados a pôr um fim na separação insensata de seus pais,
eles derrubaram a cerca, e usaram a madeira para construir uma ponte sobre a
ravina.
A confissão faz isto. Pecados confessados tornam-se uma ponte sobre a
qual podemos caminhar de volta à presença de Deus.
E eis a segunda razão de eu estar seguro quanto à confissão de Pedro:
2. Ele não podia permanecer em silêncio. Apenas cinqüenta dias após
negar a Cristo, Pedro está pregando Cristo. Pedro blasfemara de seu Senhor na
páscoa. Contudo, proclamou o seu Senhor na festa. Esta não é a ação de um
fugitivo. O que o levou de traidor a orador? Ele deixou Deus tratar dos segredos
da sua vida. “Confessai as vossas culpas uns aos outros e orai uns pelos outros,
para que sareis” (Tg 5.16).
“Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para
nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça” (1 Jo
1.9).
O fugitivo vive em temor, porém o penitente vive em paz.
A Hora da Verdade
Repito, Jesus nunca exigiu que fôssemos perfeitos; apenas honestos. “Eis
que amas a verdade no íntimo” escreveu Davi (Sl 51.6). Para a maioria, porém,
honestidade é uma virtude obstinada. “Eu, um ladrão?” Perguntamos com um
revolver numa mão, e o saco da pilhagem na outra.
Não foi fácil para Pedro. Ele considerava-se a si mesmo o MVA (mais
valioso apóstolo). Ele não fora um dos primeiros destacados? Não era um dos três
escolhidos? Não confessara a Cristo enquanto os outros silenciaram? Pedro
jamais pensou precisar de ajuda, até levantar os olhos do fogo e encontrar o olhar
de Jesus. “Falava ele ainda, quando o galo cantou. O Senhor voltou-se e olhou
diretamente para Pedro” (Lc 22.60,61 NVI).
Jesus e Pedro não são os únicos na noite, mas bem poderiam ser. Jesus está
rodeado de acusadores, porém não responde. Está cercado de inimigos, porém não
reage. O ar da noite está cheio de insultos, porém Ele não os escuta. Mas deixa
um seguidor escorregar, quando deveria estar de pé, e a cabeça do Mestre aponta
de repente, e seus olhos perscrutam as sombras, e o discípulo sabe.
“O Senhor olha desde os céus e está vendo a todos os filhos dos homens; da
sua morada contempla todos os moradores da terra. Ele é que forma o coração de
todos eles, que contempla todas as suas obras” (Sl 33.13-15).
Você sabe quando Deus sabe. Você sabe quando Ele está olhando. Seu
coração lhe diz. Sua Bíblia lhe fala. Seu espelho lhe conta. Quanto mais você
corre, mais complicada fica a vida. Porém tão logo você confessa, mais leve se
torna o seu fardo. Davi sabia disso. Ele escreveu:
Enquanto calei os meus pecados,
envelheceram os meus ossos pelos meus constantes
gemidos todo o dia.
Porque a tua mão pesava dia e noite sobre mim; e o meu
vigor se tornou em sequidão de estio.
Confessei-te o meu pecado e a minha iniqüidade não mais
ocultei;
Disse: confessarei ao Senhor as minhas transgressões; e tu
perdoaste a iniqüidade do meu pecado. (Sl 32.3-5).
Estes versículos trazem-me à memória um erro que cometi quando era
aluno do segundo grau. (Minha mãe me disse para não usar minhas fraquezas
juvenis como ilustrações. Mas eu tenho tantas!). Nosso treinador de beisebol tinha
uma firme regra contra mascar fumo. Contudo, havia dois jogadores conhecidos
por mascar às escondidas, e acabaram por atrair-nos a atenção. Em breve, todos
experimentaríamos. Um teste seguro de masculinidade era apanhar um pedaço de
fumo quando a tabaqueira era passada por baixo dos bancos. Eu me juntara a eles;
certamente não falharia no teste de masculinidade.
Um dia, eu mal pusera um naco de fumo na boca, quando um dos jogadores
avisou:
— O treinador está chegando!
Não querendo ser apanhado, fiz o que naturalmente me ocorreu: engoli.
Glub.
Acrescentei um novo significado às Escrituras: “Senti a fraqueza profunda
dentro de mim. Gemi o dia inteiro... Minhas forças se foram como o calor do
verão”. Paguei o preço por ocultar minha desobediência.
Meu corpo não foi feito para ingerir tabaco. Sua alma não foi feita para
ingerir pecado.
Posso fazer uma pergunta franca? Você está mantendo algum segredo de
Deus? Alguma área restrita em sua vida? Algum porão fechado com tábuas? Ou
um sótão trancado? Algum trecho do seu passado ou presente que você espera
nunca discutir com Deus?
Aprenda uma lição com o assaltante: quanto mais você corre, pior fica.
Aprenda uma lição com Pedro: quanto antes você falar com Jesus, mais você
falará de Jesus. E tome uma nota com o enojado jogador de beisebol: Você se
sentirá melhor se puser tudo para fora.
Uma vez preso nas garras da graça, você está livre para ser honesto. Faça
uma introspecção antes que as coisas piorem. Você achará satisfação.
Será honesto com Deus.
13. A Graça é Suficiente
2 Coríntios 12.7-9
Para impedir que eu me exaltasse por causa da grandeza
dessas revelações, foi-me dado um espinho na carne, um
mensageiro de Satanás, para me atormentar. Três vezes
roguei ao Senhor que o tirasse de mim. Mas ele me disse:
“Minha graça é suficiente para você, pois meu poder se
aperfeiçoa na fraqueza. 2 Coríntios 12.7-9 NVI
Veja a cena: Você e eu, e mais uma meia dúzia, estamos voando através do
país, num avião fretado. De repente, o motor explode em chamas, e o piloto
arremete para fora da cabina.
— Vamos cair! — Grita ele. — Precisamos saltar de pára-quedas!
Ainda bem que ele sabe onde estão os pára-quedas, porque nós não
sabemos. Ele os passa para nós, dá-nos algumas instruções, e enfileiramo-nos
enquanto ele abre a porta. O primeiro passageiro aproxima-se da porta, e grita por
sobre o vento:
— Posso fazer um pedido?
— Claro, o que é?
— Gostaria de ter um pára-quedas cor-de-rosa. Incrédulo, o piloto agita a
cabeça:
— Não lhe basta eu ter-lhe dado um pára-quedas?
Então o primeiro passageiro salta.
O segundo aproxima-se da porta:
— Você pode me assegurar de que não enjoarei durante a queda?
— Não. Mas posso garantir que você terá um pára-quedas para o salto.
Cada um de nós aproxima-se com um pedido, e recebe um pára-quedas.
— Por favor, capitão — pede alguém. — Tenho medo de altura. Você pode
tirar-me o medo?
— Não — replica ele. — Mas lhe darei um pára-quedas. Outro pleiteia por
uma estratégia diferente:
— Poderia mudar os planos? Deixe-nos cair com o avião. Poderemos
sobreviver.
O piloto sorri e comenta:
— Você não sabe o que está pedindo. — E gentilmente empurra-o para
fora.
Um passageiro pede uns óculos de proteção. Outro quer botas, e um outro
quer esperar até que o avião chegue perto do solo.
— Vocês não entendem — grita o piloto, enquanto vai ajudando um por
um. — Estou lhes dando um pára-quedas. Isto é suficiente.
Apenas um item é necessário para o salto, e ele o provê. Ele põe a
ferramenta estratégica em nossas mãos. O presente é adequado. Contudo, estamos
contentes? Não. Estamos impacientes, ansiosos, sempre exigindo.
É possível tanta loucura? Talvez num avião, com pilotos e pára-quedas...
Mas na terra, com pessoas e graça? Deus ouve milhares de apelos por segundo.
Alguns legítimos. Nós, também, pedimos a Deus para remover o medo ou mudar
os planos. Ele geralmente responde com um gentil empurrão, que nos permite ser
transportados pelo ar, suspensos por sua graça.
O Problema: Quando Deus Diz Não
Há ocasiões em que a única coisa que você quer é a única coisa que você
não pode ter. Você não está sendo exigente ou difícil de contentar; você está
apenas obedecendo a ordem “peça a Deus tudo o que você precisar” (Fp 4.6).
Tudo o que você quer é uma porta aberta, ou um dia extra, ou uma oração
respondida, pela qual você será agradecido.
E assim você ora e espera. Nenhum resposta. Você ora e espera. Nenhuma
resposta. Você ora e espera.
Posso perguntar algo muito importante? E se Deus disser não?
E se o pedido atrasar, ou for negado? Quando Deus lhe diz não, como você
reage? E se Deus disser: “Tenho lhe dado a minha graça, e isto é suficiente”?
Você ficará contente?
Contente. Esta é a palavra. Um estado de coração no qual você estará em
paz, se Deus não lhe der nada mais do que já tem dado. Teste a si mesmo com
esta pergunta: Se o único presente de Deus para você fosse a sua graça salvadora,
você estaria contente? Você roga-lhe que salve a vida de seu filho. Você pleiteia
com Ele para manter seu negócio de pé. Você lhe implora para remover o câncer
do seu corpo. E se a resposta dEle for: “Minha graça lhe basta”? Você ficará
satisfeito?
Veja bem, da perspectiva celeste, a graça é suficiente. Se Deus não fizesse
nada mais que salvar-nos do inferno, poderia alguém reclamar? Se Deus salvassenos
a alma, e então deixasse-nos a viver leprosos numa ilha deserta, estaria sendo
injusto? Uma vez que nos foi dada a vida eterna, atrevemo-nos a murmurar num
corpo dolorido? Uma vez que nos foram dadas riquezas celestiais, ousamos
lamentar a pobreza terrena?
Apresso-me a acrescentar: Deus não deixou você com “apenas a salvação”.
Se você tem olhos para ler estas palavras, mãos para segurar este livro, e meios
para adquiri-lo, Ele já lhe tem dado graça sobre graça. A maioria de nós tem sido
salva, e então abençoada mais e mais!
Entretanto há aquelas vezes quando Deus, havendo nos dado a sua graça,
ouve nossos apelos e diz: “Minha graça é suficiente para você”. Ele está sendo
incorreto?
Em “God Came Near” conto como nossa filha mais velha caiu dentro da
piscina, quando tinha dois anos. Um amigo viu, e salvou-a. O que não contei foi o
que aconteceu na manhã seguinte, em meu momento de oração. Esforcei-me de
um modo especial para registrar minha gratidão em meu diário. Disse para Deus o
quão maravilhoso fora Ele, salvando-a. Tão claro como se o próprio Deus
estivesse falando, veio-me à mente a indagação: Eu teria sido menos maravilhoso
se a tivesse deixado se afogar? Eu teria sido um Deus menos bondoso, se a tivesse
chamado para o lar? Eu estaria recebendo seu louvor nesta manhã, se não a
tivesse salvo?
Deus ainda é um Deus bom, quando diz não?
O Rogo: Remova o Espinho
Paulo lutou com aquilo. Ele conhecia a angústia de uma oração sem
resposta. No topo de sua lista de oração estava um pedido não identificado que lhe
dominava os pensamentos. Ele deu ao apelo um codinome: “um espinho em
minha carne” (2 Co 12.7). Talvez o sofrimento fosse íntimo demais para se pôr no
papel. Quem sabe o pedido fora feito tantas vezes, que ele reverteu para a
taquigrafia. “Estou aqui para falar de meu espinho outra vez, Pai”. Ou pode ser
que, por meio de um apelo genérico, a oração de Paulo pudesse ser a nossa
oração? Pois não temos todos nós um espinho na carne?
Em algum trecho da estrada da vida, nossa carne é furada por uma pessoa
ou um problema. Nossas largas passadas tornam-se um coxear; esmorece-nos o
passo. Tentamos andar novamente apenas para estremecer a cada esforço.
Finalmente, suplicamos a Deus por auxílio.
Tal foi o caso de Paulo. (De qualquer modo, não lhe é encorajador saber
que mesmo Paulo tinha um espinho na carne? Há conforto em saber que um dos
escritores da Bíblia nem sempre estava na mesma página com Deus).
Você não arranja um espinho, se não estiver caminhando, e Paulo nunca
parava. Tessalônica, Jerusalém, Atenas, Corinto — se ele não estivesse pregando,
estava na prisão por causa de suas pregações. Sua caminhada, porém, era
estorvada por esse espinho. A farpa penetrou através da sola de sua sandália,
atingiu-lhe o centro do coração, e logo tornou-se tema de intensa oração. “Acerca
do qual três vezes orei ao Senhor, para que se desviasse de mim” (2 Co 12.8).
Este não era um pedido casual; não era um P.S. numa carta. Era o primeiro
argumento da primeira sentença. “Querido Deus, preciso de ajuda!”
Não era um estrepe superficial; era um aguilhão pungente. Cada passo que
dava era uma pontada na perna. Em três ocasiões diferentes, ele manquejou para o
lado da trilha e orou. Sua petição foi clara, e igualmente clara foi a resposta de
Deus: “Minha graça é suficiente” (v.9 NVI).
O que era esse espinho na carne? Ninguém sabe ao certo, mas eis aqui os
principais candidatos.
1. Tentação Sexual. Paulo combatendo a carne? Talvez. Afinal, Paulo era
um homem solteiro. Ele descreve a sedução como alguém que a conhecesse na
fonte. “Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum;
e, com efeito, o querer está em mim, mas não consigo realizar o bem. Porque não
faço o bem que quero, mas o mal que não quero, esse faço” (Rm 7.18,19). Estaria
Paulo pedindo a Deus para, de uma vez por todas, livrá-lo da sede das águas
proibidas?
2. Talvez o problema não fosse a carne, mas os inimigos; não tentação,
mas oposição. A passagem sugere esta possibilidade. “Foi me dado um espinho
na carne, a saber, um mensageiro de Satanás, para me esbofetear” (2 Co 12.7).
Paulo tinha sua quota de oponentes. Eram aqueles que questionavam seu
apostolado (2 Co 12.12). Alguns que lhe minavam a mensagem da graça (Gl 1.7).
Pelo jeito, quando Paulo escreveu que “esse mensageiro de Satanás” fora enviado
para “esbofetear-me”, não estava exagerando. Remova-lhe a túnica e veja-lhe as
cicatrizes. Ou, já que você não pode fazê-lo, leia sobre os ataques que sofreu.
Trabalhei muito mais, fui encarcerado mais vezes, fui açoitado
mais severamente e exposto à morte repetidas vezes. Cinco
vezes recebi dos judeus quarenta açoites menos um. Três
vezes fui golpeado com vara, uma vez apedrejado, três vezes
sofri naufrágio, passei uma noite e um dia exposto à fúria do
mar. Estive continuamente viajando de uma parte a outra,
enfrentei perigos nos rios, perigos de assaltantes, perigos dos
gentios, perigos na cidade, perigos no deserto, perigos no
mar, e perigos dos falsos irmãos. (2 Co 11.23-26 NVI).
Poderia alguém culpar a Paulo por pedir um alívio? Pode um ser humano
suportar tanto? “Deus, e se nós limitássemos este ano só aos ataques verbais, e
deixássemos minhas feridas sararem? Ou, poderíamos fazer uma escala, para que
as surras e apedrejamentos não viessem ao mesmo tempo? Arranjei uma contusão
no pescoço, que me faz encolher de dor cada vez que me viro. E, lembra-se
daquela noite no cárcere de Filipos? Minhas costas ainda não se recuperaram.”
3. Claro, havia aqueles que achavam que Paulo merecia cada chicotada, o
que nos leva a uma terceira opinião. Alguns pensam que o espinho era a sua
natureza esquentada. Por mais que ele tenha aprendido aos pés de Gamaliel, pode
ser que tenha cochilado no dia em que discutiram sobre tato e diplomacia. Antes
de conhecer a graça, ele matara cristãos. Depois de conhecer a graça, ele
“torrava” os cristãos. Exemplo? “E, chegando Pedro a Antioquia, lhe resisti na
cara, porque era repreensível” (Gl 2.11). Escreveu como um verdadeiro
diplomata. Do ponto de vista de Paulo, ou se estava do lado de Deus, ou do lado
de Satanás. E, caso se escorregasse do primeiro para o segundo, ele não fazia
segredos: “Himeneu e Alexandre, os quais entreguei a Satanás, para que
aprendam a não blasfemar” (1 Tm 1.20).
Todos ao alcance de sua língua e de sua pena sabiam como ele se sentia, e
sabiam quando tirar o corpo fora.
4. Por outro lado, pode-se conjeturar que o espinho não fosse tentação,
oposição, ou relações públicas. O espinho pode ter sido o seu corpo. Lembra-se
de suas palavras no final de uma de suas cartas? “Vede com que grandes letras
vos escrevi por minha mão” (Gl 6.11). Talvez seus olhos fossem doentes. Pode
ser que ele nunca tenha se recuperado daquela viagem a Damasco. Deus chamoulhe
a atenção com uma luz tão intensa, que o deixou cego por três dias. Talvez ele
nunca tenha sarado totalmente. Pode ser que a sua clara visão da cruz tenha-lhe
vindo a custo de não mais ver com clareza as outras coisas. Ele escreveu aos
gálatas: “Se possível fora, arrancaríeis os olhos e mos daríeis”(Gl 4.15).
Na profissão de Paulo,deficiência visual poderia ser fator de risco. É difícil
viajar, se você não pode ver a trilha. Não é fácil escrever epístolas, se você não
pode ver a página. Visão enfraquecida leva a forçar os olhos, o que leva à dor de
cabeça, que por sua vez leva a longas noites e longas orações por alívio. “Deus,
alguma chance de eu poder ver?”
É difícil impressionar a multidão, se você está fazendo contato visual com
uma árvore, achando que é uma pessoa. Isto traz-nos à mente uma derradeira
possibilidade.
5. Temos por certo que Paulo fosse um orador dinâmico, porém aqueles
que o ouviam poderiam discordar. “...e a sua palavra é desprezível”, escreveu ele,
referindo-se ao que diziam dele em Corinto (2 Co 10.10). O apóstolo não discutiu
com eles. “E eu estive convosco em fraqueza, e em temor, e em grande tremor. A
minha palavra e a minha pregação não consistiram em palavras persuasivas de
sabedoria humana, mas em demonstração do Espírito e em poder” (1 Co 2. 3,4).
Interpretação? Eu estava tão assustado, que gaguejei, tão nervoso, que esqueci
meu objetivo. E o fato de vocês terem ouvido, de algum modo, alguma coisa, é
testemunho para Deus.
Vamos ceder por um instante e rotular isto. (Não sei como você visualiza
Paulo, mas a imagem pode ser mudada.) Tentado muitas vezes. Surrado
regularmente. Opinioso. Visão embaçada. Língua afiada. Este é o apóstolo Paulo?
(Pode ser que ele nunca tenha se casado porque não conseguia arranjar
namorada.) Não admira haverem questionado se ele era um apóstolo.
E não admira que ele orasse.
O Princípio: Graça é Suficiente
Algumas dessas petições eram impróprias? Ele não teria sido um apóstolo
melhor sem tentações, sem inimigos, com uma conduta serena, olhos saudáveis, e
uma língua lisonjeira?
Talvez sim, ou... talvez não.
Houvesse Deus removido a tentação, Paulo talvez nunca tivesse admitido a
sua graça. Apenas a fome aprecia o banquete; Paulo estava faminto. Na porta de
seu escritório lia-se o título que ele se auto conferira: “Paulo, o principal dos
pecadores”. Pena alguma jamais articulou graça como o fez a de Paulo. Isso
porque, talvez, ninguém tenha apreciado a graça como ele.
Houvesse Deus aliviado o chicote, talvez Paulo nunca tivesse conhecido o
amor. “ainda que eu dê aos pobres tudo o que possuo e entregue o meu corpo para
ser queimado, mas não tiver amor, nada disso me valerá” (1 Co 13.3 NVI). A
perseguição refina os motivos. Afinal, os motivos de Paulo foram refinados para
uma causa. “O amor de Cristo nos constrange” (2 Co 5.14).
Se Deus o tivesse feito manso e meigo, quem haveria de enfrentar os
legalistas, confrontar os hedonistas, e desafiar os judicialistas? A razão da carta
aos Gálatas, que se encontra em sua Bíblia, é que Paulo não conseguia engolir
uma graça diluída. Atribua as cartas aos Coríntios à intolerância de Paulo para
com a fé piegas. A honestidade de Paulo não poderia ter feito muitos amigos,
mas, certamente, fez muitos discípulos.
E os olhos de Paulo. Houvesse Deus lhe curado as vistas, haveria Paulo de
ter tanta visão? Enquanto o resto da terra estava olhando o mundo, Paulo estava
tendo visões grandiosas demais para as palavras (2 Co 12.3,4).
E falar publicamente? Não há nada tão inebriante quanto o aplauso da
multidão. Deus pode perfeitamente ter estado conservando sóbrio o seu apóstolo.
Qualquer que tenha sido a aflição, ela teve um propósito. E Paulo o sabia:
“Guarda-me de tornar-me presunçoso”. O Deus que despreza a soberba fez todo o
necessário para guardar Paulo de se tornar orgulhoso.
Neste caso, Ele simplesmente disse ao apóstolo: “Minha graça te basta”.
Em seu caso, ele pode estar lhe dizendo a mesma coisa.
Você pergunta por que Deus não remove da sua vida a tentação? Se Ele o
fizer, você poderá apoiar-se na própria força, em vez de na sua graça. Um pouco
de tropeço pode ser o que você precisa para convencer-se de que a graça de Deus
é suficiente para o seu pecado.
Você indaga por que Deus não remove de sua vida os inimigos? Talvez por
esperar que você ame como Ele ama. Qualquer um pode amar um amigo, mas
poucos podem amar um inimigo. E daí se você não é nenhum herói? A graça de
Deus é suficiente para a sua auto-imagem.
Você inquire por que Deus não modifica a sua personalidade? Você, como
Paulo, anda com algumas arestas? Diz coisas que mais tarde lastima, ou faz coisas
que mais tarde questiona? Por que Deus não o faz mais parecido com Ele mesmo?
Ele faz. Só que ainda não terminou. Até lá, a graça divina é suficiente para
superar-lhe as falhas.
Você pondera por que Deus não o cura? Ele tem curado você. Se você está
em Cristo, você tem uma alma perfeita e um corpo perfeito. O plano dEle é darlhe
a alma agora, e o corpo, quando você chegar ao lar. Ele pode escolher curar
partes de seu corpo antes de você ir ao céu, mas se Ele não o fizer, você terá
menos razão para agradecê-lo? Se Ele nunca lhe desse mais que a vida eterna,
poderia você pedir mais que isso? Sua graça basta para a gratidão.
Questiona por que Deus não lhe dá uma habilidade? Se Deus ao menos
tivesse feito de você um cantor, ou um corredor, ou um escritor, ou um
missionário... Porém, em vez disso, você é desafinado, lento de pés e de mente.
Não desespere. A graça de Deus ainda é suficiente para completar aquilo que Ele
começou. E até que Ele tenha terminado, deixe Paulo recordar-lhe que o poder
está na mensagem, não no mensageiro. A graça de Deus é suficiente para falar de
modo claro, mesmo quando você não o faz.
Embora não conheçamos tudo sobre espinhos, podemos estar certos disto:
Deus prefere que tenhamos uma coxeadura ocasional, que um perpétuo andar
emproado. E se precisamos deste espinho, Ele nos ama o suficiente para não
arrancá-lo fora.
Deus tem todo o direito de dizer não para nós. E nós temos todos os
motivos para lhe dizer obrigado. O pára-quedas é forte, e a aterrissagem será
segura. Sua graça é suficiente.
14. A Guerra Civil da Alma
Romanos 7.7-26
E eu, nalgum tempo, vivia sem lei, mas, vindo o mandamento,
reviveu o pecado, e eu morri; e o mandamento que era para a
vida, achei eu que me era para a morte... Acho, então, esta lei
em mim: que, quando quero fazer o bem, o mal está comigo.
Porque, segundo o homem interior, tenho prazer na lei de
Deus. Mas vejo nos meus membros outra lei que batalha
contra a lei do meu entendimento e me prende debaixo da lei
do pecado que está nos meus membros. Miserável homem
que eu sou! Quem me livrará do corpo desta morte?
Romanos 7. 9,10, 21-24.
Os parágrafos seguintes documentam a degeneração do autor numa
atividade criminal. Os fatos são verídicos, e nenhum nome foi trocado. Eu
confesso. Eu tenho violado a lei. E, o que é pior, não quero parar!
Minhas ações criminosas começaram inocentemente. Meu itinerário para o
escritório, na direção sul, passa por uma interseção onde eu e todas as outras
pessoas, no Texas, viramos para o leste. A cada manhã, eu espero longos minutos
numa longa fila, num longo semáforo, sempre resmungando: “Deve haver um
caminho melhor”. Há poucos dias, eu o achei. A meia milha do semáforo,
descobri um atalho, uma ruela por trás de um shopping. Valeu a tentativa. Liguei
o pisca-pisca, virei rápido à esquerda, dei adeus a fila de carros e agarrei minha
chance. Costurei por entre os montes de lixo, acelerei e voilá. Feito! A viela
levou-me à avenida para o leste vários minutos à frente do restante da sociedade.
Lewis e Clark teriam ficado orgulhosos. Eu certamente fiquei. Desde então,
eu estava à frente de todos. A cada manhã, enquanto o restante dos carros
esperavam na fila, eu virava para a minha rodovia privada e, presunçosamente,
aplaudia a mim mesmo por ver o que os outros deixavam passar. Eu estava
surpreso de que ninguém a houvesse descoberto antes. Mais uma vez, poucos
tinham a minha inata habilidade náutica.
Certa manhã, Denalyn estava comigo no carro.
— Vou recordar-lhe porque você se casou comigo — gabei-me eu,
enquanto nos aproximávamos da interseção. — Está vendo aquela longa fila de
carros? Está ouvindo essa cantilena triste dos subúrbios? Está vendo essa
enfadonha humanidade? Isso não é para mim. Aguarde!
Como um caçador num safári, desviei da travessa seis para a travessa um, e
partilhei com minha amada a minha secreta via expressa para a liberdade.
— O que você acha? — Perguntei-lhe aguardando sua adoração.
— Acho que você quebrou a lei.
— O quê?
— Você foi pelo lado errado, numa via de mão única.
— Eu não.
— Volte e veja você mesmo.
Eu o fiz. Ela estava certa. De algum modo, eu não notara a placa. Minha
estrada-mais-curta era uma rota-não-permitida. Junto à grande lixeira alaranjada
estava a placa “Sentido Proibido”. Não admira que as pessoas me olhassem
daquele jeito quando eu entrava na aléia. Eu pensava que elas fossem invejosas;
elas pensavam que eu fosse desajustado.
Porém o meu problema não é o que fiz antes de conhecer a lei. Meu
problema é o que quero fazer agora, depois de conhecer a lei. Você deve achar
que eu não teria vontade de usar aquela passagem, mas eu tenho! Parte de mim
ainda quer o atalho. Parte de mim ainda quer quebrar a lei. (Perdoe-me todos
vocês, patrulheiros, que estão lendo este livro). A cada manhã, as vozes dentro em
mim discutem.
Meu “dever” adverte: — É ilegal.
Minha “vontade” responde: — Mas eu nunca seria apanhado.
Meu “dever” lembra: — A lei é a lei.
Minha “vontade” contesta: — Mas a lei não é para motoristas cuidadosos
como eu. Além de que, eu poderia dedicar esses cinco minutos ganhos à oração.
Meu “dever” não cai nessa: — Ore no carro.
Antes de conhecer a lei, eu estava em paz. Agora que conheço a lei, uma
insurreição tem ocorrido. Sou um homem dividido. De um lado eu sei o que fazer,
porém não quero fazê-lo. Meu olhos lêem a placa “Sentido Proibido”, mas meu
corpo não quer obedecer. O que eu deveria fazer e o que acabo fazendo são duas
coisas bem diferentes. Eu estava melhor sem o conhecimento da lei.
Soa familiar? Poderia. Para muitos, é o itinerário para a alma. Antes de vir
a Cristo, tínhamos todos a nossa quota de atalhos. Imoralidade era um atalho para
o prazer. Fraude era um atalho para o sucesso. Jactância era um atalho para a
popularidade. Mentira era um atalho para o poder.
Então encontramos Cristo, encontramos graça, e vimos a placa. Não
aconteceu a você? Você tinha um temperamento forte, e então leu: “Qualquer que
ficar irado contra seu irmão estará sujeito a julgamento” (Mt 5.22 NVI). Puxa, eu
nunca soube disso.
Você tinha “olhos passeadores”, e então leu: “Qualquer que olhar para uma
mulher para desejá-la, já cometeu adultério com ela no seu coração” (Mt 5.28
NVI). Oh, céus, e agora, o que faço?
Você tende a exagerar em seus argumentos, e então lê: “Seja o seu ‘sim’,
‘sim’, e o seu ‘não’, ‘não’; o que passar disso vem do maligno” (Mt 5.37 NVI).
Mas venho falando assim há anos!
Você se compraz em deixar que as pessoas vejam a sua generosidade, e
então lê: “Mas quando tu deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a
tua direita” (Mt 6.3). Rapaz, eu não sabia que isso era errado.
Você tem o hábito de categorizar as pessoas em compartimentos, e então
ouve Jesus dizer: “Não julgueis, para que não sejais julgados” (Mt 7.1). E essa!
Ninguém nunca me disse que julgar era pecado.
Todos esses anos você tem estado pegando atalhos, nunca vendo a placa
“Sentido Proibido”. Agora você a viu. Agora você a conhece. Eu sei, eu sei... teria
sido mais fácil se você nunca a tivesse visto, porém agora a lei tem sido revelada.
Então, o que você faz?
Sua batalha é idêntica à que havia no coração de Paulo.
Sabemos que a lei é espiritual; eu, contudo, não o sou, pois
fui vendido como escravo do pecado. Não entendo o que
faço. Pois não faço o que desejo, mas o que odeio. E, se faço
o que não desejo, admito que a lei é boa. Neste caso, não
sou mais eu quem o faz, mas o pecado que habita em mim.
Sei que nada de bom habita em mim, isto é, em minha carne.
Porque tenho o desejo de fazer o que é bom, mas não
consigo realizá-lo. Pois o que faço não é o bem que desejo,
mas o mal que não quero fazer, esse eu continuo fazendo.
Ora, se eu faço o que não quero, já não sou eu quem o faz,
mas o pecado que habita em mim.
Assim encontro esta lei que atua em mim: quando quero fazer
o bem, o mal está junto a mim. Pois, no íntimo do meu ser
tenho prazer na lei de Deus; mas vejo outra lei atuando nos
membros do meu corpo, guerreando contra a lei da minha
mente, tornando-me prisioneiro da lei do pecado que atua em
meus membros (Rm 7.14-23).
A guerra civil da alma.
Quão bem-vinda é a confissão de Paulo! Que bom saber que ele se debatia
como o restante de nós. Aqueles que se têm espantado com a graça têm,
igualmente, se espantado com os seus pecados. Como dizer sim para Deus num
dia, e sim para Satanás no outro? Uma vez que conheço os comandos de Deus,
porque não ser zeloso em obedecê-los? Não deveriam esses conflitos cessarem,
agora que vejo a placa? Meu esforço significa que não estou salvo?
Esta é a indagação de Romanos 7. E estas são as indagações de muitos
cristãos. Há alguns anos, testemunhei a guerra íntima de um homem, e registrei
estes pensamentos:
De onde estou, posso ver um cardeal. Ele está no telhado ao
lado do meu escritório. Há três dias ele está lá. Uma visão
esplêndida: peito vermelho rubro, coroa de plumas em pé. Ele
canta a mesma canção vez após vez — um longo trinado,
seguido de outros quatro mais curtos. O ritmo nunca varia. O
arranjo nunca muda.
Ele voa ao topo do edifício, e empoleira-se no ponto mais alto
do telhado. Abre o leque emplumado atrás do pescoço, joga a
cabeça para trás e gorjeia: “Chiirrup, chirp, chirp, chirp, chirp”.
E então fica como que a espera de alguém que lhe responda
ao chamado. Mas nunca há uma resposta.
Ele repetirá o esforço. A plumagem flamejará; soará o
chamado, e ele esperará. Mas nunca há uma resposta.
Após alguns minutos, ele mergulhará no pátio. Verá seu reflexo no vidro da
janela, e voará para ela - o bico à frente. O som do impacto ecoará no pátio, e ele
retirar-se-á. Por um momento. Ele se recolhe, então vê seu reflexo e, lá vai...
spléft! Cambaleia de costas, lutando para manter o controle, apenas para abrir os
olhos, e ver o reflexo, e... Tump! O triste drama se repete.
Eu sacudo a cabeça. “Por que você não aprende?” Pondero. “Quanto tempo
levará para você aprender que o pássaro na janela é apenas uma ilusão?
Contudo, ele persiste... voando para a janela.
Minutos mais tarde, um jovem entra em meu escritório. Distinto, bem
vestido. Aperto de mão firme, tez bronzeada, sorriso luminoso. Breve conversa
sobre basquetebol, ocupação profissional, aeroportos. Sou tentado a encurtar a
conversa, mas... não o faço. Ele precisa de tempo para ganhar coragem. Sabemos
por que ele está aqui. Tínhamos tido esta conversa antes. Ele tem uma esposa. Ele
tem uma amante. Ele abandonou a primeira e vive com a segunda.
— Você tem ido em casa? — pergunto.
— Não — suspira ele, olhando o pátio através da janela. — Eu tentei, mas
não fui.
— Tem falado com sua esposa?
— Não tive coragem.
“Ele é apenas um menino”, falo comigo mesmo. Embaixo do terno italiano
e da conversa vivaz, ele é um garotinho que sabe que deveria, mas não consegue
parar. O que é este vazio dentro dele, que não pode ser preenchido pelo
casamento? O que é esta paixão que o leva para outra cama?
Olho pela janela, por cima de seu ombro, e vejo o cardeal bater o bico
contra a vidraça. Olho para o outro lado de minha escrivaninha e vejo o jovem
enterrar o rosto nas mãos.
— Sei o que devo fazer, mas não consigo.
O que fará com que ambos parem? Quanto vezes ainda hão de se ferir,
antes que se despertem?
No dia seguinte vim ao escritório, e o pássaro se fora. Logo depois chamei o
rapaz, e ele tinha ido. Penso que o pássaro aprendeu a lição. Não estou certo
quanto ao homem. Quem sabe você venha batendo a cabeça na parede. Alguma
fraqueza dentro de você, que o deixa atordoado? Suas palavras? Seus
pensamentos? Seu temperamento? Sua ganância? Seu ressentimento? Sua
bisbilhotice? As coisas eram melhores antes que você soubesse da existência da
lei. Mas agora você sabe. E agora você tem uma guerra a travar. E eu tenho duas
verdades sobre a graça para você levar ao campo de batalha.
1. Ele Ainda Reclama Você
Antes de mais nada, lembre-se de sua posição — você é um filho de Deus.
Alguns interpretam a presença da batalha como o abandono de Deus. Sua lógica é
mais ou menos assim: “Sou um cristão. Meus desejos são, de qualquer modo,
cristãos. Nenhum filho de Deus passaria por esses conflitos. Devo ser órfão. Deus
pode me haver dado um lugar no passado, mas não tem um lugar para mim
agora”.
É assim que Satanás semeia as tais sementes de vergonha. Se ele não pode
seduzir você com o seu pecado, ele fará você pensar em sua culpa. Nada o faz
exultar mais que ver você escondendo-se num canto, embaraçado por ainda estar
às voltas com um velho hábito. “Deus já está cheio de seus conflitos”, cochicha
ele. “Seu Pai esta cansado dos seus pedidos de perdão”, mente ele.
E muitos acreditam nele, passando anos e anos convencidos de que são
inqualificados para o reino. “Posso ir à fonte da graça tantas vezes? Não quero
ter de pedir perdão outra vez”
Perdoe minha resposta brusca, mas, quem lhe disse que você desejou pedir
perdão da primeira vez? Quando você veio a Cristo, fez com que Ele soubesse de
cada pecado que você cometera até então? Sim. Fez com que Ele soubesse de
cada pecado que cometeria no futuro? Sim, Ele soube disso também. Então Jesus
o salvou, sabendo de todos os pecados que você cometeria até o fim de sua vida?
Sim. Você quer dizer que Ele está disposto a chamá-lo de filho, mesmo
conhecendo todos — um por um — os pecados do seu passado e do seu futuro?
Sim.
Parece-me que Deus já proveu este detalhe. Se o seu pecado fosse grande
demais para a graça de Deus, Ele jamais o teria salvo na primeira vez. Sua
tentação não é a última notícia a estourar no céu. Seu pecado não surpreende
Deus. Ele viu quando este se avizinhava. Existe alguma razão para pensar que
Aquele que recebeu você da primeira vez não o receberá sempre?
Além de que, o simples fato de você estar sob ataque significa que você
está do lado certo. Você percebeu quem mais debateu-se em conflitos? Paulo.
Note o tempo verbal em que ele escreve:
“Nem mesmo compreendo...”
“... o que quero, isso não faço...”
“... o pecado que habita em mim.”
“Vejo nos meus membros outra lei que batalha...”
“Miserável homem que eu sou!” (Rm 7.15- 24, itálicos meus).
Paulo escreve no tempo presente. Não está descrevendo um conflito do
passado, mas do presente. Pelo que sabemos, o apóstolo estava engajado num
combate espiritual, mesmo enquanto escrevia esta epístola. Está querendo dizer
que Paulo batalhou com o pecado enquanto escrevia um livro da Bíblia? Você
pode imaginar um momento mais estratégico para Satanás atacar? Não seria
possível que Satanás temesse os resultados desta carta aos romanos?
Não é possível que ele tema os resultados de sua vida? Não seria o caso de
você estar sob ataque — não por ser fraco, mas porque pode tornar-se muito
forte? Talvez ele espere que, derrotando você hoje, terá um missionário a menos
— ou um escritor, ou um doador, ou um cantor — com quem lutar amanhã.
2. Ele Ainda Guia Você
Deixe-me dar-lhe a segunda verdade para levar ao campo de batalha. A
primeira é a sua posição: você é um filho de Deus. A segunda é o seu princípio: a
Palavra de Deus.
Quando sob ataque, nossa tendência é questionar a validade dos comandos;
racionalizamos como eu fiz com via de mão única. A lei é para os outros, não
para mim. Sou um bom motorista. Questionando a validade da lei, eu diminuí em
minha mente a autoridade da mesma.
Por essa razão, Paulo apressa-se em recordar-nos: “A lei é santa; e o
mandamento, santo, justo e bom” (Rm 7.12). A raiz da palavra santo é hagios,
que significa “diferente”. Os mandamentos de Deus são santos porque vieram de
um mundo diferente, de uma esfera diferente, de uma perspectiva diferente.
De certo modo, a placa “Sentido Proibido” de minha aléia interditada era
de uma esfera diferente. Os pensamentos de nossos legisladores não são como os
meus pensamentos. Eles estão interessados no bem público. Eu, em conveniência
pessoal. Eles querem o que é melhor para a cidade. Eu, o que é melhor para mim.
Eles sabem o que é seguro. Eu sei o que é rápido. No entanto, eles não criam leis
para o meu prazer; criam-nas para a minha segurança.
O mesmo é verdade com Deus. O que consideramos atalho é visto por Ele
como desastre. Ele não deu as leis para o nosso prazer. Deu-as para a nossa
proteção. Em tempos de conflito, devemos confiar em sua sabedoria, não na
nossa. Ele projetou o sistema; Ele sabe do que necessitamos.
Porém, como sou cabeçudo, penso “eu sei.” Meu desrespeito pela placa
“Sentido Proibido” revela um lado feio e egoísta em mim. Houvesse eu nunca
visto a lei, e nunca veria o quão egoísta sou.
Um exemplo pungente disso foi escrito há mil e setecentos anos por
Agostinho, em seu livro Confissões:
Havia uma pereira próxima à nossa vinha, carregada de frutos. Numa noite
de ventania, nós, os jovens, malvadamente levantamo-nos para roubá-los e
carregar nosso espólio. Trouxemos um grande carregamento de pêras - não para
banquetearmo-nos, mas para jogá-las aos porcos, embora tenhamos comido o
bastante para ter o prazer do fruto proibido. Eram lindas pêras, porém não eram as
pêras que minha alma ignóbil desejava, pois eu tinha muitas e melhores em casa.
Peguei-as simplesmente a fim de tornar-me um ladrão... o desejo de roubar foi
despertado pela proibição de fazê-lo.
Agostinho não foi atraído pelas pêras; foi atraído pela cerca. Não há dentro
de cada um de nós uma voz que diz: “Imagino quantas pêras posso apanhar sem
ser visto”? Ou “Imagino quantas vezes posso descer esta rua de mão única, sem
ser apanhado”?
No momento em que começamos a fazer tais perguntas, cruzamos a linha
invisível para a arena do medo. A graça livrou-nos do medo, contudo, quão
depressa retornamos. A graça disse que não temos de passar a vida olhando por
cima do ombro, mas observe nossa olhadela atrás. A graça garante-nos que fomos
libertos da culpa, no entanto, olhe para as manchas de pêra em nossas bochechas,
e para a culpa em nossas consciências.
Não sabemos bem? O que aconteceu conosco? Por que somos tão rápidos
em retroceder aos velhos caminhos? Ou, como Paulo tão francamente escreveu:
“Miserável homem que eu sou! Quem me livrará do corpo
desta morte?” (Rm 7.24).
Simples explicação: Somos impotentes para combater sozinhos o pecado.
Não nos alegra que Paulo tenha respondido a própria indagação?
“Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor” (v.25).
Do mesmo modo que nos salvou da primeira vez, salva-nos ainda.
Não há um ponto no qual você esteja menos salvo do que esteve no
primeiro momento em que Ele o salvou. Só porque você estava amuado no café
da manhã, não significa que foi condenado no café da manhã. Ontem, quando
você perdeu a calma, você não perdeu a salvação. Seu nome não desaparece e
reaparece no livro da vida de acordo com os seus humores e ações. Tal é a
mensagem da graça. “Portanto, agora já não há condenação para os que estão em
Cristo Jesus” (Rm 8.1 NVI).
Você está salvo, não por causa do que você faz, mas pelo que Cristo fez. E
você é especial, não por causa do que você faz, mas por causa daquele a quem
você pertence. E você é dEle.
E, porque somos dEle, vamos esquecer os atalhos e ficar na estrada
principal. Ele conhece a estrada. Ele traçou o mapa. Ele conhece o caminho para o
lar.
15. O Peso do Ódio
Mateus 18.21-35
Antes, sede uns para com os outros benignos,
misericordiosos, perdoando-vos uns aos outros, como
também Deus vos perdoou em Cristo. Efésios 4.32
A cada semana Kevin Tunell é solicitado a enviar um dólar a uma família
que ele preferiria esquecer. Eles o processaram em meio milhão de dólares, mas a
dívida acabou assentada em 936 dólares, pagos um de cada vez. A família espera
o pagamento a cada sexta-feira, assim Tunell não se esquece do que aconteceu
naquela primeira sexta-feira de 1982.
Nesse dia, uma jovem dessa família foi morta. Tunell foi condenado por
homicídio culposo e por dirigir embriagado. Ele tinha dezessete anos. Ela,
dezoito. Tunell cumpriu uma sentença. Gastou sete anos numa campanha contra
dirigir embriagado; seis anos a mais que o exigido. Porém não pode se esquecer
de enviar o dólar.
A restituição semanal só terminará no ano 2000. Dezoito anos. Tunell faz o
cheque, remete-o à família, e o dinheiro é depositado num fundo escolar.
A família já o levou ao tribunal quatro vezes, por falhar com o pagamento.
Após o mais recente comparecimento, Tunell passou trinta dias no cárcere. Ele
insiste que não está desprezando a ordem; antes, é assombrado pela morte da
garota e atormentado pelas lembranças. Ele ofereceu à família duas caixas de
cheques, cobrindo os pagamentos até o ano 2001, um ano a mais que o exigido.
Eles recusaram. Não é dinheiro que eles querem, mas penitência.
Citando a mãe: “Queremos receber o cheque cada semana, no dia certo. Ele
deve entender que vamos prosseguir com isto até agosto do ano 2000. Voltaremos
à corte todos os meses, se o tivermos de fazer”.
Poucos questionariam a ira da família. Apenas os ingênuos pensariam em
deixar o culpado impune. Porém eu tenho uma inquietação. Serão suficientes
esses 936 pagamentos? Não para Tunell enviar, note bem, mas para a exigência
da família. Quando receberem o último pagamento, ficarão em paz? Em agosto do
ano 2000, será a família capaz de enterrar o assunto? O preço da restituição —
dezoito anos — é suficiente? 196 meses de remorso é um preço adequado?
Quanto é o bastante? Fosse você da família, e fosse Tunell seu alvo,
quantos pagamentos você requereria? Melhor dizendo, quantos pagamentos você
requer?
Nenhum — repito, nenhum —, nem a vida inteira, é capaz de livrar da
injúria. Alguém, nalgum lugar, tem ferido você. Como a jovem de dezoito anos,
você tem sido uma vítima. Ela morreu porque alguém bebeu demais. Parte de
você tem morrido porque alguém falou demais, exigiu demais, ou negligenciou
demais.
O Hábito do Ódio
Todos estão feridos; consequentemente, todos devem decidir: quantos
pagamentos exigirei? Podemos não requerer que o ofensor preencha cheques, mas
temos outros meios de desforrar a ofensa.
Silêncio é uma técnica popular. (Ignore-os quando eles falarem.) Distância
é igualmente eficaz. (Quando eles vierem em seu caminho, passe para o outro
lado.) Resmungar é a terceira ferramenta da vingança. (“Oh, vejo que você ainda
tem dedos nas mãos. Engraçado você não usá-los para discar meu número”. “Oh,
Jô, que amável de sua parte levar a melhor no jogo de xadrez”)
É espantoso o quão criativo podemos ser na desforra. Se eu posso manchar
numa noite, frustrar num dia, derrotar numa sexta-feira, então a justiça é feita, e
eu fico satisfeito.
Por ora. Até eu pensar em você outra vez. Até eu ver você outra vez. Até
acontecer algo que me traga à memória o que você fez; então eu exijo outro
cheque. Não posso deixar você sarar antes de mim. Enquanto eu sofro, você sofre.
Enquanto me magôo, você se magoa. Você me feriu, e eu vou fazer você sentir-se
mal enquanto sangro, mesmo se eu próprio tiver de reabrir a chaga.
Chame-o de mal hábito. Nós o iniciamos bastante inocentemente,
indultando com doses de raiva a quem nos feriu. Não muito, apenas uma agulhada
ou duas de rancor. A ira adormece a ferida, então voltamos para mais uma
dosagem; desprezamos não apenas o que ele fez, mas quem ele é. Insultamo-lo.
Humilhamo-lo. Ridicularizamo-lo. A onda energiza. Entorpecidos na malícia,
invertemos os papéis; não somos a vítima, somos o vencedor. Sentimo-nos bem.
Logo odiamos a ele e a qualquer um como ele. (“Todos os homens são
estúpidos”. “Todos os pregadores são mercenários”. “Não se pode confiar em
mulher”.) A progressão é previsível. A ferida transforma-se em ódio, e o ódio, em
fúria; e nós tornamo-nos viciados, incapazes de passar um dia sem intolerância e
amargura.
Como será desagravada a ofensa? Como rompo o ciclo? Quantos
pagamentos exijo? Pedro tinha uma pergunta similar para Jesus: “Senhor, até
quantas vezes pecará meu irmão contra mim, e eu lhe perdoarei? Até sete?” (Mt
18.21).
Pedro está preocupado quanto a perdoar demais um ofensor. A lei judaica
estipulou que o ofendido perdoasse três vezes. Pedro está disposto a dobrar e
ainda dar mais uma de lambujem. Sem dúvida, ele pensa que Jesus ficará
impressionado. Mas não. A resposta do Mestre ainda nos espanta. “Não te digo
que até sete, mas setenta vezes sete” (v.22).
Se você parou para multiplicar setenta vezes sete, está perdendo o ponto
principal. Manter o controle de sua misericórdia, Jesus esta dizendo, não é ser
misericordioso. Se você está regulando a sua graça, não está sendo gracioso. Não
deveria haver nenhum ponto onde a nossa graça fosse exaurida.
A esta altura, os ouvintes de Jesus estão pensando nos Kevin Tunells do
mundo. “Mas e quanto ao pai que me abandonou quando eu era criança?” “E
minha esposa que me desprezou por um modelo mais novo”. “E meu patrão que
me despediu, embora meu filho estivesse doente?”
O Mestre os silencia com u’a mão levantada e a história do servo
negligente.
O reino dos céus pode comparar-se a um certo rei que quis
fazer contas com os seus servos; e, começando a fazer
contas, foi-lhe apresentado um que lhe devia dez mil talentos.
E, não tendo ele com que pagar, o seu senhor mandou que
ele, e sua mulher, e seus filhos fossem vendidos, com tudo
quanto tinha, para que a dívida se lhe pagasse. Então, aquele
servo, prostrando-se, o reverenciava, dizendo: Senhor, sê
generoso para comigo, e tudo te pagarei. Então, o senhor
daquele servo, movido de íntima compaixão, soltou-o e
perdoou-lhe a dívida. (Mt 18.23-27).
Este servo tinha um sério problema. Por alguma razão, ele acumulara uma
conta de milhões de dólares. Se ele pudesse pagar mil dólares por dia, durante
trinta anos, ficaria livre da dívida. Sem chance. Ele não fazia mil dólares por dia.
Sua dívida ia muito além do que ele podia pagar.
E, a menos que você tenha pulado a primeira parte deste livro, você sabe
que o mesmo é verdade em relação a nós. Nosso débito vai muito além do que
podemos pagar.
Nossos bolsos estão vazios, e nosso débito é de milhões. Não precisamos
de um salário; precisamos de um presente. Não necessitamos de lições de natação;
necessitamos de um salva-vidas. Não carecemos de um lugar para trabalhar;
carecemos de alguém que trabalhe em nosso lugar. Este “alguém” é Jesus Cristo.
“Isto é, a justiça de Deus pela fé em Jesus Cristo... ao qual Deus propôs para
propiciação pela fé no seu sangue” (Rm 3. 22, 25).
Nosso Mestre perdoou uma dívida intransponível. Deus exige algum
reembolso? Ele insiste em sua libra de carne? Quando seus pés trilham o caminho
errado, Ele exige que você os corte fora? Quando seus olhos fitam duas vezes o
que você nunca deveria ter olhado, Ele os cega? Quando você usa sua língua para
a profanação, em vez do louvor, Ele a corta fora?
Se Ele o fizesse, seríamos uma civilização mutilada. Ele não exige
pagamento; não de nós, pelo menos.
E aquelas promessas que fazemos: “Ajude-me a sair desta enrascada, Deus.
Nunca mais voltarei a desapontá-lo”. Somos tão maus quanto o devedor. “Seja
paciente comigo”, afiançou ele, “e pagarei tudo quanto lhe devo”. A idéia de
suplicar por misericórdia nunca passou-lhe pela mente. Não obstante nunca haver
implorado por graça, ele a recebeu. Deixou a câmara do rei como um homem
livre de dívidas.
Contudo, ele não acreditou.
Saindo, porém, aquele servo, encontrou um dos seus
conservos que lhe devia cem dinheiros e, lançando mão dele,
sufocava-o dizendo: Paga-me o que me deves.
Então, o seu companheiro, prostrando-se a seus pés, rogavalhe,
dizendo: Sê generoso para comigo, e tudo te pagarei.
Ele, porém, não quis; antes, foi encerrá-lo na prisão, até que
pagasse a dívida. (Mt 18. 28-30).
Algo está errado nesta ilustração. São essas as ações de um homem a quem
se perdoou milhões? Sufocando uma pessoa que lhe devia alguns trocados? São
essas as palavras de um homem deixado livre: “Pague-me o dinheiro que me
deve”?
Lembra-se do dedo-duro — o acusador — da parábola, no começo do
livro? Aqui está ele! Tão ocupado com os erros de seu irmão, que esquece a graça
do pai.
Ele exige que o seu devedor seja posto atrás das grades, até que possa
saldar a dívida. Que grotesco! Ele não é apenas ingrato; é irracional. Como ele
espera que o homem arranje dinheiro, estando na prisão? Se ele não tem fundos
aqui fora, descobrirá algum dinheiro dentro da cela? Claro que não. O que ele vai
fazer? Vender revistas aos reclusos? A decisão não faz sentido.
O ódio nunca faz.
Como pode ser isto? Como pode um perdoado não perdoar? Como pode
um homem livre não se apressar em libertar outros?
Parte da resposta é encontrada nas palavras de Jesus: “Aquele a quem
pouco é perdoado, pouco ama” (Mt 7.47).
Acreditar que estamos completa e eternamente livres da dívida não é fácil.
Mesmo se houvéssemos estado de pé diante do trono, e o ouvíssemos do próprio
rei, ainda duvidaríamos. Como resultado, a muitos é perdoado apenas um pouco.
Não que a graça do rei seja limitada, mas porque a fé do pecador é pequena. Deus
está disposto a perdoar tudo. Está disposto a passar uma esponja no passado. Ele
leva-nos ao tanque da misericórdia, e convida-nos ao banho. Alguns mergulham
nele; outros apenas tocam a superfície. Estes saem sentindo-se imperdoados.
Aparentemente, esse foi o problema do servo. Ele ainda se sentia em
débito. Que outra explicação há para o seu procedimento? Em vez de perdoar seu
devedor, ele o sufoca! “Eu o espremerei de você”. Ele odeia a simples visão do
homem. Por quê? Por que este lhe deve muito? Não acho que seja. Ele odeia o
homem porque este o faz lembrar-se de sua própria dívida para com o amo.
O rei perdoou-lhe o débito, mas o servo nunca aceitou verdadeiramente a
graça do rei. Agora entendemos porque o escritor de Hebreus insistiu: “Cuidem
para que ninguém se exclua da graça de Deus, nem alguma raiz de amargura brote
e cause perturbação, contaminando a muitos” (Hb 12.15 NVI).
A Cura para o Ódio
Onde a graça de Deus é omitida, nasce a amargura. Porém onde a graça de
Deus é abraçada, floresce o perdão. Na carta que muitos acreditam ser a última de
Paulo, ele instiga Timóteo: “Fortifica-te na graça que há em Cristo Jesus” (2 Tm
2.1).
Quão criteriosa é esta última exortação. Paulo não insta com Timóteo a que
seja forte na oração, ou no estudo bíblico, ou na benevolência, por mais vital que
seja cada uma destas coisas. Ele quer que seu filho na fé especialize-se em graça.
Reivindique este campo. Apoie-se nesta verdade. Se você deixar passar algo, que
não seja a graça de Deus.
Quanto mais passeamos no jardim, mais semelhante ao das flores é o nosso
aroma. Quanto mais imergimo-nos na graça, mais graça concedemos. Poderia isto
ser a chave do mistério para o fim da ira? Poderia ser que o segredo estivesse não
em exigir pagamento, mas em considerar o pagamento do seu Salvador?
Seu amigo quebrou a promessa? Sua patroa não manteve a palavra? Sinto
muito, porém antes de tomar uma decisão, responda: Como Deus age, quando
você quebra uma promessa feita?
Você tem sido ludibriado? Isto fere. Porém antes de cerrar o punho, pense:
Como Deus reage quando você falha com Ele?
Você tem sido negligenciado? Esquecido? Deixado atrás? A rejeição fere.
Mas antes de tirar desforra, seja honesto consigo mesmo: você nunca
negligenciou Deus? Você tem atendido sempre a sua vontade? Ninguém de nós o
tem feito. Como Ele reagiu quando você o negligenciou?
A chave para perdoar os outros é deixar de focalizar o que eles lhe fizeram,
e começar a concentrar-se no que Deus fez por você.
Mas, Max, isto não é justo! Alguém tem de pagar pelo que ele fez.
Concordo. Alguém tem de pagar, e Alguém já o fez.
Você não entende, Max. Este sujeito não merece graça. Não merece
misericórdia. Ele não é digno de perdão.
Não estou dizendo que ele seja. Mas, você é?
Além do mais, que outra escolha você tem? Ódio? A alternativa não é
atraente. Veja o que acontece quando nos recusamos a perdoar: “E, indignado, o
seu senhor o entregou aos atormentadores, até que pagasse tudo o que devia” (Mt
18.34).
Servos imperdoadores sempre acabam na prisão. Prisão da raiva, da culpa,
da depressão. Deus não nos põe numa cela; nós mesmos a criamos. “Um morre na
força da sua plenitude, estando todo quieto e sossegado... E outro morre, ao
contrário, na amargura do seu coração, não havendo provado do bem” (Jó 21.23-
25).
Oh, o gradual aperto do ódio. Seu estrago começa como a rachadura em
meu pára-brisa. Graças a um caminhão veloz numa estrada de cascalho, minha
janela foi estilhaçada. Começou com um trincado que logo se tornou uma
rachadura, e esta expandiu-se em várias raias. Logo o pára-brisa era uma teia de
aranha de fragmentos. Eu não podia guiar meu carro sem pensar no estúpido que
dirigia tão rápido. Embora nunca o tivesse visto, eu poderia descrevê-lo. Ele é
algum sujeito ordinário, que engana a esposa, dirige com um maço de baralho
sobre o banco, e deixa a televisão tão alta que os vizinhos não podem dormir. Seu
descuido obstruiu-me a visão. (Nem tanto pelas rachaduras no pára-brisa).
Já ouviu a expressão “cego de raiva”?
Deixe-me ser mais claro. O ódio lhe empanará as vistas e acabará por
quebrar-lhe as costas. O fardo da amargura é pesado demais. Seus joelhos dobrarse-
ão sob a carga, e de desgosto partir-se-á seu coração. A montanha à sua frente
já é bastante íngreme sem a opressão do ódio em suas costas. A escolha mais
sábia — a única escolha — é você arriar o fardo do ódio. Você nunca será
solicitado a dar a alguém mais graça do que Deus já lhe tem dado.
Durante a guerra mundial, um soldado alemão pulou para dentro de uma
trincheira em desuso. Ali, encontrou um inimigo ferido. O soldado abatido estava
encharcado de sangue, e a poucos minutos da morte. Comovido com a situação do
homem, o soldado alemão ofereceu-lhe água. Por este pequeno gesto de bondade,
um vínculo foi estabelecido. O moribundo apontou para o bolso de sua camisa; o
soldado alemão tirou dele uma carteira, e encontrou alguns retratos de família. Ele
os segurou de modo que o homem ferido pudesse olhar para seus amados uma
última vez. Com as balas zunindo acima deles, e a guerra à sua volta, esses dois
inimigos foram, embora por poucos minutos, amigos.
O que aconteceu naquela trincheira? Cessou todo o mal? O que era errado
tornou-se direito? Não. O que aconteceu foi simplesmente isto: dois inimigos
viram-se um ao outro como humanos, precisando de ajuda. Isto é perdão. O
perdão começa por levantar-se acima da guerra, olhar além do uniforme, e
escolher ver o outro, não como um adversário, ou mesmo um amigo, mas
simplesmente como um companheiro combatente, ansiando pela segurança do lar.
16. A Vida a Bordo do Barco da Comunhão
Romanos 15.7
Dêem uma calorosa acolhida a qualquer irmão que deseje
unir-se a vocês, mesmo que a sua fé seja fraca. Não o
censurem por ele ter idéias diferentes das suas a respeito
daquilo que está certo ou errado. Romanos 14.1 BV
Portanto, aceitem-se uns aos outros, da mesma forma como
Cristo os aceitou, afim de que vocês glorifiquem a Deus.
Romanos 15.7 NVI
A graça faz três proclamações.
Primeira, apenas Deus pode perdoar meu ateísmo. “Quem pode perdoar
pecados, senão Deus?” (Mc 2.7). Tratar com os meus pecados é responsabilidade
de Deus. Eu me arrependo; eu confesso. Porém somente Deus pode perdoar. (E
Ele o faz).
Segunda, apenas Deus pode julgar o próximo. “Quem és tu que julgas o
servo alheio? Para seu próprio senhor ele está em pé ou cai; mas estará firme,
porque poderoso é Deus para o firmar” (Rm 14.4). Tratar com o meu vizinho é
responsabilidade de Deus. Eu devo conversar; eu devo orar. Mas somente Deus
pode convencer. (E Ele o faz).
Terceira, eu devo aceitar como Deus aceita. “Portanto, recebei-vos uns aos
outros, como também Cristo nos recebeu para a glória de Deus” (Rm 15.7). Deus
me ama e faz de mim um filho seu. Deus ama meu vizinho, e faz dele um irmão
meu. Meu privilégio é completar o triângulo, fechar o circuito, amando a quem
Deus ama. Mais fácil falar do que fazer. “Viver lá em cima com aqueles a quem
amamos, oh, será a glória. Viver aqui embaixo com esses que conhecemos, oh, é
outra história.” Posso imaginar melhor a situação, lendo algo como isto...
Balançando o Barco
Deus tem nos alistado em sua marinha de guerra, e nos colocado em seu
navio. A embarcação tem um propósito — transportar-nos em segurança à outra
margem.
Este não é um navio de cruzeiro; é um couraçado de guerra. Não fomos
chamados a uma vida de lazer; fomos convocados a uma vida de serviço. Cada
um de nós tem uma tarefa diferente. Alguns, preocupados com os que se afogam,
estão arrebatando pessoas da água. Outros estão ocupados com o inimigo, assim
eles guarnecem os canhões da oração de da adoração. Ainda outros devotam-se à
tripulação, alimentando e treinando seus membros.
Embora diferentes, estamos na mesma. Cada um pode contar de um
encontro pessoal com o capitão, pois cada um recebeu uma chamada pessoal. Ele
achou-nos entre os barracos à beira do cais, e convidou-nos a segui-lo. Nossa fé
nasceu à vista de seu afeto, e assim nós fomos.
Todos o seguimos, pela prancha da sua graça, para o mesmo barco. Há um
único capitão e um único destino. Embora a batalha seja feroz, o barco é seguro,
pois. nosso capitão é Deus. O navio não afundará. Por isso, não há inquietação.
Há preocupação, no entanto, com a desarmonia da tripulação. Quando
subimos a bordo, compreendemos que a tripulação era feita de outros iguais a nós.
Porém, conforme vagueamos pelo tombadilho, fomos encontrando curiosos
convertidos, com aparências curiosas. Alguns usando uniformes que nunca vimos,
estilos esportivos que jamais conhecemos.
— Por que vocês têm esta aparência? — Perguntamos.
— Engraçado — replicam eles. — Estávamos nos perguntando a mesma
coisa a respeito de vocês.
A variedade das vestimentas nada é perto da perturbadora miscelânea de
opiniões. Há um grupo, por exemplo, que se ajunta todas as manhãs para sérios
estudos. Eles promovem disciplina rígida e expressões sombrias.
— Servir o capitão é coisa séria — explicam eles. Não é por coincidência
que eles tendem a se reunir na popa. 1
Há um outro regimento profundamente devotado à oração. Eles não apenas
acreditam em oração; acreditam em oração de joelhos. Por esta razão, você
sempre sabe onde localizá-los; eles estão na proa 2 do navio.
E então tem aqueles que acreditam firmemente que o vinho deve ser usado
na Ceia do Senhor. Você os encontrará do lado do porto 3.
Ainda há um outro grupo que se posiciona próximo ao motor. Eles passam
horas examinando os parafusos e porcas do navio. São conhecidos por ficarem no
convés inferior. Ocasionalmente, são criticados pelos que se demoram no
1 N.T.: Popa: O autor faz um trocadilho com a palavra inglesa stern, que além de popa, significa
também severo, rigoroso, austero, rígido.
2 N.T.: Proa: O vocábulo inglês para proa é bow, que também tem o sentido de dobrar, curvar o
corpo ou a cabeça em sinal de reverência.
3 N.T.: Porto: Do inglês port, também significa vinho do Porto.
tombadilho, sentindo o vento nos cabelos e o sol na face.
— O que interessa não é o que vocês aprendem — argumentam esses da
borda do navio —, mas o que vocês sentem.
E, oh, como tendemos a nos agrupar.
Alguns acreditam que, uma vez que se está no navio, não se pode sair.
Outros dizem que você deve ser tolo por exagerar, mas a escolha é sua.
Uns acreditam que você é voluntário para o serviço; outros, que você foi
destinado para ele antes de o navio ser construído.
Alguns vaticinam que uma tempestade de grande tribulação abater-se-á
antes de desembarcarmos; outros, que ela não virá enquanto não estivermos
seguros em terra firme.
Há aqueles que falam com o capitão numa língua pessoal. E há aqueles que
acham que tais línguas são extintas.
Uns acham que os oficiais devem usar mantos; outros, que não deve haver
oficiais. E ainda há quem ache que todos somos oficiais e todos devemos usar
mantos.
E, oh, como tendemos a nos agrupar.
E então há aquela discussão dos encontros semanais, onde o capitão é
agradecido, e suas palavras são lidas. Todos concordam sobre a importância
desses encontros, porém poucos concordam quanto a sua natureza. Alguns o
querem barulhento; outros, silencioso. Alguns desejam rituais; outros,
espontaneidade. Alguns querem celebrar a fim de poderem meditar; outros
querem meditar, a fim de celebrar. Alguns querem um encontro para esses que
têm ido para o mar. Outros querem alcançar esses que foram para ornar, mas sem
ir ao mar, e sem negligenciar os que estão a bordo.
E, oh, como tendemos a nos agrupar.
A conseqüência é um navio balouçante. Há agitação no tombadilho.
Disputas têm surgido. Marinheiros têm se recusado a falar uns com os outros.
Ocasiões há, em que um grupo se recusa até mesmo a reconhecer a presença do
outro no navio. E o que é mais trágico, alguns à deriva têm preferido não subir a
bordo, por causa das rixas dos marinheiros.
— O que fazemos?— gostaríamos de perguntar ao capitão. — Como estar
em harmonia no barco?
Não precisamos ir longe para achar a resposta.
Na última noite de sua vida, Jesus fez uma oração que se levanta como uma
fortaleza para todos os cristãos:
Minha oração não é apenas por eles. Rogo também por
aqueles que crerão em mim, por meio da mensagem deles,
para que todos sejam um, Pai, como tu estás em mim e eu
em ti. Que eles também estejam em nós, para que o mundo
creia que tu me enviaste. (Jo 17.20, 21 NVI)
Quão preciosas são essas palavras. Jesus, sabendo que o fim está perto, ora
uma última vez por seus seguidores. Surpreendente, não? Ele não orou pelo
sucesso deles, nem por sua segurança, ou por sua felicidade. Ele orou por sua
unidade. Orou para que amassem uns aos outros.
Enquanto orava por eles, Jesus também orou por “aqueles que crerão em
mim, por meio da mensagem deles.” Quis dizer nós! Em sua última oração, Jesus
orou para que você e eu fôssemos um.
O Comando da Aceitação
De todas as lições que podemos extrair deste versículo, não perca a mais
importante: unidade importa para Deus. O Pai não quer que seus filhos briguem.
Desunião o incomoda. Por quê? Porque “nisto todos conhecerão que sois meus
discípulos, se vos amardes uns aos outros” (Jo 13.35).
A unidade produz crença. Como o mundo acreditaria que Jesus foi enviado
por Deus? Não se concordarmos uns com os outros. Não se resolvermos cada
controvérsia. Não se formos unânimes em cada votação. Não se nunca
cometermos um erro doutrinário. Mas se nos amarmos uns aos outros.
A unidade promove a crença. A desunião nutre a incredulidade. Quem quer
embarcar num navio com marinheiros brigões? A vida no oceano pode ser
borrascosa, mas pelo menos as ondas não nos insultam.
Paul Billheimer pode muito bem estar certo quando diz:
“As contínuas e freqüentes fragmentações da Igreja tem sido
o escândalo do século. Tem sido a estratégia maior de
Satanás. O pecado da desunião tem feito mais almas
perdidas que todos os outros pecados juntos”.
“Todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos
outros”. Pare e pense um minuto neste versículo. Não seria a união a chave para
alcançar o mundo para Cristo?
Se a união é a chave para o evangelismo, não deveria ela ter prioridade em
nossas orações? Não deveríamos nós, como recomendou Paulo, fazer “todo o
esforço para conservar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz”? (Ef 4.3 NVI).
Se a unidade importa para Deus, não deveria importar também para nós? Se a
unidade é prioridade no céu, não deveria sê-lo também na terra?
De qualquer modo, em lugar algum foi-nos dito para construir unidade.
Foi-nos ordenado, simplesmente, que a conservássemos. Da perspectiva divina,
há “um só rebanho e um só pastor” (Jo 10.16). A unidade não precisa ser criada;
precisa ser protegida.
Como fazemos isto? Como nos empenhamos na conservação da unidade?
Isto significa conciliar nossas convicções? Não. Significa abandonar as verdades
que aprecio? Não. Significa, porém, dar uma olhada firme e demorada nas
atitudes que sustentamos.
Um Caso a Estudar em Cafarnaum
Algum tempo atrás, Denalyn comprou um macaco. Eu não queria um
macaco em nossa casa, então objetei.
— Onde ele vai comer? — perguntei.
— À nossa mesa.
— Onde ele vai dormir? — inquiri.
— Em nossa cama.
— E o cheiro? — reclamei.
— Eu me acostumei ao seu; suponho que o macaco também se acostumará.
A unidade não começa com o exame do outro, mas de si mesmo. Não
começa exigindo que os outros mudem, mas admitindo que nós mesmos não
somos perfeitos.
Para um bom exemplo, vá a uma vila chamada Cafarnaum, e entre numa
pequena casa, ocupada por Jesus e os discípulos. Ouça quando o Mestre lhes
indaga: “O que vocês vinham discutindo pelo caminho?” (Mc 9.33).
Os discípulos coram, não de raiva, mas de embaraço. Eles tinham
discutido. Sobre doutrina? Não. Estratégia? Também não. Ética e valores? Sinto
muito. Haviam discutido sobre qual deles seria o maior.
Pedro achava fosse ele (andara sobre as águas). João via a si mesmo no
topo (era o favorito de Jesus). Mateus orgulhava-se de ser o melhor (afinal, seu
livro seria o primeiro do Novo Testamento). Jogo de poder; tentativa de parecer
melhor que os outros, tentando diminuí-los. Não é aí que a divisão geralmente
começa?
“Porque, onde há inveja e espírito faccioso, aí há perturbação
e toda obra perversa” (Tg 316).
“Donde vêm as guerras e pelejas entre vós? Por ventura não
vêm disto, a saber, dos vossos deleites, que nos vossos
membros guerreiam?” (Tg 4.1).
Notável. Manobrando por posição na própria presença de Cristo. Porém
não tão notável quanto a resposta de Cristo a eles.
“Qualquer um que receber uma destas crianças em meu
nome a mim me recebe, e qualquer que a mim me receber
recebe não a mim, mas ao que me enviou” (Mc 9.37 itálicos
meus).
Jesus sentia tão fortemente a questão da aceitação, que usou o verbo
receber quatro vezes na sentença.
A resposta aos argumentos? Aceitação. O primeiro passo para a unidade?
Aceitação. Não concórdia; aceitação. Não unanimidade; aceitação. Não
negociação, arbitragem, ou laboração. Essas podem vir mais tarde, porém só
depois do primeiro passo — aceitação.
Tal resposta perturbou João. Simplista demais. O Filho do Trovão era
alheio à tolerância. Porque você não sai por aí, simplesmente aceitando as
pessoas! Barreiras são construídas. Fronteiras são uma parte necessária da
religião. Exemplo característico? João tem um.
O Teste da Divergência
“E João lhe respondeu, dizendo: Mestre, vimos um que, em
teu nome, expulsava demônios, o qual não nos segue; e nós
lho proibimos, porque não nos segue” (Mc 938).
João tem um dilema. Ele e os demais discípulos encontraram, por acaso,
alguém que estava fazendo grandes obras. Esse homem estava expulsando os
demônios (coisa que os discípulos haviam tido dificuldade em fazer, conforme
Mc 9.17-20). O homem estava mudando vidas. E, além do mais, estava dando o
crédito a Deus; fazia-o em nome de Cristo.
Todas as coisas a seu respeito estavam certas. Resultados certos. Coração
certo. Mas havia um problema: ele era do grupo errado.
Então os discípulos fizeram o que qualquer religioso saudável faria com
alguém do grupo errado. Levaram-no ao porão do navio e puseram-no em
confinamento. “Nós o fizemos parar, porque ele não pertence ao nosso grupo”.
João quer saber se fez a coisa certa. Ele não está convencido; está confuso.
Assim é muita gente hoje. O que você acha das coisas boas feitas por um outro
grupo? O que você faz quando gosta do fruto, mas não do pomar?
Tenho feito esta pergunta. Sou profundamente reconhecido de minha
herança. Foi através de uma pequena Igreja de Cristo, no Oeste do Texas, que vim
a conhecer o Nazareno, a cruz, e a Palavra.
A congregação não era grande; talvez duzentas pessoas, nos melhores
domingos. A maioria das famílias era como a minha, operários dos campos
petrolíferos. Era, porém, uma igreja amorosa. Quando nossa família estava
doente, os membros visitavam-nos. Quando faltávamos, telefonavam. E quando
este pródigo retornava, abraçavam-me.
Aprecio profundamente a minha herança. Contudo, através dos anos, minha
fé tem sido suplementada por pessoas de outros grupos. No navio de Deus, não
demorei muito a encontrar encorajamento em outras salas de estar.
Um brasileiro pentecostal falou-me da oração. Um britânico anglicano,
chamado C. S. Lewis pôs músculo em minha fé. Um sulista batista ajudou-me a
compreender a graça.
Um presbiteriano, Steve Brown, contou-me da soberania divina, enquanto
outro, Frederick Buechner, falou-me da paixão de Deus. Um católico, Brennan
Manning, convenceu-me de que Jesus é implacavelmente terno. Sou um marido
melhor, porque li James Dobson; e um melhor pregador, porque ouvi Chuck
Swindoll e Bill Hybels.
E, só quando chegar ao lar, saberei o nome do pregador de rádio, cuja
mensagem encaminhou-me de volta a Cristo. Eu era um aluno diplomado, que
perdera seu propósito. Precisando de algum dinheiro para o natal, aceitei o
trabalho de dirigir um caminhão de entrega de um campo petrolífero. O rádio
pegava apenas uma estação. Havia um pregador. Num dia frio de dezembro, de
1978, ouvi-o descrever a cruz. Não sei seu nome. Desconheço-lhe a herança.
Poderia ter sido um quaker ou um anjo, ou ambas as coisas. Mas algo do que ele
disse levou-me a encostar a camioneta à beira da estrada, e rededicar minha vida a
Cristo.
Examine o Fruto e a Fé
O que você faz quando vê grandes obras serem feitas por pessoas de outros
grupos? Não ações divisórias, nem ensinamentos heréticos, mas boas obras, que
glorifiquem a Deus? Voltemos à conversa entre Jesus e os discípulos.
Antes de se deter no que Jesus disse a João, note o que Ele não disse. Jesus
não falou: “João, se as pessoas são bonitas, estão dentro.” Gestos generosos e atos
benevolentes não são, necessariamente, características de um discípulo. Apenas
porque um grupo distribui brinquedos no natal, não significa que seja cristão. Só
porque dão alimento aos famintos, não quer dizer que sejam os favoritos de Deus.
Jesus não ordenou a tolerância cega.
Nem tampouco defendeu a rejeição de um cobertor. Se unanimidade de
opinião fosse necessária à comunhão, esse teria sido um momento perfeito para
Jesus dizê-lo. Porém, Ele não o fez. Jesus não deu a João um livro de
regulamentações, pelo qual avaliar cada candidato. Fosse necessária uma lista de
controle, esse teria sido o momento ideal para dá-la. Mas Ele não o fez.
Atente para o que Jesus disse: “Não lho proibais, porque ninguém há que
faça milagre em meu nome e possa logo falar mal de mim” (Mc 9.39).
Jesus estava impressionado com a fé pura do homem (“...que em meu
nome”) e seu fruto poderoso (“...faz milagres). Sua resposta oferece-nos uma
lição crucial de tolerância refletida. Como você reagiria a alguém de uma herança
religiosa diferente?
Primeiro, olhe o fruto. É bom? É saudável? Ele, ou ela, está ajudando ou
prejudicando as pessoas? Produção é mais importante que pedigree. Mais importa
o fruto que o nome do pomar. Se a pessoa está carregada de frutos, seja grato!
Uma árvore boa não pode produzir frutos maus (Mt 7.17), e seja agradecido por
Deus estar trabalhando noutro grupo que não o seu.
Mas olhe também a fé. Em nome de quem, é feita a obra? Jesus aceitou a
obra daquele homem, porque era feita em nome de Cristo. O que significa fazer
algo “em nome de Cristo”? Significa que você está sob a autoridade e a
procuração deste nome.
Se vou à concessionária de veículos, e digo que quero um carro grátis, o
vendedor vai rir de mim. Entretanto, se eu for com uma carta escrita e assinada
pelo dono da concessionária, garantindo-me um carro grátis, sairei de lá dirigindo
um. Por quê? Porque estarei lá sob a autoridade e procuração do dono.
O Mestre manda examinar a fé da pessoa. Se ela tem fé em Jesus, e é
autorizada por Deus, a graça diz que isto basta. Este é um ponto importante.
Alguns não trabalham em nome de Deus. Lembra-se do amontoador de pedras da
parábola? Eles esperam a salvação pelas obras, em vez da graça. Não estão
trabalhando em nome de Deus; não precisam de Deus. Estão trabalhando sob uma
bandeira de méritos humanos e justiça própria. Devemos ser tão intolerantes a
respeito da auto-salvação quanto o era Paulo.
Todavia, há crentes de muitas e diferentes heranças, que depositam sua
esperança no Filho Primogênito de Deus, e põem sua fé na cruz de Cristo. Se eles,
como você, estão confiando nEle para carregá-los ao castelo do Pai, não partilham
vocês o mesmo Salvador? Se a confiança deles, como a sua, está no sacrifício
todo suficiente de Cristo, não estão vocês cobertos com a mesma graça?
Você quer dizer que eles não têm de ficar em meu grupo? Não.
Eles não têm de partilhar a minha experiência? Não.
Não têm de ver todas as coisas do meu modo? Alguém tem?
O que importa é o fruto e a fé que eles têm. Mais tarde, o já moderado
Filho do Trovão resumiria isto assim: “Qualquer um que confessar que Jesus é o
Filho de Deus, Deus está nele e ele em Deus” (1 Jo 4. 15).
Irônico. Aquele que provocara a resposta simples do Mestre apresentaria,
eventualmente, uma resposta própria ainda mais simples.
Deveria ser simples. Onde há fé, arrependimento, e um novo nascimento,
há um cristão. Quando encontro um homem cuja fé está na cruz, e os olhos no
Salvador, encontro um irmão. Não era assim com Paulo? Quando escreveu à
igreja em Corinto, ele dirigiu-se a um grupo de cristãos culpados de todos os
pecados — desde abuso da ceia do Senhor a disputas sobre o Espírito Santo. Não
obstante, como se lhes dirigiu? “Rogo-vos, porém, irmãos” (1 Co 1.10).
Quando a igreja em Roma estava debatendo o comer carne oferecida aos
ídolos, Paulo sugeriu-lhes que começassem duas igrejas? Uma para os
comedores-de-carne, e outra para os não-comedores-de-carne? Não, ao contrário,
ele insistiu: “Portanto, recebei-vos uns aos outros, como também Cristo nos
recebeu para glória de Deus” (Rm 15.7).
Acaso Deus está nos pedindo para fazer alguma coisa a mais do que Ele já
fez? Ele não tem percorrido um longo caminho em nos aceitar? Se Deus pode
tolerar meus erros, não posso eu ser tolerante para com as falhas dos outros? Se
Deus me permite — com minhas fraquezas e deficiências — chamá-lo Pai, não
devo eu estender a mesma graça a outros? De fato, quem pode oferecer graça
senão os que estão seguros nas garras da graça? Se Deus não exige perfeição,
devo eu exigir?
“Eles são servos de Deus”, lembra-nos Paulo, “e não de vocês.” São
responsáveis perante Ele, e não perante vocês. Deixem que Ele lhes diga se estão
certos ou errados. E Deus mesmo é capaz de levá-los a agir como devem” (Rm
14.4 BV).
O navio de Deus é uma grande embarcação. Assim como um navio tem
muitas dependências, o reino de Deus tem lugar para muitas opiniões. Porém,
assim como um navio tem um deque, o reino de Deus tem uma base comum: o
sacrifício todo suficiente de Jesus Cristo.
Você orará comigo pelo dia quando a oração de Jesus será respondida?
Você orará comigo pelo dia quando o mundo será vencido porque a Igreja é
uma?
Você orará comigo pelo dia quando sairemos de nossos compartimentos e,
de pé, saudaremos juntos o capitão? Quando os grupos cessarão, e o coro
começará?
A última oração de Jesus, antes da cruz, foi pela unidade de seus
seguidores. Iria Ele oferecer uma oração que não pudesse ser respondida?
Também penso que não.
17. O Que Realmente Queremos Saber
Romanos 8.31-39
Quem nos separará do amor de Cristo? Romanos 8.35
Foi por causa da canção dela. A princípio, eu não notei. Não havia razões
para tal. As circunstâncias eram corriqueiras. Um papai buscando a filhinha de
seis anos, numa reunião das bandeirantes. Sara ama os prêmios que ganha e o
uniforme que usa. Ela entrou no carro, e mostrou-me seu novo distintivo e os
biscoitos recém-assados. Eu virara na estrada, ligara sua música preferida, e
voltara minha atenção para assuntos mais sofisticados.
Porém mal colocara os pés no labirinto do raciocínio, tive de retornar. Sara
estava cantando. Cantando sobre Deus. Cantando para Deus. Cabeça para trás,
queixo erguido, e pulmão cheio, ela inundava o carro com a música. As harpas do
céu silenciaram para ouvir. Esta é a minha filha? Cantava como se fosse mais
velha. Parecia mais velha, mais alta, e mesmo mais bonita. Por onde andara eu? O
que acontecera às bochechas redondas? O que acontecera com o rostinho e os
dedos gorduchos? Ela estava se tornando uma mocinha. O cabelo louro descia-lhe
pelos ombros. Os pés pendiam do assento. Nalgum lugar, durante a noite, uma
página havia sido virada e, olhem para ela!
Se você é pai, ou mãe, sabe do que estou falando. Ontem, as fraldas, hoje,
as chaves do carro? Daqui a pouco seu filho estará indo para o colégio, talvez
interno, e você desperdiçando chances de mostrar-lhe amor. Então você fala.
Foi o que fiz. A canção parou, e Sara também. Então desliguei o som, puslhe
a mão no ombro, e confessei:
— Sara, você está um tanto especial. Ela voltou-se e sorriu tolerantemente.
— Um dia, algum rapaz de pernas cabeludas irá arrebatar-lhe o coração e
transportá-la para o próximo século. Mas por enquanto, você pertence a mim.
Ela inclinou a cabeça, olhou para fora por um instante, e então voltou a
olhar-me e perguntou:
— Papai, por que você está sendo tão esquisito?
Supus que tais palavras soassem estranhas a uma garotinha de seis anos. O
amor de pai pode cair de modo embaraçoso nos ouvidos do filho. Minha explosão
de emoções foi além da compreensão de Sara. Contudo, isso não me impediu de
falar.
Não há como nossas mentes limitadas compreenderem o amor de Deus.
Porém isto não o impede de vir.
E nós, também, temos inclinado nossas cabeças. Igual a Sara, temos
inquirido o que nosso Pai está fazendo. Do berço em Belém, à cruz em Jerusalém,
temos ponderado sobre o amor de nosso Pai. O que você pode dizer dessa espécie
de emoção? Depois de aprender que Deus preferiu morrer a viver sem você, como
você reage? Como você pode começar a explicar tal paixão? Se você fosse Paulo,
o apóstolo... Mas não é. Você não fez declarações. Não ofereceu explanação.
Você fez algumas perguntas. Cinco, para ser exato.
A reação de Paulo para com a graça de Deus é a quinta das questões,
lançadas como fogos de artifício, não para trazer indagações, mas estupefação.
“[Paulo] desafia a todos e a qualquer um, no céu, na terra, ou no inferno, a
respondê-las, e a negar a verdade que contêm”.
Estas indagações não lhe são novas. Você as tem feito. Dentro da noite,
você tem indagado. O diagnóstico médico as trouxe à tona, assim como fizeram a
decisão da corte e o telefonema do banco. As questões esquadrinham a dor, o
problema e a circunstância. Não, as questões não são novas; as respostas são.
A Questão da Proteção
“Se Deus é por nós, quem será contra nós?” (Rm 8.31).
A questão não é simplesmente, “Quem será contra nós?” Você poderia
responder essa. Quem é contra você? Enfermidade, inflação, corrupção,
esgotamento. Enfrentar calamidades, e temer a prisão. Fosse a pergunta de Paulo,
“Quem será contra nós?”, e poderíamos alistar nossos adversários mais facilmente
que lutar com eles. Todavia, não é esta a questão. A questão é: SE DEUS É POR
NÓS, quem será contra nós?
Perdoe-me por um momento. Quatro palavras neste versículo merecem-lhe
a atenção. Leia devagar a frase “Deus é por nós”. Por favor, pare um instante
antes de prosseguir. Leia novamente, em voz alta. (Minhas desculpas à pessoa
perto de você). Deus é por nós. Repita a frase quatro vezes, enfatizando cada
palavra. (Vamos, você não está com tanta pressa).
Deus é por nós.
Deus é por nós.
Deus é por nós.
Deus é por nós.
Deus é por você. Seus pais podem tê-lo esquecido, seu professor pode tê-lo
negligenciado, seus irmãos podem tê-lo humilhado; mas ao alcance de suas
orações está o Criador dos oceanos. Deus!
Deus é por você. Não que Ele “pode ser”, não que Ele “tem sido”, não que
Ele “era”, não que Ele “seria”, mas “Deus é!” Ele é por você. Hoje. Nesta hora.
Neste minuto. Enquanto você lê esta sentença. Não precisa esperar numa fila, ou
voltar amanhã. Ele está com você. Ele não estaria mais perto do que está neste
momento. Sua lealdade não aumenta se você é melhor, nem diminui se você é
pior. Ele é por você.
Deus é por você. Volte-se para a linha lateral; é Deus animando-lhe a
corrida. Olhe para a linha de chegada; é Deus aplaudindo-lhe a marcha. Ouça-o na
arquibancada, gritando-lhe o nome. Cansado demais para continuar? Ele o
carregará. Desencorajado demais para lutar? Ele o reabilitará. Deus é por você.
Deus é por você. Tivesse Ele um calendário, seu aniversário seria
assinalado. Dirigisse Ele um carro, seu nome estaria no pára-choque. Houvesse no
céu uma árvore, Ele entalharia seu nome na casca. Sabemos que Ele tem uma
tatuagem, e sabemos o que ela significa. “Na palma das minhas mãos te tenho
gravado”, declara Ele. (Is 49.16).
“Pode uma mulher esquecer-se tanto do filho que cria, que se não
compadeça dele, do filho do seu ventre?” Inquire Deus, em Is 49.15. Pergunta
extravagante. Você, mãe, pode imaginar-se alimentando seu filhinho, e então,
depois, perguntar: “Qual o nome desse bebê?” Não. Eu a tenho visto cuidar de seu
filhote. Você afaga-lhe os cabelos, toca-lhe a face, canta-lhe o nome, vezes sem
conta. Pode uma mãe se esquecer? De jeito nenhum. Mas “ainda que esta se
esquecesse, eu, todavia, não me esquecerei de ti” garante Deus (Is 49.15).
Deus é com você. Sabendo disto, quem é contra você? Pode a morte feri-lo
agora? Pode a enfermidade roubar-lhe a vida? Pode o seu propósito ser tirado, ou
o seu valor diminuído? Não. Embora o próprio inferno possa levantar-se contra
você, nada pode derrotá-lo. Você está protegido. Deus é com você.
“Aquele que não poupou a seu próprio Filho, mas o entregou
por todos nós, como não nos dará, juntamente com ele,
gratuitamente todas as coisas?” (Rm 8.32 NVI).
Suponhamos que um homem descubra uma criança sendo atacada por um
assassino. Ele arremete por entre a turba, salva o menino, e carrega-o para o
hospital. O garoto é assistido. O homem paga pelo seu tratamento. Ele fica
sabendo que a menino é órfão, e o adota, dando-lhe seu próprio nome. E então,
uma noite, meses mais tarde, o pai ouve o filho soluçar no travesseiro. Ele vai até
o menino, e pergunta-lhe o motivo das lágrimas.
— Estou preocupado, papai. Estou preocupado quanto ao amanhã. Onde
terei alimento para comer? Como comprarei roupas para ficar aquecido? E onde
irei dormir?
O pai fica legitimamente perturbado.
— Não lhe tenho mostrado? Você não entende? Arrisquei minha vida para
salvá-lo. Dei meu dinheiro para que você fosse tratado. Você usa meu nome. Eu o
tenho chamado de meu filho. Acha que eu faria tudo isso, e então não supriria
suas necessidades?
Esta é a pergunta de Paulo. Ele, que nos deu seu Filho, não supriria todas
as nossas necessidades?
Ainda assim nos preocupamos. Preocupamo-nos com a receita federal, com
o IPTU e com o INSS. Preocupamo-nos com a educação, a recreação e a
constipação. Preocupamo-nos em saber se teremos dinheiro suficiente, e quando
temos dinheiro, preocupamo-nos em saber administrá-lo. Preocupamo-nos com a
possibilidade de o mundo acabar antes que expire o tempo de nossa vaga no
estacionamento. Preocupamo-nos com o que o cachorro pensa, se nos vê sair do
chuveiro. Preocupamo-nos com a possibilidade de um dia descobrir que o iogurte
desnatado é engordativo.
Francamente. Deus o salvou a fim de que você se lamuriasse? Ensinou
você a andar só para vê-lo cair? Ele teria sido pregado na cruz por seus pecados, e
então desconsiderado suas orações? Ora, vamos. Estaria a Escritura caçoando de
nós quando diz “aos seus anjos dará ordens a teu respeito, para te guardarem em
todos os teus caminhos”? (Sl 91.11)
Também acho que não.
Duas Questões Sobre Culpa e Graça
“Quem intentará acusação contra os escolhidos de Deus? E Deus quem os
justifica. Quem os condenará? Pois é Cristo quem morreu ou, antes, quem
ressuscitou dentre os mortos, o qual está a direita de Deus, e também intercede
por nós” (Rm 8.33,34).
Algum tempo atrás, li a história de um menino que estava atirando pedras
com um estilingue. Ele nunca conseguia acertar o alvo. Quando retornou ao
quintal da vovó, avistou o pato de estimação da velha senhora. Num impulso, fez
pontaria e mandou ver. A pedra atingiu o pato, e este morreu. Apavorado, o
menino escondeu a ave na pilha de lenha, apenas para levantar os olhos e
descobrir que sua irmã estava observando.
Após o almoço daquele dia, vovó pediu a Sally que a ajudasse com a louça.
Sally respondeu:
— Johnny me disse que queria ajudá-la na cozinha hoje, não foi, Johnny?
— E ela cochichou para ele: — Lembre-se do pato!
Então Johnny lavou a louça.
Que escolha tinha ele? Pelas próximas semanas, esteve na pia muitas vezes.
Algumas vezes por seu dever; outras, por seu pecado
— Lembra do pato? — cochichava Sally, quando ele objetava.
para que nela acreditássemos, fez o que homem algum jamais sonhara. Ele fez-se
carne e habitou entre nós.
Ele pôs a mão no ombro da humanidade e disse: — Vocês são um tanto
especiais.
Sem se limitar pelo tempo, Ele nos vê. Todos. Das matas da Virgínia ao
centro comercial de Londres; dos vikings aos astronautas; do homem das cavernas
ao reis; do construtor de cabanas ao acusador, e ao amontoador de pedras, Ele nos
vê. Vagabundos e esfarrapados, Ele nos viu antes que houvéramos nascido.
E Ele ama o que vê. Inundado pela emoção. Acima do orgulho, o Criador
das estrelas volta-se para nós, olha um por um, e diz: — Você é meu filho. Eu o
amo ternamente. Estou consciente de que um dia você se afastará de mim, e
andará ausente. Porém quero que saiba que já lhe providenciei um caminho de
volta.
E para prová-lo, Ele fez algo extraordinário.
Descendo do trono, ele removeu seu manto de luz, e evolveu-se em pele:
pigmentada pele humana. A luz do universo penetrou a escuridão, banhou o
ventre. Ele, a quem os anjos adoram, aninhou-se na placenta de uma camponesa,
nasceu numa noite fria, e então, dormiu num cocho.
Maria não sabia se lhe dava leite ou louvor; deu-lhe portanto ambas as
coisas, já que Ele era, tanto quanto ela imaginava, faminto e santo.
José não sabia se o chamava de Júnior, ou de Pai. Por fim, chamou-o de
Jesus, já que fora esse o nome mencionado pelo anjo, e já que ele não tinha a mais
leve idéia de como chamar a um Deus, que ele podia embalar nos braços.
Nem Maria, nem José, o disse tão abruptamente quanto minha Sara, mas
não pense você que suas cabeças não se inclinavam, e suas mentes não
ponderavam: “O que, neste mundo, está o Senhor fazendo, Deus?” Ou, melhor
fraseado: “Deus, o que o Senhor está fazendo neste mundo?”
“Pode alguma coisa fazer-me parar de amar você?” Pergunta Deus.
“Observe-me falar sua língua, dormir em sua terra, e sentir suas dores. Olhe para
o Criador da visão e do som, enquanto Ele espirra, tosse e funga. Você pergunta
se eu entendo como se sente? Olhe dentro dos olhos dançantes do menino de
Nazaré; é Deus indo para a escola. Pense no pequenino à mesa de Maria; é Deus
derramando o leite.
“Você pergunta até quando durará o meu amor? Encontre sua resposta
numa cruz alcantilada, sobre um monte escarpado. Esse que você vê lá em cima é
o seu Criador, o seu Deus, furado com pregos, e sangrando. Coberto de cuspe, e
encharcado em pecado. É o seu pecado que estou sentindo. É a sua morte que
estou morrendo. É a sua ressurreição que estou vivendo. É como eu amo você.”
“Pode alguma coisa interpor-se entre você e eu?” Indaga o Primogênito.
Ouça a resposta, e firme o seu futuro sobre as triunfantes palavras de Paulo:
“Pois estou convencido de que nem morte nem vida, nem anjos nem demônios,
nem o presente nem o futuro, nem quaisquer poderes, nem altura nem
profundidade, nem qualquer outra coisa na criação será capaz de nos separar do
amor de Deus que está em Cristo Jesus nosso Senhor” (Rm 8.38,39).
Conclusão: “Não se Esqueça de Cuidar de Mim”
“Bem, estou contente por você estar sentado perto de mim. Às vezes eu
vomito.”
Não é exatamente o que você gosta de ouvir do passageiro aéreo sentado ao
seu lado. Antes que eu tivesse tempo de alojar minha bagagem no compartimento
acima, soube seu nome, sua idade e itinerário.
— Sou Billy Jack, tenho quatorze anos, e estou indo visitar meu pai.
Comecei a dizer-lhe meu nome, porém ele falou primeiro:
— Preciso que alguém cuide de mim. Sinto-me um tanto confuso.
Ele contou-me sobre a escola especial que freqüentava, e da medicação que
tomava.
— Pode me lembrar de tomar minha pílula daqui a pouco?
Antes de prendermos o cinto, ele parou a comissária:
— Não se esqueça de mim — lembrou-a. — Fico confuso.
Uma vez no ar, Billy Jack pediu um refrigerante, e mergulhou seu
salgadinho nele. Ficou espiando enquanto eu tomava o meu, e perguntou se podia
tomá-lo também, o que neguei. Ele derramou um pouco de sua soda, e desculpouse.
— Não há problema — tranqüilizei-o, enxugando o refrigerante derramado.
Billy Jack mostrou-me seu toca-fitas, e perguntou-me se eu gostaria de
ouvir uma música.
— Trouxe as minhas favoritas — sorriu ele, dando-me as fitas de A
Pequena Sereia, Aladim e O Rei Leão.
Quando ele começou a brincar com o seu Nintendo, tentei cochilar. Foi
quando ele passou a fazer ruídos com a boca, imitando uma trombeta.
— Posso soar como o oceano, também — gabou-se ele, fazendo a saliva
sibilar para frente e para trás, dentro das bochechas.
(Não soava como o oceano, mas eu não lhe disse).
Billy Jack era um pequeno menino num grande corpo.
— As nuvens podem tocar o chão? — perguntou-me ele.
Comecei a responder, porém ele olhou pela janela, como se nunca houvera
perguntado. Não se envergonhando de suas necessidades, ele não deixava passar
um comissário de bordo, sem lembrar: — Não se esqueça de cuidar de mim.
Quando trouxeram a comida: — Não se esqueça de cuidar de mim.
Quando trouxeram mais refrigerante: — Não se esqueça de cuidar de mim.
Quando uma aeromoça passava, Billy Jack insistia: — Não se esqueça de
cuidar de mim.
Honestamente, não posso pensar numa única vez em que Billy Jack não
tenha lembrado a tripulação de que ele necessitava atenção especial. O restante de
nós não precisava. Nunca pedimos ajuda. Éramos adultos. Sofisticados. Autoconfiantes.
Viajantes amadurecidos. A maioria de nós nunca deu ouvidos às
instruções para desembarque de emergência. (Billy Jack pediu-me que as
explicasse para ele).
Na metade deste livro, lembrei-me de Billy Jack. Ele teria compreendido a
idéia da graça. Ele saberia que graça implica em colocar-se totalmente aos
cuidados de alguém. Não partilhei com ele “A Parábola do Rio” (ainda não fora
escrita), mas sei com qual irmão ele teria se parecido.
O mais jovem. O que deixou o irmão mais velho carregá-lo rio acima. Ele
não teria entendido os três que recusaram a oferta do primogênito. Por que não
entregar-se aos cuidados de alguém mais forte?
Você o tem feito?
Muitos não têm. Somos sofisticados, maduros. Uma epístola para desafiar o
auto-suficiente, Romanos foi escrita para pessoas como nós. Confissão de
necessidades é admissão de fraquezas — algo que somos lentos em fazer. É por
isso que eu penso que Billy Jack teria entendido a graça. Ocorreu-me que ele era a
pessoa mais segura naquele vôo. Houvesse acontecido algum problema com o
avião, ele teria recebido primazia na assistência. Os funcionários teriam me
deixado de lado, e acorrido a ele. Por quê? Ele se havia entregue aos cuidados de
alguém mais forte.
Novamente eu pergunto: você o tem feito?
Um coisa é certa: você não pode salvar-se a si mesmo. O rio é forte demais;
a distância é grande demais. Deus enviou o seu Primogênito para carregá-lo ao
Lar. Você está firme nas garras da graça? Oro para que esteja. Oro sinceramente
para que esteja.
Antes de concluirmos nosso tempo juntos, você poderia gastar algum
tempo com as questões a seguir? Possa o Espírito Santo usá-las para revelar
alguma resistência que, por ventura haja em sua mente, para com a graça de Deus.
Você se apressa em contar aos outros das pedras que tem amontoado? Ou
você prefere orgulhar-se da força de seu irmão mais velho?
Você vive temeroso de nunca fazer o bastante? Ou vive agradecido,
sabendo que o que já foi feito é suficiente?
Você vive num círculo fechado, aceitando apenas os poucos que trabalham
igual a você? Ou vive num círculo amplo, aceitando a todos os que amam a quem
você ama?
Você adora para impressionar Deus? Ou adora em gratidão a Ele?
Você pratica boas obras a fim de ser salvo? Ou as pratica porque é salvo?
Você ora: “Deus, obrigado porque não sou como outras pessoas que
roubam, traem, ou tomam parte em adultério”?
Ou você confessa: “Deus, tem misericórdia de mim, pecador”?
* * *
Um derradeiro pensamento. Billy Jack passou a última hora do vôo com a
cabeça em meu ombro, as mãos entrelaçadas entre os joelhos. Justamente quando
eu pensava que ele estivesse dormindo, sua cabeça levantou-se rapidamente, e ele
disse:
— Meu pai está vindo encontrar-me no aeroporto. Mal posso esperar para
vê-lo, porque ele cuida de mim.
Paulo teria gostado de Billy Jack.
* * *